Mesmo discordando da forma como a votação do Oscar é conduzida, existe algo ali que sempre me chama mais atenção do que os vencedores, que é aquilo que se repete nas histórias, como se o cinema estivesse tentando elaborar um tema que ainda não conseguimos organizar completamente.

Neste ano, mesmo com narrativas muito diferentes entre si, um ponto apareceu em comum: a relação entre pais e filhos, especialmente a figura de homens que falharam, se ausentaram ou não souberam sustentar presença quando era necessário.
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Em "Uma Batalha Após a Outra", com Leonardo DiCaprio, vemos um homem em decadência que, mesmo perdido, tenta se reaproximar da filha, como se ainda houvesse algo a ser salvo.

Em "Hamlet", a ausência do pai não é só uma falta, mas algo que estrutura toda a história, mostrando o peso do que não foi vivido.

Já em "O Valor Sentimental", essa tentativa de reparação ganha ainda mais evidência: um pai cineasta, que negligenciou a família, procura a filha anos depois para que ela protagonize seu filme, como se o reencontro pudesse reorganizar uma relação que ficou interrompida.

Em "O Agente Secreto", essa dimensão aparece de forma mais sutil, mas ainda atravessa a forma como esse homem se posiciona e constrói seus vínculos.

O que conecta esses filmes não é a história em si, mas o tipo de figura masculina que aparece neles. Não são homens fortes no sentido clássico, nem referências estáveis. São homens que falharam, que se perderam e que, em algum momento, tentam voltar, mesmo sem saber exatamente como.

E talvez seja justamente aí que o cinema esteja apontando para algo maior. Porque isso não fala só de paternidade, fala de uma dificuldade mais ampla de sustentar vínculo, de lidar com afeto, de reconhecer falhas sem se esconder delas.
Quando esse movimento não acontece, o que aparece nas relações não é necessariamente conflito explícito, mas distância, ruído, desencontro. Formas mais silenciosas de impacto emocional, mas nem por isso menos profundas.

Por isso, mais do que uma coincidência temática, esses filmes parecem refletir um momento em que esse modelo de homem já não se sustenta como antes, mas ainda não foi completamente substituído. Acredito que no fim, a questão deixa de ser apenas sobre pais e passa a ser sobre homens. E a pergunta que fique não esteja nos filmes, mas na forma como cada um se coloca nas próprias relações: que tipo de homem você tem sido quando precisa sustentar presença, e não apenas ocupar um lugar?

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