Estamos às vésperas da abertura da Copa do Mundo 2026 e nos próximos dias, bilhões de pessoas acompanharão os melhores jogadores do planeta representando seus países, carregando nas costas as expectativas de milhões de torcedores e ocupando um lugar que muitos associam à ideia máxima de sucesso. Quando olhamos para esses atletas, vemos o reconhecimento, os títulos, os contratos milionários e os momentos de glória que ficarão registrados na memória coletiva. O que raramente enxergamos é tudo aquilo que precisou acontecer antes que eles chegassem até ali.
E foi justamente pensando nisso que uma frase ouvida através de um açougueiro, em uma loja de carnes que frequento há bastante tempo, ficou martelando na minha cabeça e me fez parar para escrever. Enquanto preparava o meu pedido, ele comentou algo que parecia apenas uma observação casual, mas que acabou ficando comigo pelo resto do dia.
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Talvez essa frase tenha me atingido porque ela confronta uma ilusão que todos nós cultivamos em algum grau. Gostamos de admirar o sucesso, mas raramente prestamos atenção ao fracasso que o construiu. Observe, um dos maiores sucessos da história do cinema, Titanic, foi tratado por muita gente como um projeto que poderia destruir a carreira de James Cameron antes mesmo de chegar aos cinemas. O mesmo aconteceu com Walt Disney, que chegou a ouvir que lhe faltavam imaginação e boas ideias. Hoje, quando pensamos nesses nomes, lembramos apenas das conquistas, porque o sucesso costuma apagar da memória coletiva os erros, as rejeições e as dúvidas que vieram antes dele.
Talvez tenha sido por isso que aquela frase tenha me feito olhar para a minha própria história de uma forma diferente. Quando as pessoas me encontram hoje, elas costumam conhecer algumas das minhas conquistas, mas quase nunca os fracassos que vieram antes delas. Veem alguém que eliminou mais de cem quilos sem cirurgia e sem medicamentos, que conseguiu manter essa transformação por mais de uma década, que completou uma prova de Ironman, escreveu livros, mudou de carreira aos quarenta anos e decidiu recomeçar a vida profissional em uma área completamente diferente daquela em que atuou durante quase duas décadas.
O que normalmente não aparece nessa narrativa são as inúmeras tentativas frustradas, as promessas que fiz para mim mesmo e não consegui cumprir, os períodos em que duvidei da minha capacidade de mudar, os momentos em que o peso parecia maior do que a esperança e os dias em que desistir parecia muito mais provável do que continuar.
Houve uma época em que eu pesava mais de duzentos quilos e não conseguia imaginar a vida que tenho hoje. Se alguém me dissesse naquela época que eu eliminaria mais de cem quilos sem cirurgia, que manteria essa transformação por mais de uma década e que um dia cruzaria a linha de chegada de uma prova de Ironman, provavelmente eu acreditaria que estava ouvindo a história de outra pessoa.
A verdade é que nenhuma dessas conquistas nasceu pronta, por trás de cada uma delas existiram fracassos que ninguém viu, tentativas que não deram certo, decisões equivocadas, medos, inseguranças e momentos em que o resultado parecia distante demais para justificar o esforço. O que hoje pode parecer uma trajetória coerente e previsível foi, na realidade, construída em meio a dúvidas, recomeços e aprendizados que só fazem sentido quando olhados em retrospectiva.
Quanto mais penso naquela frase, mais percebo que talvez exista um equívoco na forma como entendemos o sucesso. Nós costumamos enxergá-lo como o oposto do fracasso, quando talvez ele seja apenas o resultado de quem decidiu continuar apesar dele. Talvez seja isso que vemos quando assistimos aos grandes atletas entrarem em campo para representar seus países. Não estamos vendo apenas talento, estamos vendo anos de derrotas, críticas, lesões, erros e recomeços que ficaram escondidos atrás do brilho da conquista.
Porque o sucesso raramente conta a história inteira, né? Ele mostra a chegada, mas esconde a estrada, ele exibe a medalha, mas não revela todas as quedas, ele apresenta a conquista, mas não mostra a quantidade de vezes em que alguém pensou em desistir antes de alcançá-la. E talvez seja justamente por isso que a frase daquele açougueiro tenha ficado comigo.
Porque, se quase todas as histórias que admiramos foram construídas sobre erros, dúvidas, rejeições e recomeços, será que o fracasso é realmente um sinal de que estamos no caminho errado ou apenas uma parte inevitável de qualquer caminho que valha a pena percorrer?
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