Formada em enfermagem pela UCSAL, Karine construiu uma carreira que rompe com a visão tradicional da profissão. Com 04 pós-graduações incluindo pediatria e neonatologia, seguida de MBA em Gestão Hospitalar, outra em Gestão do processo de doação e transplante de órgãos e, atualmente, se dedica à pós-graduação de Tecnologia de Dados em Saúde. Sua atuação transita entre assistência, atendimento pré-hospitalar, transplante, formação de profissionais e gestão pública.

Com experiência na Força Nacional do SUS e uma forte atuação no SAMU durante anos, foi também instrutora de BLS (suporte básico), ACLS (suporte avançado em cardiologia), PHTLS (Suporte pré-hospitalar no trauma) e também tutora do Ministério da Saúde, Karine carrega uma forte base administrativa, desenvolvida desde cedo nos negócios da família e uma sede inesgotável por novos conhecimentos. Esse encontro entre técnica e gestão construiu um perfil inquieto, observador e orientado à melhoria contínua. A sua competência técnica aliada às suas habilidades a levaram a ocupar funções estratégicas e desenvolver projetos relevantes dentro da saúde pública. Atualmente se divide entre a atuação no setor de transplantes, responsável pela estatística do serviço no estado da Bahia, e o suporte aos negócios da família na gestão de salão de beleza. Sobre a enfermagem traz uma visão clara: a profissão exige olhar, decisão, organização e, acima de tudo, envolvimento e desenvolvimento.
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Cristiano Saback: Karine como foi seu processo de escolha da enfermagem como profissão?
Karine Rodrigues: Na verdade não foi uma escolha fácil. No início do ano, logo após a conclusão do ensino médio, até cheguei a colocar enfermagem como primeira opção. Naquela época, a gente preenchia um formulário e enviava pelo correio. Ainda muito imatura pela idade, para decidir a profissão da vida, me deixei levar pelas opiniões de familiares e amigos que me disseram que o que eu queria mesmo era medicina. Acabei indo por esse caminho, rasguei o formulário, comprei outro e coloquei medicina e nutrição, mas graças a Deus, não passei. Eu já sabia que essa não era a minha escolha. No meio do ano prestei novamente vestibular e, por influência de minha mãe, que já me via como uma “boa administradora” e de 2 irmãs mais velhas que já faziam o mesmo curso, me inscrevi e passei em Administração. Assisti apenas 15 dias de aula e já notei que não era a minha praia. Cancelei a minha matrícula e voltei para o cursinho. No final do ano me inscrevi novamente no vestibular, mas agora para fazer o que realmente queria desde o início: Enfermagem. Passei. Na Universidade Católica de Salvador com a certeza de que, agora, estava no caminho certo. Neste período, já trabalhava na parte administrativa do Salão da minha família. Então desde o início eu já tinha essa vivência da gestão junto com a minha formação em saúde.
CS: Muita gente associa a enfermagem com o cuidado direto com o paciente. Em que momento você percebeu que existia um caminho possível dentro da gestão?
KR: Foi no SAMU. Ali foi um verdadeira escola e formação de outras competências minhas que eu não enxergava. Eu já havia passado pela assistência em um grande hospital em Salvador, atuando em vários setores, inclusive com pediatria, que era minha paixão. Foi quando fiz minha pós nessa área. Algum tempo depois, começou a implantar em Salvador o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o SAMU, com os atendimentos pré-hospitalares. Essa era outra paixão, despertada assistindo aqueles vídeos de 911 dos Estados Unidos, mas não enxergava possibilidade atuação, pois aqui no Brasil não existia esse serviço. Estudei muito o edital, busquei mais conhecimentos sobre o assunto e me inscrevi no processo seletivo e passei! Mais um sonho começava a ser realizado! Comecei a me dividir entre os dois trabalhos (hospitalar e pré hospitalar). Só que tudo era muito novo no SAMU. Nós, recém contratados, não sabíamos exatamente como as coisas funcionavam. Era o começo. Fomos descobrindo junto com toda a equipe. A estrutura estava se formando. Algo começou a me inquietar. Não tínhamos processos e protocolos claros. Cada um fazia o plantão ao seu bel prazer. Para uma virginiana como eu, isso é bem desconfortável! Gosto de organização então comecei a padronizar e identificar a ambulância que eu trabalhava. A gestão descobriu, viu a diferença e perguntou quem tinha feito aquilo. Me apresentei. Aí me pediram que eu padronizasse todas as outras (risos). Perguntei: “Eu?”. Eu tinha feito uma, mas entender que aquilo se tornaria um padrão e eu seria responsável por isso, fiquei com medo, mas fui com medo mesmo. Como lhe falei, Saback, estava tudo começando. Chegou um momento que precisei sair da pediatria, para me dedicar a esse novo momento na minha carreira. Isso aconteceu, porque o coordenador iria sair do cargo. Fui chamada para assumir o posto. E eu fiquei com medo mais uma vez. Eu não me via com experiência de gestão, principalmente num serviço tão complexo como o pré hospitalar, mas aceitei o desafio e assumi a coordenação com muito apoio do coordenador geral, dedicação e estudo. Foram 08 anos de atuação no SAMU. Foi nessa época que fiz o MBA em Gestão Hospitalar. Ali tive contato com profissionais das mais diversas áreas e isso foi muito enriquecedor para minha carreira. Ampliou o horizonte do conhecimento e de contatos com farmacêuticos, administradores, gestores de hospital, etc. Também durante a minha trajetória no SAMU que tive meus dois filhos. E, além de Salvador, ainda trabalhei no SAMU de Lauro de Freitas e de Madre de Deus. Eu não parava. O SAMU havia se tornado minha grande paixão. Momentos muito intensos e felizes vivi nesse período! Até hoje guardo lembranças muito boas e muito orgulho de tudo o que desenvolvi lá.
CS: E quando entra a área de transplante na sua carreira?
KR: Quando acabou o meu contrato com o SAMU, fui indicada pelo meu coordenador para o coordenador do Transplante. Mas pensei: para que lado vai transplante? A gente não aprende isso na faculdade. Mais um desafio pela frente e comecei a buscar os conhecimentos da área. Entrei como enfermeira assistencial na OPO que é a Organização de Procura de Órgãos que toma conta de vários hospitais da área de abrangência. Poucos meses depois, fui chamada para integrar a equipe da Central de Transplantes, e agora ficaria responsável por acompanhar os protocolos de Morte Encefálica (PME) de toda a Bahia!!! O plantão de 24h, algumas vezes era tranquilo, então eu aproveitava e organizava o setor: criava POPs (Protocolo Operacional Padrão), check-list para cada rotina, buscava meios para tornar o processo cada vez mais prático e tranquilo para minimizar o estresse quando o “SIM” de uma doação chegava. Acredite! Esse ‘SIM’ deixava a equipe bem insegura, pois ele vinha carregado de muitas responsabilidades que nos fazia tremer nas bases! Então quando aparecia a doação, já estava tudo organizado, todo o processo para agilizar a tarefa. Um tempo depois, numa conversa com a coordenadora, ela me falou que estava pensando em fazer um estudo e levantar dados sobre transplante na Bahia. Fui buscar as informações e a partir daí nasceu a área de estatística de transplante na Bahia. Começamos o levantamento dos dados naquele ano de 2013. A inquietação minha e da coordenadora de enfermagem, nos fez ir atrás dos dados de anos anteriores e, aos poucos, conseguimos dados desde o ano 2000. Isso foi muito importante. Comecei a me dedicar mais e mais. Com esses dados, pudemos atuar em frentes que percebemos que estava deficiente. Vimos o número de notificações e transplantes crescendo, as recusas familiares caindo, melhor aproveitamento dos órgãos por uma melhora na manutenção do potencial doador, treinar as equipes para acolhimento das famílias focado na comunicação de más notícias para oferecer aos familiares enlutados a oportunidade de manter a vida do ente querido no corpo de alguém que precisa muito de um órgão.... Muitos frutos bons vieram desse trabalho estatístico! Trabalhar com estatística é isso: coletar dados e analisar. A gente passou a ter um parâmetro. Isso é muito importante para nosso estado. Atualmente, estou fazendo uma pós-graduação em Tecnologia de Dados em Saúde, para aprender o que posso fazer de melhor com os dados de transplante de órgãos que temos hoje. E posso garantir: nossa base de dados hoje é riquíssima!
CS: Essa sua veia para a gestão dentro da área de saúde, você diria que vem da vivência com os negócios da família? Esse é o seu lado B?
KR: Saback, eu não tenho um lado B. Eu tenho dois lados A. Metade é amor e a outra também. Enfermagem e administração se complementam na minha carreira. Na realidade, eu apliquei o que me acompanhou durante muitos anos da minha vida. Acho que dessa maneira eu acabei acrescentando um diferencial na minha atuação como enfermeira. Mas é bom lembrar que, além da minha vivência, fui buscar mais formações e criar um lastro importante para soluções e tomar decisões. Iniciativa, levantar e ir lá e fazer são um meio de se destacar. Quando me enxergaram como diferente, me deram mais oportunidades e fui seguindo. E quando aparecia o medo num novo desafio, sempre fui lá buscar mais capacitação. Quando fui para o SAMU e depois para a Central de Transplantes poderia, apenas, fazer o que me cabia e o que era designada para fazer. Mas eu não gosto da zona de conforto. Aliás, que de confortável não tem nada. (risos) Também acredito que todo o conhecimento que adquirimos na vida vai se alinhando e entranhando instintivamente e, quando vemos, estamos aplicando em tudo o que nos propomos fazer com amor!
CS: E um momento de desafio na sua carreira, qual foi?
KR: Olha, sem dúvida, a pandemia. Acho que para os profissionais de saúde em geral. Voltar pra casa, ficava pensando nos meus filhos, na minha família. O receio de levar o vírus para dentro de casa foi algo que mexeu muito com todos que trabalham com saúde. Além disso a rotina de todos os setores foi mexida com pandemia. Imagina o setor de transplante. Porque, além da pandemia acontecendo, existiam outras pessoas precisando de cirurgia, de órgãos... e os protocolos ficaram diferentes. Foi uma época de adaptação tanto na esfera pessoal quanto profissional. Momentos desafiadores vão existir sempre. Muitos deles vão nos fazer pensar em desistir. Temos que ser persistentes se acreditamos que estamos fazendo o certo e o melhor para todo o processo. Acontece que, quando você sai da caixinha, muitas vezes é mal visto e mal julgado, principalmente se o que você fez, trouxe um grande impacto ou você for visto pela gestão, como alguém especial. Que não é 'mais um na multidão', sabe?!?! Nessa hora, aparecem os 'vampiros' querendo sugar a sua energia e barrar a sua ascenção. Te dizer que você está errado! Passei por isso em vários momentos. Foi desafiador, mas hoje sinto orgulho de não ter desistido e ter seguido em frente no meu propósito!
CS: Quais áreas da enfermagem que você ainda acha que são pouco exploradas pelos profissionais?
KR: Um enfermeiro bom é aquele fora da caixinha. É aquele que consegue enxergar oportunidade em qualquer setor. Na parte de tecnologia, temos um excelente campo para a enfermagem atuar, buscando alternativas tecnológicas para minimizar erros, readmissões de pacientes, infecções hospitalares cruzadas e até criação de sistemas para coleta de dados e posterior análise. Com os conhecimentos assistenciais, o enfermeiro, melhor do que qualquer profissional de tecnologia, pode pensar em como melhorar essas áreas. E a enfermagem em eventos pode ser bem mais aproveitada só que tem que fazer a diferença. Não é só ficar esperando algo acontecer para agir, mas ficar atento em como evitar para que coisas graves não aconteçam também. Se me perguntar: Como assim? Te digo: No evento, não ficar dentro da ambulância esperando o grave chegar. Fica ali olhando o comportamento dos convidados. Se observar algo “incomum” ou que possa gerar um dano, aciona a segurança para que intervenha e até possa trazer o “futuro paciente” já para a ambulância para iniciar a intervenção antes mesmo de chegar numa situação muito crítica ou até fatal! Isso fará com que o seu serviço não seja ‘mais um’. Seja O SERVIÇO de excelência e todos os eventos vão querem esse enfermeiro. Por isso sempre digo que, qualquer área, se você fizer a diferença, você se destaca. Nada de zona de conforto!
CS: O que você pode dizer, dicas por exemplo, para profissionais da área de enfermagem, aqueles que acabaram de se formar e os estudantes?
KR: Saback, particularmente, sempre gostei muito de estudar, de abrir o leque do conhecimento. E quando falo estudar, não é mais do mesmo, mas de áreas de conhecimento que se complementam e turbinam a sua carreira. E a enfermagem oferece uma série de possibilidades de atuação. Ser da enfermagem é realmente para quem gosta. Enfermagem não é fácil e não é pra qualquer um. Mas quando a gente ama, a gente se aprofunda, busca conhecimento. Quando eu estava no SAMU, por exemplo, fui fazer cursos de BLS, PHTLS, ACLS, que não são fáceis. Me dediquei tanto que fui selecionada e virei instrutora desses cursos. Na área de saúde, a gente tem que estar em constante busca de inspiração seja atuando na linha de frente ou nos bastidores. Tem que aprender a fazer leitura de cenários, criar referências profissionais importantes que vão fazer a diferença na construção da carreira. Não adianta ficar parado esperando milagre ou soluções mágicas. Enfermagem é dedicação, estudo, ampliação e reciclagem de conhecimento.
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