Quando viver vira um esforço
Pensar em morrer nem sempre significa querer morrer. Pode significar não suportar mais a forma como se está vivendo

Há uma diferença entre querer morrer e querer deixar de viver da maneira como se está vivendo, parece uma distinção pequena, mas, na clínica, ela muda bastante a forma de escutar alguém.

Eu sei disso não apenas pela experiência profissional. Em determinado momento da minha vida, a dor ficou insuportável, eu pensei em não viver mais, não foi uma ideia isolada, que apareceu e desapareceu, ela veio acompanhada de pensamentos, possibilidades e construções internas que, naquele momento, pareciam apontar para um único lugar. Até que alguma coisa chamou minha atenção.
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Eu estava sobre um viaduto quando olhei para um terreno onde antes havia uma casa. A casa tinha desaparecido, no lugar dela, havia máquinas trabalhando nas fundações de um prédio, então eu fiquei olhando… e alguma coisa aconteceu dentro de mim, percebi que talvez eu não quisesse morrer, eu queria destruir aquela casa. A casa que minha vida tinha se tornado naquele momento.
Eu queria desmontar aquilo que já não conseguia mais habitar e, quem sabe, construir alguma coisa maior, diferente, mais possível. Não foi uma epifania capaz de resolver tudo. A dor não desapareceu e a vida não ficou subitamente fácil, mas aquela imagem criou uma pequena distância entre mim e aquilo que eu estava sentindo. Pela primeira vez naquele momento, consegui imaginar que talvez fosse possível mudar a construção sem precisar destruir quem estava dentro dela.

Anos depois, como psicólogo, essa experiência também atravessa a maneira como escuto alguém que diz que não aguenta mais. Quem chega dizendo que não suporta continuar pode não estar necessariamente desejando o fim da própria existência. Pode estar desejando o fim de uma dor, de uma relação, de uma situação, de uma cobrança ou de uma maneira de viver que se tornou impossível de sustentar. Isso não torna o sofrimento menos sério. Pelo contrário.
Na clínica, tenho escutado pessoas que conseguem falar sobre o próprio sofrimento sem necessariamente perceber o tamanho dele. “Estou só cansado.” “Não vejo muita graça nas coisas.” “Se eu não acordasse amanhã, tudo bem.” São frases que podem passar despercebidas porque não têm a dramaticidade que imaginamos quando pensamos em alguém em sofrimento intenso. Acredito que o sofrimento raramente chegue até nós de maneira tão organizada. Às vezes ele aparece como irritação, às vezes como isolamento, às vezes como uma pessoa que continua fazendo tudo o que sempre fez, mas já não encontra sentido em quase nada.
E existe uma coisa que me preocupa quando falamos sobre Setembro Amarelo: a facilidade com que transformamos uma experiência humana extremamente complexa em frases prontas sobre “valorizar a vida”. Eu entendo a intenção, mas, para quem está sofrendo, a vida não é uma abstração que precisa ser valorizada. A vida é aquilo que está acontecendo agora, é o relacionamento que machuca, a solidão, o luto, o trabalho, a dívida, a família, o corpo, a sensação de fracasso, a ausência de perspectiva, aquilo que não conseguimos elaborar.

Quando alguém diz que não aguenta mais, talvez a primeira pergunta não precise ser “por que você quer morrer?”. Talvez seja preciso perguntar: O que ficou insuportável? Não para diminuir o risco, nem para romantizar o suicídio, ao contrário, para tentar compreender a experiência daquela pessoa e ajudá-la a encontrar outras possibilidades quando ela já não consegue enxergá-las sozinha.
É também por isso que pedir ajuda não deveria ser apresentado como um gesto de fraqueza. Em determinados momentos, pensar pode ficar muito difícil quando estamos completamente tomados pela dor. Ter alguém por perto, encontrar uma escuta qualificada e acessar cuidado profissional pode fazer diferença justamente porque permite que aquilo que parecia sem saída volte a ser pensado.
Eu não sei exatamente o que teria acontecido comigo naquela época se eu não tivesse visto aquela construção. Não gosto de transformar aquela experiência em uma explicação para o sofrimento de outras pessoas, cada história é única e cada crise tem sua própria complexidade, mas aquela imagem ficou comigo.
Talvez porque, naquele momento, eu tenha entendido algo que continuo encontrando na clínica: às vezes, a pessoa não quer necessariamente deixar de existir. Ela quer deixar de existir daquela maneira. E talvez seja aí que uma pergunta possa abrir algum espaço: o que precisaria ser reconstruído para que a vida voltasse a ser possível de habitar?

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