O São João terminou. Os palcos foram desmontados, as bandeirolas começam a desaparecer e a rotina volta, aos poucos, a ocupar o espaço da festa. Quase ao mesmo tempo, mais um jogo da Copa do Mundo terminou. A festa ficou para alguns. A frustração, para outros. Dois acontecimentos completamente diferentes, mas que me fizeram pensar na mesma questão: quando o entretenimento deixa de ser lazer e passa a produzir sofrimento?
Durante as festas juninas vimos artistas subirem ao palco visivelmente alcoolizados, como se o excesso também fizesse parte do espetáculo. Durante a Copa, milhões de brasileiros transformaram o futebol em apostas. O jogo terminou. Para muita gente, porém, ele continuou dentro do celular.
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Como psicólogo, escuto histórias que raramente aparecem nas manchetes. Pessoas que perderam o controle do álcool. Outras perderam o controle das apostas. Algumas perderam dinheiro. Outras perderam o sono, os relacionamentos, a tranquilidade e a paz de estar em casa. Em comum, quase todas contam que, em algum momento, deixaram de perceber quando aquilo que era diversão passou a controlar suas vidas.
É justamente por isso que existe uma frase repetida à exaustão pelas casas de apostas que sempre me provoca um certo incômodo.
"Jogue com responsabilidade.": Durante muito tempo enxerguei essa mensagem apenas como um aviso obrigatório. Hoje ela me parece outra coisa.
Ela realmente foi feita para proteger quem joga? As plataformas de apostas investem bilhões para entender o comportamento humano. Elas sabem quanto tempo permanecemos conectados, quais estímulos nos mantêm jogando e, principalmente, em que momento estamos mais vulneráveis para continuar apostando. Não existe acaso nesse processo. Existe uma indústria inteira aperfeiçoando mecanismos para prender nossa atenção.
É evidente que cada pessoa continua responsável pelas próprias escolhas. Mas também é verdade que essas escolhas acontecem dentro de um ambiente cuidadosamente planejado para que parar seja cada vez mais difícil. Talvez esse seja o ponto que mais me preocupa. O problema nunca foi o São João. Nunca foi o futebol. Nunca foi a diversão.
O problema começa quando a vulnerabilidade humana deixa de ser um efeito colateral e passa a fazer parte do modelo de negócio.
Nesse momento, "jogue com responsabilidade" deixa de soar como um conselho e passa a ser uma pergunta. Quem essa frase realmente está tentando proteger?
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