
Entrevistei Rebeca Ferreira, uma índigena Munduruku, CEO da empresa Seanny Artes Produções e aqui ela nos conta um pouco sobre seu percurso como empreendedora de Moda Indígena.
Por que resolveu empreender?
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Eu sou incentivada a ser uma empreendedora desde criança através do meu pai que sempre amou a gestão de negócios. Mas foi através da minha mãe e dos processos criativos dela que entrei de fato para o ramo empreendedor. Comecei a empreender juntamente com ela, Seanny Artes, no ano de 2017 na execução de eventos e experiências artísticas, mas nos tornamos de fato uma empresa no ano de 2021. Nesse lugar do empreendedorismo, atuo também como pesquisadora e ativista. Acredito que no mundo que vivemos hoje de conexões, esses temas estão interligados. E como eu sou uma indígena urbana, esses temas são alinhados aos princípios que acredito. Empreender não está focado apenas no dinheiro e no sucesso financeiro, como a maioria dos empresários pensam. Empreender está também relacionado a uma conscientização social e a focar na qualidade de vida das pessoas. Sou uma pesquisadora sociolinguística e sociocultural.Nesse lugar, quando consigo visualizar a necessidade dos meus parentes Amazônicos é quando eu começo a entender e compreender as melhores formas de empreender. E empreendendo, como retornar através do meu trabalho um meio sustentável e uma reafirmação de existência dos povos indígenas.
Qual sua inspiração?
Acredito que DEUS é um artista, criador de todas as qualidades de presença, vivências, experiências, lugares e povos que vivem na Amazônia. Sem Deus e a espiritualidade nada disso poderia ser possível, principalmente empreender. A visão do indígena sobre o mundo está nas nossas conexões. A floresta é uma extensão do nosso corpo, tudo está interligado. Acredito que a terra que eu vivo é minha segunda inspiração e faz parte de mim. O terceiro ponto é como entendemos a espiritualidade e o que conecta diretamente aos dois primeiros, como um direcionamento de luz para a inspiração do meu trabalho. O quarto, é minha própria família, especificamente minha mãe.ela é também estilista e idealizou todo o nosso projeto de Moda Indígena onde trabalhamos juntas. Enquanto ela é a Direção Criativa, sou a Direção Administrativa (Normativa).
Os povos indígenas também são minha fonte de inspiração, somos muitos e totalmente diferentes um do outro.
O que me incentiva a empreender é acreditar que um dia as pessoas saberão da nossa pluralidade cultural, podendo assim diferenciar povos originários e entender que precisamos de espaço.
Qual seu sonho?
Eu tenho um sonho que é muito recente e veio através da pesquisa e dos estudos de caso. Esse sonho é justamente os indígenas serem compreendidos pela pluralidade cultural, origem, etnia e lugar de nascimento. São questões muito relevantes e geralmente esquecidas. Comecei a visualizar essa diversidade através do trabalho,e ter apresentado o Primeiro Desfile de Moda Indígena do Brasil, com 15 etnias, foi o primeiro passo para esse percurso de identidade cultural.
Eu vejo a moda indígena como um caminho para esse percurso de reafirmação cultural e através desse trabalho já estamos no meio do caminho.
Qual o seu maior desafio?
Meu maior desafio enquanto indígena (descendente) é ser reconhecida pelos aldeados. Os indígenas por serem muitos povos, oriundos de muitos lugares, ainda possuem muitos conflitos e atritos internos. O principal desafio do indígena é romper com a dependência de pessoas e ocupar lugares de conhecimento, como escolas e universidades, no qual eles possam criar uma independência pessoal e exercer seus direitos e deveres como seres humanos.
O meu principal desafio é ser um canal para essas pessoas. É muito difícil lidar com essas questões, com esses rompimentos. Vivemos dentro de um sistema branco que insiste em visualizar os indígenas aldeados como "animais exóticos", que não podem ser tocados, não podem interagir com outros povos, não podem sonhar os sonhos dos brancos. E muitas lideranças indígenas são contaminadas com essa visão. Então, desconstruir essas coisas e situações é o meu maior desafio dentro do meu trabalho de Moda Indígena.
Acredito que está na hora do mundo inteiro nos conhecer como realmente somos, seres humanos.
Dentro da comunidade indígena existem outros empreendedores?
Existem muitos microempreendedores em comunidades indígenas de contexto urbano e lideranças em contexto aldeado. A maioria são indígenas que trabalham com venda de artesanatos, geralmente produzidos por toda a comunidade ,e não apenas por uma pessoa. O ramo novo que os indígenas estão entrando, e que na cidade de Manaus só possui uma fonte, é a Moda, Gastronomia e a Medicina.
Atualmente, na cidade de Manaus somente a MI Moda Indígena está qualificada para o mercado de Moda, apesar do projeto ter lançado e criado muitos Ateliês, a Moda ainda é um ramo muito novo para os indígenas que atualmente procuram adequar a confecção de artesanatos com a peça de vestuário. No ramo da gastronomia, só temos em Manaus uma Casa de Comida Indígena que é dirigida por uma Sateré-Mawé ,e um Centro de Medicina Indígena, Bahserikowi, dirigido por Tukanos. Ou seja, muitos ramos de trabalho e negócios ainda são muito novos para os indígenas. Espero que com o crescimento desses lugares, os indígenas sejam impulsionados a desenvolverem seus próprios negócios em diversos âmbitos profissionais.
Como você conseguiu ir para fora do país com o seu projeto?
Inicialmente não esperávamos que isso acontecesse, o projeto MI Moda Indígena ganhou uma visibilidade internacional através da imprensa. Só na nossa primeira edição, alcançamos uma mídia exterior da América Latina, Europa, Ásia e Oriente Médio. E muitos dos nossos trabalhos foram divulgados nesses lugares. O impacto maior aconteceu numa edição menor que chamamos de pocket,ou seja, fizemos o mínimo com o que tínhamos em mãos. O segundo impacto que causamos foi através dos Armys, fãs de K-Pop. Tudo aconteceu através de um estudo que fizemos sobre a origem dos povos originários do Brasil. O resultado desse trabalho impactou muitos grupos de K-Pop na Ásia e no Oriente Médio. O número de seguidores cresceu instantaneamente, oriundos da Coreia do Sul, China, Rússia oriental, Índia e outros países menores. E eles hoje são os principais apoiadores desse trabalho.
Com o apoio de Karine Aguiar, nossa embaixadora global,na Europa e com todo o portfólio que fora construído no ano de 2022, fomos convidados para participar do Brazil World Fest no Parlamento Britânico e na London Fashion Week em setembro de 2023. Temos um público de vendas mais firmado agora através da Karine, mas desejamos futuramente passar pela a Ásia e países que nos acolheram.
Qual mensagem você deixa para todos aqueles que querem empreender e podem se inspirar em você?
Acredito que o primeiro passo é não desistir de uma idéia e de seus ideais. Eles devem caminhar juntos. Por mais louca e criativa que a ideia possa ser, ter um planejamento de trabalho,muita força de vontade, e se possível ter consultores de mercado.
Eu sou o tipo de pessoa que acredita no coletivo. Não acredito em super stars que fazem carreira solo,e sim que o sucesso depende de conexões e pessoas. Sem elas e sem conexão, o sucesso poderá ser algo muito distante ou pior, superficial.
Por isso,mais do que tudo, é importante estar atento em tudo ao seu redor, estar disposto a enfrentar as mudanças e a se readaptar. Ser estagnado e ficar apenas no campo das ideias pode ser perigoso, é preciso colocar em prática. É melhor fazer do que não fazer.
Todas essas coisas aprendi na experiência e errei bastante nesse percurso. Aprender com os erros é necessário e o empreendedor não vai conseguir escapar disso, porque não existem fórmulas prontas, porém existem facilitadores/aceleradores que dão um direcionamento para o seu negócio. É importante tentar. No palco dos negócios, tudo começa nos bastidores e tem muito trabalho envolvido. O empreendedor precisa passar pelos processos.
Dentro desse conselho, não desista das ideias únicas e criativas. Não compartilhe elas com quem não sonha alto, com quem vive na zona de conforto. Não importa se é alguém que você ama, eles não irão entender. Busque um direcionamento e qualificação profissional. Negócios são negócios, vida pessoal é vida pessoal. E em certos momentos é necessário diferenciar as coisas.

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