Existe um dado que, sempre que volto a ele, me chama atenção.
Uma pesquisa do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel mostrou que apenas 5% dos brasileiros fazem psicoterapia, enquanto cerca de 16% utilizam medicação para lidar com questões emocionais. Ou seja, muito mais gente está medicada do que, de fato, em um processo de escuta e elaboração.

E ainda tem um ponto que quase não entra nessa conta. Esses números consideram pessoas que estão em algum tipo de acompanhamento. Na prática, existe uma parcela significativa que faz uso de medicação sem acompanhamento médico, de forma irregular, ajustando dose por conta própria, interrompendo quando acha que melhorou ou retomando quando a vida aperta.
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Quando isso acontece, já não estamos mais falando de cuidado. Estamos falando de uso de substância sem manejo, o que se aproxima muito mais de um uso desassistido do que de um tratamento.
E isso é mais comum do que se imagina.
No meu dia a dia, isso aparece com frequência. Relatos de pessoas que começaram a tomar medicação por indicação de alguém próximo, que reaproveitaram uma receita antiga ou que simplesmente decidiram que precisavam “dar um jeito” no que estavam sentindo.

Existe, aí, um movimento delicado. Porque muitas dessas pessoas realmente acreditam que estão se cuidando.
Mas cuidar não é apenas fazer algo para diminuir o incômodo.
Cuidar envolve responsabilidade com o próprio processo, implica reconhecer limites, sustentar acompanhamento e, principalmente, se permitir entrar em contato com aquilo que o sintoma tenta dizer.
E aqui eu acho importante deixar claro o que penso: a medicação não é o problema. Em muitos casos, ela é fundamental. Pode estabilizar, pode proteger, pode literalmente salvar vidas. Negar isso seria desconsiderar o cuidado que tantas pessoas realmente precisam em momentos críticos. O problema começa quando se deposita no remédio uma expectativa que ele, sozinho, não pode sustentar.

Porque nenhuma medicação dá conta, por si só, da complexidade de uma história, dos padrões que se repetem, das relações que atravessam a vida de alguém e das formas que cada sujeito encontrou para lidar com o que sente. O aumento no uso de medicamentos voltados à saúde mental a cada ano reforça uma tendência que precisa ser pensada com mais profundidade. Não se trata de ser contra, mas de entender o lugar que isso vem ocupando.
Quando o foco fica apenas em aliviar, algo importante se perde. Porque o sintoma não é só um erro do organismo. Muitas vezes, ele é uma tentativa de expressão, um modo que o sujeito encontrou para dar conta de algo que não conseguiu elaborar de outra forma. Silenciar isso rápido demais pode até trazer alívio imediato, mas não necessariamente transformação.

E, em muitos casos, o que volta depois cobra um preço mais alto.
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