Como a pedagoga Lélian Garrido virou referência em gestão de pessoas
Da sala de aula ao RH estratégico. Pedagoga, empresária e presidente da AAPSA Bahia fala sobre escolhas, desafios empreendedorismo e recomeços

Inquieta por natureza e apaixonada pelo desenvolvimento de pessoas, Lélian Garrido construiu uma carreira de forma planejada desde muito cedo. Formada em Pedagogia pela Universidade Católica do Salvador (UCSal), com MBAs em Gestão de pessoas e Psicopedagogia Organizacional, além de pós-graduação em Psicologia Positiva, transformou didática em ferramenta para formar líderes e desenvolver organizações.

Após 15 anos atuando em indústrias, com carteira assinada, o mercado mudou. E ela também. Tornou-se empresária e fundou a Opus Human junto com seu sócio e, em 2025, assumiu a presidência da AAPSA na Bahia. Nesta entrevista, ela fala do planejamento de carreira, dos desafios do empreendedorismo, de liderança e deixa reflexões para profissionais e empresas.
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Cristiano Saback: Lélian, você iniciou sua trajetória na Pedagogia, uma área tradicionalmente ligada à educação. Em que momento você percebeu que poderia aplicar esse conhecimento dentro das organizações e construir uma carreira num ambiente corporativo?
Lélian Garrido: Saback, essa é uma história que gosto muito de contar. Eu tinha 17 anos quando comecei a trabalhar numa empresa de treinamento e desenvolvimento humano. Comecei lá atendendo telefone. Típico trabalho que a gente começava a fazer quando estávamos ingressando no mercado de trabalho. Lá eu conheci uma pedagoga chamada Liana Natalense. Ela ministrava treinamentos. Eu achava aquilo muito bonito. Sempre que podia, eu pedia para participar. Ela ministrava treinamento de liderança e qualidade total. A medida que fui experimentando os treinamentos, percebi que era o que eu queria fazer.
Apesar de achar que 17 anos ainda é muito cedo pra escolher uma carreira (risos). Escolhi Pedagogia. Muita gente associa essa formação apenas à educação formal, mas ela aprofunda a didática. E era exatamente como eu queria trabalhar na área de treinamento, era exatamente o que precisava. Naquela época mesmo, comecei a traçar metas específicas para ser pedagoga organizacional e atuar na área de Recursos Humanos com foco no segmento industrial. Posso dizer que, foi aos poucos, fui agregando mais competência à minha atuação. Consegui alcançar todas as metas. Sempre fui muito determinada, tanto que isso chamava a atenção dos professores na universidade.
CS: Então já na universidade, você já enxergava o caminho para a atuação corporativa. Ao longo dessa trajetória, quais foram as competências e conhecimentos que você percebeu que precisaria desenvolver para conquistar esse espaço?
LG: A primeira competência foi a didática, que veio junto com a minha formação. Mas existiam habilidades comportamentais que eu considerava indispensáveis também. A comunicação sempre foi uma delas. Gosto do contato com as pessoas, da conversa e da troca. Para dar treinamento você precisa se comunicar bem. Apresentação diante das pessoas e também a habilidade em resolver problemas. As soft skills sempre estiveram presentes na minha trajetória e entendia a importância de desenvolver juntos com as minhas competências técnicas. As pós-graduações fortaleceram isso: o lastro técnico impulsionando as habilidades comportamentais. Na minha graduação, eu aproveitei o estágio numa empresa e já fiz dois relatórios: um que era obrigatório para a faculdade (referente ao próprio estágio) e outro por conta e risco (referente à atuação em RH). Entreguei os dois.
CS: Ao olhar para a sua trajetória, existe alguma decisão profissional que você considera um verdadeiro divisor de águas?
LG: Sim. Trabalhei 05 anos numa empresa familiar e chegou um momento que percebi que precisava fazer uma transição, porque já estava sentindo ali como uma zona de conforto. Foi quando realmente comecei a atuar na área de RH. Outro momento importante foi quando me tornei empreendedora. Passei grande parte da minha carreira como profissional CLT. São mais de 25 anos, sendo que 15 foram na indústria, onde fui crescendo profissionalmente, passando por funções de analista, coordenadora e gerente de RH. Até que chegou o que costumo chamar de momento “Do aquário para o oceano”, inclusive esse é o título do meu livro que lançarei em breve. Era como se eu estivesse me batendo nas paredes de um aquário. Então fui para o oceano. É isso. Saí para o oceano e passei a oferecer ao mercado tudo que aprendi durante a minha trajetória, sempre buscando novos conhecimentos, porque sou uma pessoa muito curiosa e gosto de aprender continuamente. Mas, sinceramente posso falar que, empreender nunca fez parte das minhas metas, dos meus planos. Eu não pensava: “vou construir uma carreira e depois abrir uma empresa”. Isso simplesmente aconteceu. Abri uma empresa com um colega de trabalho na época da indústria. Existem momentos que a vida nos empurra para novos caminhos e esse foi um deles.
CS: O que ocorreu durante a sua carreira que fez você fazer essa virada de CLT para ser dona do próprio negócio?
LG: Saback, uma coisa que aprendi durante a minha carreira foi ler cenários. Dificilmente me pegam de surpresa. A empresa que eu trabalhava passou por uma fusão, chegaram profissionais de outros estados e logo depois fui desligada junto com muitos outros colegas. Mesmo não sendo surpresa, esses acontecimentos impactam a gente. Naquele momento comecei a ver outras oportunidades no mercado para me recolocar. Nem passava pela minha cabeça empreender. Mas posso lhe falar uma coisa que já sentia: já enxergava as empresas como aquários. Era como se eu estivesse me batendo nas paredes. Foi quando surgiu a oportunidade de ir para o oceano, e eu já estava preparada para isso.
CS: Você considera que todos esses anos de atuação em ambientes corporativos foram uma preparação para enfrentar essa nova etapa como empresária?
LG: Sem dúvida! Quando você atua com Recursos Humanos de forma estratégica, a primeira coisa que precisa fazer é conhecer profundamente o negócio. Eu entendia de orçamento, de planejamento financeiro, de indicadores, de gestão. Sempre trabalhei muito orientada por indicadores. Então hoje, aplico no meu próprio negócio tudo que aprendi ao longo da minha carreira dentro das organizações.
CS: Lélian, é muita informação (risos). Me diz uma coisa, a sua empresa, a Opus Human foi fundada por você e um ex-colega de trabalho. Quais foram os maiores desafios para você deixando um cargo de Gerente para assumir um papel de empresária e consultora?
LG: Saback, existem desafios práticos que todo empreendedor enfrenta: você precisa construir uma carteira de clientes, conquistar espaço no mercado, mostrar que está ali e que tem condições de entregar um bom trabalho. No meu caso, meus primeiros clientes foram justamente meus colegas da área de RH com quem convivi durante minha carreira. Já tinha construído credibilidade. Mas o meu maior desafio foi outro. Durante muito tempo, imaginei que iria trabalhar e me aposentar dentro de uma organização. Então no momento que inicio uma empresa, precisei passar por uma profunda mudança de mentalidade. Levei muito tempo para entender que eu era dona do meu próprio negócio. Mesmo trabalhando lado a lado com meu sócio eu estava me comportando como funcionária. Até a palavra Diretora me causava desconforto. Foi preciso um tempo para a ficha cair, para que eu me reconhecesse como empresária e assumir com autonomia o meu papel no mercado de trabalho, junto com um sócio e para os meus clientes.
Wladimir Martins, que é o meu sócio, sempre foi um grande colega e tornou-se um amigo que o trabalho me deu. E ele é tão curioso e inquieto quanto eu (risos). Quando ele falou que iria abrir a própria empresa e me chamou para ser sócia, eu disse que não tinha aquela convicção e que iria pensar. Voltei para casa. Tive todo o apoio da família e no dia seguinte topei o desafio. E então começamos a desenhar a Opus Human bem alinhada com a nossa experiência no mercado e as nossas competências técnicas. E considero que um dos nossos grandes diferenciais que construímos ao longo dos anos é a nossa atuação com tecnologia de gestão de pessoas e diagnóstico organizacional.
CS: Em 2025 você assumiu a presidência da AAPSA no estado da Bahia. Presidir uma associação como essa, voltada para a gestão de pessoas, desenvolvimento de profissionais e liderança também é um grande desafio. Como surgiu esse convite e o que representa na sua trajetória?
LG: Ao longo da minha carreira sempre realizei trabalho voluntário em outra associação de Recursos Humanos. Depois de 10 anos atuando de forma mais autônoma à frente da Opus Human, chegou o momento, inquieta que sou (risos), que queria fazer algo diferente do papel de voluntária. Não sei muito bem o que acontece na minha trajetória, mas as coisas vão se harmonizando.
Em abril de 2025, recebi o convite do presidente nacional da AAPSA, Alberto Roitman. Nós realizamos uma reunião e, a partir da minha história e do que ele buscava, me convidou para assumir a presidência aqui na Bahia. Confesso que tenho gostado bastante desse novo papel. E a equipe que formamos aqui na Bahia dá conta do recado. Sou muito grata a cada um dos diretores que fazem parte do nosso time.
Na verdade, Saback, entendo que essa foi uma oportunidade de ampliar possibilidades para profissionais e empresas no nosso estado. A AAPSA chega na Bahia com uma proposta relevante que é promover o desenvolvimento de profissionais e empresas para além das abordagens tradicionais. Nossa diretoria é diversa em formação profissional, porque entendemos a importância de inclusão de outros setores além de Administradores e Psicólogos. O trabalho é conjunto. Trabalho de equipe mesmo.
Quem participa dos nossos eventos sempre volta, porque entende que ali é um espaço de construção. Todo mundo se escuta e constrói junto. Além de ter networking forte se formar ali na minha frente. Então me deixa feliz e orgulhosa com meu trabalho e dos meus diretores. Sou suspeita para falar, mas modéstia à parte, temos recebido muitos elogios no que diz respeito aos nossos eventos, aos nossos treinamentos.
Estamos avançando, um passo de cada vez. Entendo que é melhor avançar de forma devagar e sustentável. Estamos nos dedicando muito. Pensar num RH além do óbvio não é tarefa fácil. Mas temos visto os resultados. A Bahia cresceu em números de associados. Nós temos planejamento estratégico. Cada diretoria tem suas metas e indicadores.
A vice-presidente Leila Silva, também se dedica de perto. Em um ano já conquistamos patrocínio e estamos em busca de novos parceiros. Estamos abrindo portas e conquistando a confiança do mercado, dos profissionais. É desafiador, mas também muito rico.
CS: Se você pudesse conversar com a jovem Lélian, recém-formada em pedagogia e iniciando a carreira, qual conselho você daria?
LG: Eu diria: “tenha certeza que se você fizer primeiro o que você ama, os resultados e o reconhecimento serão consequência”.
CS: E que orientação você deixa para quem está se formando e iniciando a carreira agora?
LG: Ao contrário do que muita gente fala, eu aprendo muito com a nova geração. E a minha mensagem é: recomece quantas vezes forem necessárias, não desista! Muitas vezes insistimos em caminhos que não fazem mais sentido, que não agregam valor e que não nos realizam. Eu, particularmente, não conseguiria trabalhar com algo que não gosto. Claro que a vida adulta exige responsabilidades e, muitas vezes, fazer o que precisa ser feito. Mas, eu continuo uma adulta curiosa, que gosta de desafios, que gosta de aprender e sentir prazer no que faz. Isso faz toda a diferença para que qualquer profissional tenha sucesso na carreira que escolheu.
CS: E no que diz respeito às empresas? Depois de tantos anos desenvolvendo pessoas, qual você acredita ser o principal desafio das organizações hoje?
LG: O problema das organizações não está nas estratégias. As empresas tem seus indicadores, conhecem suas metas e entendem o que precisam fazer para ser sustentáveis. O grande desafio está no comportamento. Formar gestores mais conscientes e consistentes. Desenvolver a capacidade de tomar decisões e criar ambientes de trabalho em que as pessoas realmente se sintam bem e felizes por fazer parte daquela organização. É um trabalho contínuo. Hoje com a nova NR-1, esse tema ganha mais importância. Não basta apenas mapear os riscos psicossociais. É necessário diagnóstico, implementar ações e manter um trabalho permanente de acompanhamento e desenvolvimento. É um processo contínuo e não uma ação pontual.
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