Aos 20 anos, Eric Carneiro, está no 5º semestre do curso de Engenharia da Computação, mas já entendeu, no início, algo que muitos estudantes de graduação descobrem perto da formatura: a carreira começa antes do diploma. Aluno da Universidade SENAI CIMATEC, ele vem construindo a sua trajetória entre sala de aula, projetos estudantis, cultura geek, gestão de eventos, liderança e uma oportunidade remunerada como bolsista no INCITE Indústria 4.0. Antes mesmo de concluir o curso ele já se conecta tecnologia, processos, comunicação, organização e mercado de trabalho.
Nesta entrevista, Eric fala sobre a escolha pela Engenharia da Computação, a transição difícil do ensino médio para a faculdade, a pressão das matérias, a vontade de desistir, o cuidado com a saúde mental, o papel da Geração Z e a importância de aproveitar as oportunidades extracurriculares. Sua história mostra que a vida universitária é muito mais do que prova, nota e obrigações: é, também, um território de descoberta, preparo e construção do futuro profissional.
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A geração Z é uma geração de transição. Temos um papel importante para compreendermos os rumos que o mundo está tomando hoje e traduzir isso para o futuro Eric Carneiro Estudante de Engenharia da Computação
Cristiano Saback: Eric o que levou você a escolher a faculdade de Engenharia da Computação?
Eric Carneiro: Saback, basicamente foi a minha paixão natural por tecnologia desde criança e adolescente. Em algum momento enxerguei que existiam caminhos para trabalhar nessa área, construir conforto, possibilidade em home office, nesse caso visando o mercado internacional e unir o trabalho com algo que eu já tinha afinidade. Simples. (risos). Mas foi esse foi o primeiro passo para olhar para a Engenharia da Computação como possibilidade profissional.
CS: Todo mundo pensa que Engenharia da Computação se resume a números e programação. Tem espaço para a criatividade?
EC: Claro! A criatividade entra como fator crucial para desenvolver soluções que genuinamente impactem no dia a dia das pessoas. Na Engenharia da Computação, e acho que Engenharia de forma geral, a criatividade é uma habilidade que precisa ser exercitada e colocada em prática, porque ela possibilita a geração de ideias, que, futuramente, vão trazer impacto na solução final.
CS: Normalmente a gente começa a pensar em escolher uma profissão ali pelos 16, 17 ou 18 anos. Você está com 20. Como foi pra você essa transição do ensino médio para a faculdade?
EC: Foi abrupta. Veio em um período em que eu não esperava, porque, a princípio, eu passei para iniciar no segundo semestre. Então já estava comemorando meus 06 meses sabáticos (risos) depois da correria de ENEM e Vestibular. Mas a lista avançou e fui convocado para iniciar no primeiro semestre. Mas, hoje, olhando para a minha trajetória, percebo que foi algo muito bom. Porque por mais que fosse divertido e relaxante passar um semestre sabático, eu fico muito agradecido, porque conheci pessoas boas entrando no mesmo período que eu entrei. É uma galera bem fora do comum, bem fora da curva. São pessoas inteligentes, pessoas de quem eu gosto muito e muitas delas eu vou levar para a vida.
CS: Eric, você está no 5º semestre, então essa transição deve ser ainda fresca na sua memória. Sair do ensino médio envolve adaptação de linguagem, demandas e exigências. Qual foi a maior diferença que você percebeu nessa adaptação?
EC: Saback, no geral, a mais gritante, é o quanto você precisa ser independente dentro da faculdade e o quanto você precisa buscar seus próprios resultados. Diferente da época de escola, onde os professores eram mais interpessoais, quase fraternais, na faculdade isso não existe, com raras exceções. O professor chega, dá o assunto e você tem que correr atrás. Você tem que fazer o seu, estudar, procurar novas fontes de conhecimento. Se você não se dedicar, vai colher as consequências daquilo. Além disso, é um contexto completamente novo, com uma complexidade diferente.
CS: O que você acha que poderia preparar melhor o adolescente do ensino médio para a transição da vida universitária?
EC: Isso pode partir do próprio adolescente, mas os pais têm papel fundamental. É uma fase importante de transformação. Um acompanhamento com um profissional capacitado pode ajudar tanto na escolha da profissão quanto nessa transição do ensino médio para a faculdade. Principalmente orientando uma pessoa que tem questões ligadas à ansiedade ao entrar na faculdade, ou que pode se sentir insegura diante do mundo novo. Esse profissional pode ajudar numa transição e tornar o processo menos assustador e encarar o desafio com aprendizado e evolução.
CS: E nessa sua chegada ao contexto universitário o que lhe surpreendeu?
EC: Olha, Saback. Eu já esperava um nível de complexidade considerável, principalmente em relação à área de extas. Mas me surpreendeu o ambiente e o contexto. No SENAI/CIMATEC, não é só universidade, é também indústria. Então os alunos convivem com um trabalho no dia a dia, porque lá tem várias empresas presentes nesse contexto. Então são dois mundos convivendo. E com essa convivência existe comunicação e ponte para o mercado de trabalho.
CS: Então foi uma decisão estratégica direcionar a sua formação para essa instituição?
EC: Sim. Estratégica e positiva para o meu lado profissional.
CS: Alguns jovens se frustram ou não compreendem bem o contexto universitário. Você nunca pensou em desistir da faculdade ou fazer uma transição?
EC: Já pensei, sim. E é inquietante. Um momento de muitas perguntas e dúvidas. Mas ressignifiquei essa fase. Trabalhei em mim a forma como eu entendo a faculdade em relação ao meu futuro profissional. Comecei a perceber como certas escolhas que eu faço podem até não ter um impacto tão grande no momento, mas no futuro certamente terão. Aprendi a relevar e balancear tudo, inclusive com relação à minha vida pessoal. Equilibrar minha saúde física e mental.
CS: Você fala do direcionamento do curso para exatas e tecnologia, mas assume, dentro desse contexto desafios ligados à área de humanas: comunicação, gestão e liderança. Quando você começou a perceber que conseguiria unir tecnologia, gestão e liderança?
EC: Foi, principalmente, no cargo que ocupo como assistente de engenharia do laboratório HIIVE, que faz parte do grupo INCITE Indústria 4.0. Atuando com a gestão de equipamentos e gestão de pessoas eu tenho que lidar muito com a comunicação do laboratório e cuidar de diferentes partes desse ambiente. É um espaço voltado para a realidade virtual, com projetos aplicados na indústria e reconhecido em várias partes do Brasil e do mundo. Com comunicação, gestão e administração bem feitas, esses projetos, esses fluxos e essas inovações são aplicados de forma mais eficiente e mais coerente.
CS: Como você conquistou essa vaga?
EC: Investindo em caminhos e oportunidades desde que cheguei na faculdade. Isso tudo extrassala de aula, mas dentro da instituição. Assumi o cargo de diretor de eventos do Clube de Programação e tinha que estar ali na linha de frente cuidando dos eventos, competições, palestras e tudo que envolve tecnologia e programação. Isso me preparou para um contexto que eu achava que não tinha domínio. Mas descobri que tinha. Trabalhar com eventos, fazer a logística, gestão e todas essas questões foram trabalhadas desde o começo. Com essa atuação intensificada percebi uma oportunidade de atuar com algo que é minha paixão desde infância na CIMATEC Falcons. Vale falar que tanto o Clube de Programação quanto a CIMATEC Falcons são iniciativas estudantis dentro da faculdade. Mas esse último mexeu com minha paixão de infância completamente ligada à cultura geek, à cultura nerd, jogos eletrônicos, filmes e animes. É uma coisa pela qual sempre me interessei. Eu não tinha ideia de que poderia unir essa paixão e atuar com algo que fosse trabalho. Assumi então o cargo de diretor administrativo. Lá todo mundo acaba meio que fazendo tudo. Trabalho de equipe mesmo. Isso me trouxe mais alegria e sensação de pertencimento.
Essas duas experiências em projetos da faculdade foi me preparando para a oportunidade quando surgiu no INCITE. Hoje tenho mais facilidade em lidar com processos e outras demandas mais específicas. Se não tivesse passado pelas experiências anteriores, talvez tivesse mais dificuldade em conquistar essa vaga onde estou. Também posso contar com uma chefe que trabalha e me auxilia diretamente na parte de operações. Isso acontece desde que eu cheguei, ela sempre me orientou para que eu pudesse melhor as minhas funções e fazer o que tenho que fazer na minha rotina de trabalho.
CS: O que percebo é que você, desde que entrou na faculdade, começou a criar repertório. Não só desenvolvendo as competências técnicas, mas também investindo no desenvolvimento de habilidades. A gente pode dizer que você acabou descobrindo um novo mundo e um novo Eric?
EC: Certamente. Acho que toda pessoa tem seu tempo e ele deve ser respeitado, principalmente quando se entra na faculdade. O choque é grande e você precisa absorver tudo. Mas descobri que devemos nos jogar mais nas oportunidades e nas coisas diferentes que um ambiente universitário pode oferecer. Isso certamente abre caminhos e portas para o nosso futuro tanto como profissional quanto como pessoa. Isso te auxilia de forma exponencial em vários aspectos da vida, até mesmo no pertencimento à faculdade. Acho que é assim: viu uma oportunidade? Ela se alinha com seus princípios? Você acha que dá pra fazer e vai se esforçar e vai conseguir? Então, se joga!
CS: Hoje, qualquer profissão, também exige idiomas, autoconhecimento profissional, repertório e habilidade em se posicionar melhor. Nesses aspectos como você se preparou ou se prepara?
EC: Nesse sentido, investi em mim. Tenho inglês avançado, espanhol também e já consigo me arriscar um pouco no chinês. Eu entendo que o mercado exige isso. Não só pela parte técnica da Engenharia, mas para qualquer profissão. Quando você tem um ou mais idiomas, isso também lhe destaca no meio da multidão. Além disso, eu fiz um processo de consultoria de carreira para universitários, uma mentoria de carreira, que ajudou muito a enxergar o meu momento. Ajudou, inclusive, a me preparar para essa nova etapa, para entrevistas e para esse trabalho que tenho hoje.
Foi importante para reconhecer toda a construção da competência técnica, mas principalmente as habilidades que eu já tinha e como eu poderia desenvolver outras. Acho que o maior investimento é entender sobre si mesmo, nesse sentido profissional. Isso estrutura para o momento universitário, mas também impacta para vida depois da formatura. Então, dessa maneira, me senti mais seguro para tomar decisões importantes, me preparar melhor e aproveitar oportunidades. Hoje, já tenho contato com profissionais, assumo papéis ligados à gestão dentro da área de tecnologia e começo a enxergar caminhos que me interessam, mesmo antes de eu me formar.
CS: Você faz parte de uma geração que é alvo de muitas críticas: a geração Z. Frases como: “a Geração Z é preguiçosa.” Ou “A Geração Z não tem visão de futuro”. Você acha que a Gen Z tem sido muito subestimada?
EC: Eu acho que existe o estigma. Existe realmente essa questão da Geração Z ser subestimada ou, de alguma forma, ter algum estereótipo ligado a ela. Seja pelo momento que essa geração está inserida, seja pela ascensão da Inteligência Artificial, seja porque os processos estão cada vez mais centralizados no meio digital.
A minha geração, no meu ponto de vista, está mais adaptada a esse contexto e a essa mudança contínua. É uma adaptação constante.
Acho meio incompreensível o pensamento por trás desse estigma, porque a Geração Z é uma geração de transição. Eu costumo entender assim: a gente está saindo de um mundo “um pouco mais bruto”, da Geração Y, para um mundo socialmente digital, que é o mundo que a Geração Alpha vai pegar e já está vivenciando,
Então, essa geração da transição, a Gen Z, é perfeita para fazer o trabalho de adaptar o mundo como um todo para esses novos caminhos. Temos um papel importante para compreendermos os rumos que o mundo está tomando hoje e traduzir isso para o futuro”.
CS: Qual o foi o maior desafio desde que você entrou na faculdade?
EC: Quando eu olhava para faculdade com outros olhos. Ainda na fase de adaptação. Acho que a complexidade do contexto e falta de preparo para essa etapa da vida. Entender como conciliar a vida pessoal com essa nova pressão que tinha chegado. Esse é um cuidado que muita gente tem que ter: a saúde mental, que muitas vezes acaba negligenciada, normalizada ou banalizada. Quando tudo chega em excesso, a carga é muito grande e, se a pessoa não se cuidar e não souber equilibrar as coisas, todos os pilares da vida podem ser afetados: vida pessoal, vida profissional e acadêmica. Penso que são pilares importantes que precisam estar na mesma altura, se um cresce demais sozinho tudo perde o equilíbrio e cai por cima dos outros.
CS: Qual o seu recado para os universitários? Para quem está chegando na faculdade, para quem está no meio do curso ou passando por uma fase difícil?
EC: Saindo do ensino médio, faculdade é um novo mundo. Tem obstáculos, os professores conduzem as cobranças e prazos de maneira diferente do tempo de escola, tem pressão, matéria difíceis e momento em que dá vontade de desistir. Mas também tem descoberta, desenvolvimento, pertencimento e oportunidades. O importante é o estudante entender sobre si mesmo, entender sobre o mercado e se preparar para as oportunidades que pode surgir antes mesmo do diploma. Isso passa por reconhecer habilidades, desenvolver novas competências, participar de projetos testar caminhos e construir repertório.
No mais: respire fundo, respeite o seu tempo, mas não fique parado. Vá plantando sementes pelo caminho, aproveite cada oportunidade que fizer sentido para a sua trajetória. Em algum momento, aquilo que parecia uma atividade extra pode se transformar em experiência, trabalho, rede de contatos e futuro profissional.
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