Há algumas semanas me deparei com uma tirinha de André Dahmer que ficou reverberando em mim. Nela, um personagem comemora ter finalmente montado no “cavalo do desejo”, mas logo percebe que não sabe onde estão as rédeas. A resposta final, quase despretensiosa, revela o ponto central: ele simplesmente não pensou nisso.
A cena é simples, mas simbólica. Porque, emocionalmente, muitas vezes fazemos o mesmo.
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Semanas antes, me disse uma frase que voltou à memória quando vi a tirinha: o amor é escolha, mas o desejo não. Existe muita verdade nisso, o desejo surge antes da organização interna, ele atravessa, impulsiona, mobiliza. Não pede autorização nem espera o momento ideal para chegar. O desejo é movimento!
O que fazemos com ele, porém, já não é automático.

Tenho notado que grande parte dos conflitos emocionais não nasce do sentir, mas da forma como lidamos com aquilo que sentimos.
Quando o desejo aparece como urgência absoluta, perdemos algo essencial: a capacidade de refletir sobre direção, tempo e consequência. É como montar sem perceber que também será necessário conduzir.
Existe ainda uma camada importante, em determinados momentos da vida, não é apenas o desejo que se intensifica, é tambem a nossa energia emocional que oscila. Há fases em que a pessoa não está escolhendo menos por falta de clareza, mas por falta de recursos internos para sustentar decisões mais complexas. Nessas horas, impulsos ganham força e a reflexão perde espaço.

Às vezes o desejo chega rápido, intenso, carregado de expectativa, enquanto o vínculo precisa de continuidade, presença e construção. Em outras situações, o desejo diminui e surge a dúvida sobre permanecer ou não. Em ambos os cenários, a questão deixa de ser apenas “o que estou sentindo?” e passa a incluir “o que consigo sustentar com isso?” e “o que desejo construir a partir daqui?”.
Não se trata de controlar o desejo como quem tenta apagá-lo, nem de obedecer automaticamente a tudo que ele pede.

Vá por mim, o amadurecimento costuma acontecer justamente nesse intervalo, onde sentir e escolher começam a dialogar e não silenciar.
Desde que vi a tirinha, tenho me feito algumas perguntas que compartilho como convite de reflexão:
Quando o desejo aparece, eu ajo ou eu observo primeiro?
Tenho confundido intensidade com direção?
O que em mim busca apenas impulso e o que busca continuidade?
Estou tentando controlar demais ou refletindo de menos?
Aquilo que desejo hoje também sustenta o futuro que quero construir?
Sentir nos move. Escolher nos organiza. Sustentar é o que transforma.
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