Estou no Rio de Janeiro pela sétima vez e continuo sem conhecer o Rio.
Pode parecer estranho dizer isso, mas todas as minhas passagens pela cidade foram rápidas demais para criar qualquer intimidade. Chego para um compromisso, durmo uma noite e sigo viagem. Desta vez não foi diferente. Estou aqui por apenas vinte e quatro horas, em uma época do ano que sempre me desperta sentimentos curiosos, porque enquanto bilhões de pessoas acompanham a Copa do Mundo, nós, nordestinos, também começamos a sentir a chegada do São João e de tudo aquilo que ele representa. Talvez por estar nesse estado de espírito eu tenha prestado tanta atenção a uma conversa que começou de forma absolutamente banal durante o café da manhã do hotel.
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Foi ali que conheci Gerusa Duarte, recepcionista do café da manhã. O que chamou minha atenção foi o fato de ela chamar os hóspedes pelo nome. Inicialmente imaginei que fossem clientes frequentes ou conhecidos da equipe, mas logo percebi que não era isso. Quando perguntei como conseguia se lembrar de tantas pessoas, ela respondeu que procura olhar verdadeiramente para quem está à sua frente e que cada íris funciona como uma identidade única. Segundo ela, alguém pode mudar o cabelo, usar um chapéu ou esconder parte do rosto, mas os olhos continuam revelando quem a pessoa é.
A conversa ficou ainda mais interessante quando Gerusa me disse que aprendeu que o ser humano é a principal matéria-prima da vida e que quase tudo o que construímos depende dos encontros, das relações e das pessoas que cruzam o nosso caminho. Enquanto a escutava, pensei que talvez a razão de eu não conhecer o Rio, mesmo depois de sete visitas, seja parecida com a razão pela qual tantas vezes acreditamos conhecer pessoas que nunca enxergamos de verdade. Passamos por cidades, lugares e seres humanos com a mesma pressa com que atravessamos aeroportos. Acumulamos informações, decoramos nomes e reconhecemos rostos, mas conhecer exige algo diferente: tempo, presença e interesse genuíno.
Foi então que percebi que, depois de sete viagens ao Rio de Janeiro, uma das experiências mais marcantes que vivi na cidade não aconteceu diante do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar ou de qualquer outro cartão-postal. E talvez mais curioso ainda seja o fato de que, em pleno clima de Copa do Mundo, a reflexão mais interessante que encontrei não veio de um jogador, de um técnico ou de um comentarista esportivo. Ela surgiu durante uma conversa no café da manhã de um hotel, enquanto uma recepcionista me falava sobre olhos, pessoas e encontros.
Quando deixei o restaurante, fiquei pensando que identidade talvez seja exatamente isso: aquilo que continua nos acompanhando mesmo quando estamos longe de casa. Algumas dessas marcas estão nos olhos, como acredita Gerusa. Outras vivem nas histórias que contamos, nos afetos que cultivamos e nas lembranças que carregamos. E foi justamente aí que surgiu minha única frustração naquela manhã, não havia cuscuz com ovo.
Pode parecer um detalhe sem importância, mas, para quem me olha nos olhos e me conhece, provavelmente vai entender que algumas comidas são mais do que comidas. Elas carregam afeto, pertencimento e parte da nossa própria história. Foi nesse momento que percebi que, embora Gerusa tenha razão ao dizer que algumas pessoas podem ser reconhecidas pelos olhos, eu acredito que outras também podem ser reconhecidas pelas saudades que carregam. Afinal, bastou um único dia longe de casa para eu sentir falta de cuscuz com ovo.
E acredito que é exatamente assim que descobrimos quem somos: não apenas pelo que levamos conosco quando viajamos, mas também por aquilo cuja falta somos incapazes de ignorar.
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