Para muita gente, o ano só começa depois do Carnaval. Passada a intensidade dos encontros, dos excessos e das pausas fora da rotina, surge um retorno à realidade. É nesse momento que algumas emoções aparecem com mais nitidez, como se o barulho diminuísse e aquilo que foi adiado começasse a pedir espaço. Pouco mais de uma semana depois desse retorno, percebi algo em mim que também observo com frequência nas pessoas que acompanho: quando o ritmo externo desacelera, o mundo interno ganha volume.

Nas últimas semanas, vivi situações que me atravessaram de formas diferentes. Em um episódio, fui assaltado e, por alguns instantes, me vi parado no meio da rua sem saber o que fazer. O celular, que hoje concentra contatos, rotas, acessos e memórias, não estava mais comigo. A sensação não era apenas de perda material, mas de desorientação. Como se, por alguns minutos, eu tivesse perdido referências externas que organizavam o cotidiano.
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Ao mesmo tempo, algumas semanas antes, entrei em um processo de luto que ainda segue encontrando lugar dentro de mim. Não é algo que se resolve, mas algo que se reorganiza aos poucos. Esse início de ano também trouxe o contato mais direto com conteúdos antigos, experiências emocionais que pertencem à infância e que, em certos momentos da vida, voltam a pedir elaboração.

Percebi então como existe uma tendência muito comum: diante do desconforto, oscilamos entre dois extremos. Ou tentamos controlar tudo, ou evitamos sentir. Quase nunca escolhemos o caminho seguro.
Esse movimento aparece também nas relações. Quando algo nos afeta, podemos endurecer para não sentir ou nos afastar para não lidar. É aqui que entram padrões habitativos de funcionamento emocional. São formas aprendidas ao longo da vida para manter alguma sensação de proteção, mesmo que isso custe proximidade. Evitar conflitos, silenciar sentimentos ou se afastar de quem importa pode trazer alívio imediato, mas frequentemente aumenta a distância emocional. O silêncio prolongado raramente resolve. Na maioria das vezes, ele amplia interpretações, fortalece inseguranças e enfraquece vínculos. Existe uma diferença importante entre se recolher para organizar o que sente e evitar o outro para não entrar em contato com o que dói.

Relações saudáveis e emocionalmente seguras não são aquelas sem conflito, mas aquelas em que o conflito pode ser conversado sem que o vínculo seja ameaçado. Afrouxar o controle também é uma forma de autocuidado. Nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Algumas experiências precisam primeiro ser sentidas e organizadas internamente para só depois ganharem direção.
Existe ainda outro ponto importante: a nossa mente cria urgências para manter a sensação de importância. Problemas dão impressão de movimento, e movimento alimenta a sensação de controle. Mas paz quase nunca faz barulho. Quando olhamos com mais honestidade, percebemos que muitas vezes a vida não está em caos. Ela apenas está pedindo menos rigidez e mais presença.

Tenho me feito algumas perguntas nos últimos dias e resolvi compartilhá-las aqui, porque talvez também façam sentido para você:
- O que, hoje, estou tentando controlar que na verdade precisa apenas ser atravessado?
- Quando algo me afeta, eu me aproximo ou me silencio?
- Meu silêncio está protegendo ou afastando relações importantes?
- O que ainda estou evitando sentir?
- Que parte de mim precisa mais de acolhimento do que de cobrança?
- O que posso fazer para sustentar vínculos com mais presença e menos defesa?
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