O peso que ninguém vê
Antes de julgar o corpo de uma mulher, compreenda o que ela carrega todos os dias

Quando uma mulher diz que está cansada, nem sempre ela está falando apenas de sono.
Muitas acordam antes de todos, organizam a rotina da casa, trabalham, resolvem problemas, administram conflitos, lembram consultas, compram presentes, acompanham a vida dos filhos, cuidam dos pais e ainda encontram tempo para ouvir quem precisa desabafar. No fim do dia, quando finalmente conseguem alguns minutos para si, costumam ouvir que precisam se alimentar melhor, praticar exercícios e cuidar mais da saúde.
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O conselho parece simples, a realidade, nem tanto. Ao longo dos atendimentos, tenho escutado mulheres que se sentem culpadas por comerem em momentos de ansiedade ou exaustão. Algumas acreditam que lhes falta disciplina. Outras se definem como fracassadas por não conseguirem manter uma dieta ou uma rotina de autocuidado, mas talvez a pergunta não seja porque elas comem em momentos difíceis. Talvez seja: o que torna esses momentos tão frequentes?
Nem toda alimentação emocional é igual. Há quem perca o apetite diante do sofrimento. Há quem durma demais. Há quem desenvolva dores, ansiedade ou insônia. Outras encontram na comida uma forma possível de aliviar emoções para as quais nunca aprenderam outra linguagem, nenhuma dessas respostas surge no vazio, elas acontecem dentro de uma história e de um contexto.
Também é importante separar duas conversas que costumam ser misturadas. Um corpo gordo não é, por definição, um corpo doente, da mesma forma, um corpo magro não é sinônimo de saúde. Quando falamos em obesidade, estamos falando de uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, emocionais, sociais e econômicos. Reduzir tudo isso à força de vontade é ignorar a complexidade da experiência humana.

Existe ainda um aspecto pouco discutido: a acessibilidade. Como é viver em uma sociedade em que nem sempre há roupas adequadas, cadeiras confortáveis, equipamentos de saúde preparados para diferentes corpos ou atendimento livre de constrangimentos? Quantas mulheres deixam de procurar assistência porque já esperam ser julgadas antes mesmo de serem escutadas? O sofrimento não está apenas no corpo. Muitas vezes, está na forma como a sociedade olha para ele.
Ao mesmo tempo, seguimos tratando o cuidado como uma responsabilidade quase exclusivamente feminina. Ainda hoje, em muitas famílias, são elas que administram a alimentação da casa, organizam as compras do mês, planejam as refeições, acompanham consultas médicas, cuidam dos filhos e mantêm a rotina funcionando. Existe um trabalho invisível que consome tempo, energia e saúde, mas que raramente aparece quando discutimos qualidade de vida.
Talvez por isso tantas mulheres sintam culpa quando não conseguem cuidar de si. Elas foram ensinadas a cuidar de todos primeiro.

Nos últimos anos, tenho percebido que mudanças mais consistentes acontecem quando o cuidado deixa de ser movido pela culpa e passa a ser orientado por valores. É diferente escolher um hábito porque você deseja viver com mais disposição, autonomia ou bem-estar do que agir apenas para atender expectativas externas ou punir o próprio corpo.
Mas nem mesmo os valores florescem sozinhos. Eles precisam de condições para serem vividos.

Em um ano eleitoral, vale ampliar a conversa. Como estão as propostas para ampliar o acesso à saúde, fortalecer o cuidado integral da obesidade, oferecer espaços públicos seguros para atividade física, garantir creches, melhorar o transporte, ampliar a rede de atenção à saúde mental e reduzir a sobrecarga que ainda recai, de forma desproporcional, sobre as mulheres?
Costumamos falar da saúde como uma escolha individual. Ela também é uma escolha coletiva. As políticas públicas influenciam o tempo que temos, os espaços que ocupamos, o acesso ao cuidado e as possibilidades reais de viver com dignidade.
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