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Fabiano Lacerda

Independência ou morte

Antes de querer mudar o país, vale perguntar do que ainda não conseguimos nos libertar.

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Fabiano Lacerda

- há XX semanas
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“Independência ou morte.” A frase que aprendemos nas aulas de História reaparece todo 7 de Setembro, mas, antes que algum baiano me lembre, a nossa independência foi consolidada em 2 de julho de 1823, na Bahia, depois de uma guerra que muita gente fora daqui sequer conhece. Essa conversa, no entanto, fica para outro texto, porque o que me interessa agora é outra forma de independência, aquela que acontece dentro da própria vida.


					Independência ou morte
​Foto: Freepik

É muito fácil falar sobre mudar o Brasil, reclamar da política, apontar culpados, discutir nas redes sociais e, agora que a campanha eleitoral já está acontecendo, procurar candidatos que representem aquilo em que acreditamos, mas existe uma pergunta incômoda nessa história: o que estamos fazendo para transformar aquilo que está ao nosso alcance?

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Não estou falando que mudar a si mesmo resolve problemas estruturais, porque não resolve, desigualdade, racismo, violência, machismo, falta de acesso à saúde e tantas outras questões dependem de políticas públicas e de transformações coletivas, mas também existe aquilo que reproduzimos diariamente nas nossas relações, dentro de casa, no trabalho, nas amizades e nos lugares que ocupamos.

Na clínica, encontro pessoas que desejam mudanças profundas, mas continuam presas a padrões que conhecem muito bem, querem relações diferentes, mas repetem escolhas semelhantes, desejam mais liberdade, mas vivem tentando corresponder às expectativas dos outros, querem estabelecer limites, mas sentem culpa cada vez que dizem não.


					Independência ou morte
​Foto: Freepik

Existe uma forma de dependência especialmente difícil de perceber, aquela que se confunde com pertencimento, amor ou obrigação, quando precisamos tanto da aprovação de alguém que começamos a negociar partes importantes de quem somos para continuar sendo aceitos.

Independência não significa não precisar de ninguém, somos seres construídos nos vínculos e precisamos de afeto, cuidado, comunidade e relações, a questão está em conseguir permanecer nesses vínculos sem desaparecer dentro deles. E isso também é política.

Estamos em campanha eleitoral e, neste momento, candidatos, partidos, propostas e projetos de país disputam nossa atenção, tudo isso importa, mas nossas escolhas políticas também revelam os valores que consideramos importantes, e esses valores aparecem muito antes do momento de apertar os botões da urna.


					Independência ou morte
​Foto: Freepik

Como tratamos quem trabalha conosco? Como lidamos com quem pensa diferente? Dividimos o trabalho de cuidado dentro de casa? Respeitamos os limites das outras pessoas? Reproduzimos desigualdades enquanto defendemos igualdade nos discursos? Exigimos ética de quem ocupa um cargo público, mas abrimos pequenas exceções para nós mesmos quando somos beneficiados?

Não existe transformação social sem ação coletiva, assim como não existe sociedade completamente diferente se continuamos reproduzindo, nas nossas relações cotidianas, aquilo que criticamos na política.

Por isso, gosto de pensar que independência não é aprender a não precisar de ninguém, mas conquistar a possibilidade de escolher nossos vínculos, nossas responsabilidades e nossas escolhas sem sermos governados o tempo inteiro pelo medo, pela culpa ou pela necessidade de aprovação.

Antes de escolher quem vai representar nossos valores nas urnas, vale olhar para os valores que estamos praticando na própria vida.


					Independência ou morte
​Foto: Freepik

De que adianta querer mudar o país se continuamos tão pouco dispostos a questionar aquilo que repetimos dentro de nós?

Assista ao "De Hoje a Oito", podcast de entretenimento do Ibahia:

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