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Fabiano Lacerda

Nem toda violência deixa hematomas

Vinte anos depois da Lei Maria da Penha, ainda confundimos controle com cuidado

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Fabiano Lacerda

11/08/2026 às 11:34 - há XX semanas
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Há violências que deixam marcas visíveis, outras vão se instalando aos poucos, quase sempre sem fazer barulho.


					Nem toda violência deixa hematomas
Foto: Freepik

Elas aparecem quando alguém começa a decidir com quem o outro pode conversar, critica as roupas que a parceira veste, exige senhas, pede a localização em tempo real ou transforma qualquer demonstração de autonomia em motivo para uma discussão. Muitas dessas atitudes ainda são confundidas com amor. Afinal, quem nunca ouviu que o ciúme é sinal de cuidado?

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Neste mês de Agosto, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Duas décadas depois de sua criação, ela continua sendo um dos maiores avanços no enfrentamento da violência contra a mulher no Brasil. Mais do que ampliar mecanismos de proteção, a lei ajudou a tornar visíveis violências que, durante muito tempo, permaneceram escondidas dentro de casa, naturalizadas nas relações e justificadas pelo afeto.


					Nem toda violência deixa hematomas
Foto: Freepik

Na clínica, tenho observado que muitas histórias não começam com uma agressão física. Elas começam com pequenas concessões. Uma amizade que deixa de existir para evitar conflitos, um curso abandonado, um sonho adiado, uma roupa que deixa de ser usada. Aos poucos, aquilo que parecia uma escolha passa a ser uma obrigação e, quando a pessoa percebe, já não reconhece mais onde termina o desejo do outro e começa o seu próprio.

Talvez uma das maiores armadilhas da violência psicológica seja justamente esta: ela costuma se apresentar como cuidado. Quem controla acredita que está protegendo, quem é controlado, muitas vezes, demora a perceber que está perdendo espaço para existir como é.

Isso não significa que toda demonstração de ciúme seja violência ou que todo conflito seja abusivo. Relações saudáveis também têm inseguranças, limites e acordos. A diferença está na liberdade. O cuidado aproxima, já o controle aprisiona, um fortalece a autonomia, o outro a reduz.


					Nem toda violência deixa hematomas
woman raised her hand for dissuade, campaign stop violence against women. Asian woman raised her hand for dissuade with copy space, black and white color. Foto: Freepik

A tecnologia tornou essa fronteira ainda mais delicada, hoje é possível acompanhar cada passo de alguém pelo celular, saber quando a mensagem foi lida, exigir respostas imediatas e monitorar a vida pelas redes sociais. Ferramentas criadas para facilitar a comunicação também podem ampliar formas de vigilância quando a confiança dá lugar à necessidade de controlar.

Na Bahia, essa conversa merece uma atenção ainda maior, a maioria das mulheres do estado é negra. Isso significa reconhecer que a violência também é atravessada pelas desigualdades sociais e raciais. O acesso à proteção, à informação e aos serviços públicos nem sempre acontece da mesma forma para todas. Falar sobre violência contra a mulher também é falar sobre as condições que tornam algumas mulheres mais vulneráveis do que outras.

Neste ano, em que também vamos às urnas, vale ampliar o olhar. Além de discutir economia, saúde e segurança, talvez seja o momento de perguntar quais candidaturas apresentam propostas concretas para fortalecer a rede de proteção às mulheres. Mais importante do que promessas de campanha é a disposição para investir em políticas públicas, garantir orçamento e prestar contas do que foi realizado. A democracia não termina no voto. Ela continua na cobrança.


					Nem toda violência deixa hematomas
Foto: Freepik

Os 20 anos da Lei Maria da Penha merecem ser celebrados. Mas aniversários também servem para fazer balanços. Avançamos muito ao reconhecer direitos e criar instrumentos de proteção. Ainda assim, continuamos convivendo com formas de violência que passam despercebidas justamente porque aprenderam a se disfarçar de amor, de zelo e de preocupação.

Talvez o maior desafio das próximas décadas não seja apenas identificar a violência quando ela acontece. Seja aprender a reconhecer que nenhuma relação baseada no medo, no controle ou na perda da liberdade pode ser confundida com cuidado.

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