Existe algo que me atravessa quando penso na Seleção Brasileira para a Copa do Mundo: quem são os homens que estamos transformando em ídolos? No futebol, é comum que talento e comportamento sejam separados como se não se atravessassem. Basta decidir jogos, sustentar desempenho, produzir resultados, e alguém rapidamente ocupa o lugar de admiração coletiva. Mas a pergunta que incomoda um pouco mais precisa ser feita com calma: o que estamos chamando de admiração quando escolhemos nossos ídolos?
Não se trata de exigir perfeição de atletas, nem de retirar da torcida o direito de se envolver com o jogo. O ponto é outro: o que fica de fora quando certos homens são transformados em símbolo? Porque uma parte importante desse imaginário esportivo ainda sustenta, de forma naturalizada, um modelo de masculinidade em que força é confundida com dureza, em que poder é confundido com domínio, e em que vulnerabilidade é tratada como falha. E isso não é apenas uma característica do esporte, é uma forma de organização simbólica que atravessa a cultura.
Leia também:
Esses homens não são apenas jogadores. Quando são elevados ao lugar de ídolos, passam também a funcionar como referência de masculinidade e isso significa que seus modos de agir, inclusive os mais problemáticos, podem ser relativizados, minimizados ou silenciados em nome do desempenho.
Ídolos organizam o que se entende por sucesso, valor, força e reconhecimento e nesse processo, também ensinam o que um homem pode ou não pode ser. Crianças e adolescentes não apenas assistem, eles aprendem muitas vezes sem perceber, quais comportamentos são aceitos, admirados ou até celebrados. Ao mesmo tempo, o próprio futebol ainda sustenta uma lógica em que a vulnerabilidade é desqualificada e o sofrimento emocional é confundido com fraqueza. Isso não fica apenas no campo, se desloca para a vida.
Há uma contradição difícil de ignorar: certos padrões de masculinidade seguem sendo exaltados mesmo quando produzem apagamento emocional, relações assimétricas e uma dificuldade coletiva de reconhecer limites. Elevamos alguns homens ao lugar de potência enquanto naturalizamos aspectos de suas condutas que, fora desse contexto, dificilmente seriam tratados com a mesma indulgência.
Para mim, a Copa do Mundo não é só um evento esportivo. Ela nos devolve uma pergunta que não dá para evitar: que tipo de masculinidade estamos reforçando ao escolher nossos ídolos e o que isso nos custa, mesmo sem perceber?
Participe do canal
no Whatsapp e receba notícias em primeira mão!