Não é um tema confortável, e justamente por isso tantas vezes ele é evitado ou tratado de maneira superficial, como se bastasse nomear para dar conta do que está em jogo. Falar sobre violências contra as infâncias exige mais do que informação, exige uma implicação que nem sempre estamos dispostos a sustentar, porque isso nos tira de um lugar de observador e nos coloca dentro da cena.

Eu não tenho filhos, mas percebo cada vez mais que isso não me coloca fora dessa conversa, nem me autoriza a ocupar um lugar de neutralidade. As crianças estão nas famílias dos meus amigos, nas escolas, nos espaços que frequento, e, de alguma forma, atravessam a minha vida. A ideia de que a proteção é responsabilidade apenas de quem é pai ou mãe é confortável, mas não se sustenta quando a gente entende que o cuidado com as infâncias é, necessariamente, coletivo.
Leia também:
Recentemente, assisti a um episódio no YouTube do Contrasfluxo com as psicólogas Katja Gonzalez, Kalila Barbosa Queiroz e Giovanna Paraízo, e voltei a ele depois, com mais calma, para elaborar melhor o que tinha escutado.
Não é um conteúdo fácil de atravessar, mas é daqueles que deslocam, que fazem a gente perceber o quanto algumas certezas estavam mais a serviço do nosso conforto do que da proteção de fato.

Uma das ideias que mais me chamou atenção foi a provocação em torno da linguagem como uma forma de nomear um fenômeno. Durante muito tempo, falamos em “abuso infantil” como se essa fosse uma forma suficiente de dar conta do que acontece, mas essa expressão carrega uma ambiguidade que passa despercebida. Em outros contextos, o abuso sugere um excesso a partir de algo que, em alguma medida, seria permitido. No caso das infâncias, essa lógica não se sustenta, porque não existe consentimento possível, não existe autorização possível para o uso do corpo infantil que poderia ter sido ultrapassada.
Quando a gente sustenta essa reflexão até o fim, o que aparece é algo menos confortável, porém mais preciso: estamos falando de violências. Violências no plural. E, dentro delas, também das violências sexuais contra as infâncias, que são sempre contra as infâncias, nunca próprias delas. Essa mudança de perspectiva não é apenas teórica, porque a forma como nomeamos interfere diretamente na maneira como reconhecemos o que acontece, inclusive na possibilidade de duvidar ou não da experiência vivida.
Existe uma dimensão da dúvida que atravessa esse tema de maneira muito forte. Não são raros os casos em que, mesmo diante de uma violência grave, a própria vítima ainda se pergunta se aquilo realmente aconteceu, como se faltasse um ponto de apoio externo que autorizasse essa compreensão. Quando essa dúvida aparece, ela não é neutra, ela desorganiza, fragiliza e, muitas vezes, aprofunda o sofrimento.

Quando falamos de crianças, essa complexidade se intensifica, porque elas não têm repertório emocional ou simbólico para compreender o que estão vivendo. Dependem de adultos que consigam reconhecer sinais e sustentar escuta sem transformar o relato em questionamento. E é justamente aí que muitas vezes falhamos, não necessariamente por falta de intenção, mas porque ainda estamos presos a algumas imagens que nos impedem de ver.
A ideia de que quem comete esse tipo de violência é um “monstro” é uma dessas imagens. Ela organiza o imaginário de um jeito que parece lógico, mas que, na prática, dificulta a prevenção. E questionar essa imagem não reduz a gravidade da violência. Pelo contrário: é justamente isso que pode permitir reconhecê-la quando ela acontece dentro de relações consideradas “normais”. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, assim como levantamentos do UNICEF e do IPEA, mostram que a maior parte dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes acontece dentro do ambiente doméstico ou envolve pessoas conhecidas da vítima, muitas vezes ocupando lugares de confiança.
Isso desmonta uma narrativa confortável, porque desloca o problema de um lugar distante para um território muito mais próximo, onde o reconhecimento é mais difícil e, por isso mesmo, mais necessário. Quando não cabe na imagem que aprendemos, a tendência não é enxergar melhor, mas negar, minimizar ou silenciar.
E talvez seja justamente por isso que tantas famílias prefiram sustentar o silêncio antes de sustentar a ruptura de uma imagem idealizada.

O ponto mais desconfortável de sustentar é perceber que a proteção não começa no extremo, no momento em que algo grave acontece, mas muito antes, no cotidiano das relações. Ela aparece na forma como lidamos com o corpo infantil, na maneira como respeitamos, ou não, quando uma criança não quer contato, e até em práticas aparentemente inofensivas, como pedir que ela guarde segredos.
Esses pequenos movimentos vão construindo, pouco a pouco, a noção de limite. Quando uma criança aprende que não pode recusar um abraço, ou que precisa esconder algo dos próprios cuidadores, ela também aprende algo sobre o que pode ser feito com o corpo dela e sobre o que pode ou não ser dito.
A prevenção, nesse sentido, não está no controle absoluto, porque isso não existe, mas na construção de repertório, na autorização para dizer não, na escuta que acolhe sem duvidar e na revisão de práticas que foram naturalizadas por tanto tempo que deixaram de ser questionadas.

Se esse episódio do Contrasfluxo me deslocou em alguma coisa, foi na percepção de que as violências contra as infâncias não se sustentam apenas no ato em si, mas também em tudo aquilo que, antes e depois, permite que elas aconteçam e permaneçam sem serem reconhecidas. E isso não diz respeito apenas a quem está diretamente envolvido, mas a todos nós.
No fim, a pergunta que fica não é confortável, mas talvez seja uma das mais importantes: na forma como eu me relaciono com as crianças ao meu redor, eu estou de fato protegendo ou apenas repetindo práticas que nunca foram realmente questionadas?
Participe do canal
no Whatsapp e receba notícias em primeira mão!

