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Fabiano Lacerda

Nem todo trabalho aparece

O trabalho invisível que esgota quem cuida

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Fabiano Lacerda

05/05/2026 às 13:26 - há XX semanas
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Em meio aos debates sobre a escala 6x1, sobrecarga, direitos e limites, existe um tipo de trabalho que continua fora dessa discussão, mesmo atravessando o cotidiano de muitas pessoas de forma intensa e silenciosa.


					Nem todo trabalho aparece
​Foto: Freepik

Enquanto se fala de jornada, carga horária e reconhecimento, há uma rotina que não tem regulamentação, não tem pausa garantida e, muitas vezes, nem sequer é percebida como trabalho. Trata-se de uma função que atravessa as relações, mas que aparece com ainda mais força na vida de muitas mães.

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​Foto: Freepik

Mas falar de mães também exige cuidado, porque essa experiência não é única nem homogênea. Existem atravessamentos importantes que mudam completamente o peso dessa sobrecarga, como raça, classe e as condições concretas de vida em que cada mulher está inserida.

Não se trata apenas de cuidar, mas de sustentar emocionalmente uma casa, antecipar demandas, organizar rotinas, mediar conflitos, acolher frustrações e, ao mesmo tempo, seguir funcionando, mesmo quando já não há mais energia disponível. É um tipo de exigência constante, que começa antes mesmo do dia ganhar forma e que dificilmente encontra um ponto claro de encerramento.


					Nem todo trabalho aparece
​Foto: Freepik

Talvez o aspecto mais delicado esteja justamente no fato de que isso não costuma ser nomeado. Quando não se nomeia, não se reconhece. E quando não se reconhece, não se divide. E quando não se divide, alguém sustenta sozinho.

Na prática, isso significa que muitas pessoas vivem uma sobreposição de jornadas, mas, no caso das mulheres, e especialmente das mães, essa sobrecarga tende a ser mais intensa e mais naturalizada. Existe o trabalho que é visto, remunerado e discutido publicamente, e existe aquele que é esperado, absorvido e raramente compartilhado de forma equilibrada.

Para algumas mulheres, essa sobrecarga acontece junto com jornadas formais extensas, deslocamentos longos e pouca ou nenhuma rede de apoio. Para outras, pode existir algum acesso a recursos que aliviam parte da carga prática, mas que não eliminam a responsabilidade emocional que continua sendo sustentada.


					Nem todo trabalho aparece
​Foto: Freepik

Quando se olha com mais atenção, fica evidente que o cuidado não é distribuído da mesma forma, nem entre homens e mulheres, nem entre as próprias mulheres. Em muitos contextos, especialmente atravessados por desigualdades sociais e raciais, essa carga é ainda mais intensa, mais silenciosa e menos reconhecida.

Quando esse cuidado não é dividido, ele deixa de ser apenas uma expressão de afeto e passa a se estruturar como sobrecarga, criando um desgaste que não aparece de forma imediata, mas que se acumula ao longo do tempo e impacta diretamente a saúde emocional.

Porque o que cansa não é apenas a quantidade de tarefas, mas a sensação de não poder interromper, de precisar dar conta o tempo inteiro, de sustentar o funcionamento das relações mesmo quando internamente já não há espaço.


					Nem todo trabalho aparece
Mother nursing baby, preparing to eat, talking on phone and works. Vector illustration. ​Foto: Freepik

Esse tipo de cansaço não se resolve apenas com descanso físico, porque ele não nasce só do corpo, mas de uma dinâmica contínua de exigência, responsabilidade e, muitas vezes, de solidão na função de cuidar.

Falar sobre redução de jornada é importante, discutir direitos no trabalho é necessário, mas talvez seja igualmente urgente ampliar esse olhar e incluir aquilo que não aparece nos contratos, mas atravessa profundamente a forma como as relações se organizam.

Na semana que antecede o Dia das Mães, talvez a reflexão precise ir além da homenagem e tocar em algo menos confortável, mas mais verdadeiro.

Como as responsabilidades estão sendo distribuídas nas relações que você constrói?

E, principalmente, quem tem sustentado aquilo que ninguém vê e em quais condições?

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