Neemias Santana fala sobre a carreira e dos desafios e conquistas como profissional da dança


Foto: Arquivo Pessoal

Neemias Santana é dançarino licenciado pela Escola de Dança da UFBA, atua como dançarino, professor e empreendedor. Tudo voltado pra dança. Carismático, comunicativo e apaixonado pela profissão, Neemias conversou com Cristiano Saback. E nessa entrevista a gente descobre que ser artista é muito mais que viver um sonho. Criatividade, correria, desenvolvimento de projetos e gestão fazem parte do seu dia dia. Confira:

CS: Normalmente quem escolhe uma carreira artística, os desafios já começam na escolha, quando outras pessoas estão escolhendo medicina, engenharia, odonto, etc. Como foi pra você optar pela carreira de dançarino e como sua família e amigos reagiram a isso?

NS: No meu caso pareceu um caminho natural. As artes sempre foram muito presentes em minha vida, e desde criança eu estive envolvido com dança, música, teatro, literaturas, desenhos, pinturas… isso tudo era muito estimulado, e bem mais frequente que esportes. A dança também foi bem presente na vida da minha família: minha irmã era bailarina, meu pai organizava bailes e gafieiras quando vivia no Rio de Janeiro, minha mãe foi baliza em fanfarras de Pernambuco. De forma que quando decidi fazer um curso superior em dança, eu apenas precisei comunicar à minha família, e isso nunca foi questionado. Eles sempre deram muito apoio, e eu sei que isso é uma sorte enorme. As crises sempre foram muito mais internas, comigo mesmo, ou com o mercado.

CS: Você dança, produz espetáculos, dirige, é professor e empreendedor. Como é pra você conciliar tudo isso?

NS: Essa é a realidade básica de todo artista independente no Brasil. E essa é uma condição complexa sobre a qual tratar. Por um lado, isso revela precariedades estruturais no segmento, evidencia a insuficiência ou ausência de políticas públicas adequadas para o setor e aponta para a imensa informalidade que ainda condiciona a maioria de nós. Na imensa maioria dos casos, atuar em mais de uma frente não é uma escolha, mas uma condição de subsistência.

Por outro lado, isso também revela uma mudança no perfil e no entendimento do que é ser artista e o que isso é como profissão. A mim, pessoalmente, agrada muito essa multiplicidade de atuações e a possibilidade de ter mais conhecimento e controle sobre todas as etapas de minhas produções. Mas isso também exige muito mais das artistas, mais formações, mais trabalho, e obviamente a dedicação ao processo criativo precisa ceder tempo e espaço às demandas burocráticas e às gestões de uma carreira. Hoje eu co-dirijo uma plataforma de artistas e produtores de dança com alcance internacional, o Nii/Colaboratório. Ali trabalhamos de modo colaborativo e propositivo. Portanto ter essa amplitude de ações de modo continuado é uma das razões pela qual conseguimos produzir e continuamos existindo.

CS: Quais foram seus maiores desafios profissionais?

NS: Toda etapa tem seu próprio grau de desafio. A formação acadêmica, o treinamento técnico, a pesquisa teórica e o desenvolvimento de linguagem e identidade artística, gerir pessoas, trabalhar coletivamente, produzir regularmente, alcançar reconhecimento… o desafio é constante e talvez seja parte da natureza desse trabalho. O maior deles eu continuo enfrentando ou tentando contornar, que seria a possibilidade de uma prática artística economicamente autossustentável.

CS: Qual a sua fonte de criatividade? Onde você busca inspiração para criar, produzir, empreender e dar vida a tudo isso?

NS: Inspiração, quando se é profissional, é exercício. É muito trabalho dedicado à sensibilização de nossa própria capacidade perceptiva, reflexiva e crítica. É ainda alguma sistematização desses processos a fim de tornar possível a tradução dessas percepções em objetos ou experiências artísticas. Isso dito, a inspiração vem de toda parte, o tempo todo. No meu caso, eu fiz alguns recortes temáticos sobre os quais eu dedico mais atenção e a partir dos quais eu crio. No momento, eu me interesso por narrativas distópicas, futurismos, por imagem, cinema e culturas afrodiaspóricas. Então a minha dança se alimenta e se elabora a partir desses elementos. Mas também se contamina de todos os encontros que estabeleço. Desde as minhas parceiras constantes do Nii/Colaboratório, cada qual com sua própria pesquisa criativa, quanto de todas as colaborações com outras artistas de várias linguagens.

CS: Hoje você também dá aulas de dança. Isso já estava em seus planos profissionais? E o que representa para você ensinar? É uma paixão também? O que você gostaria de dizer para os seus alunos?

NS: Nada do que eu fiz na vida é mais exigente do que ser professor. Eu comecei a ensinar cedo, logo no começo da carreira, mas inicialmente não era meu foco. O amor só veio bem depois. rs A minha maior vontade sempre foi ser coreógrafo, e por isso sempre estive atento a desenvolver algum tipo de pedagogia, já que eu teria de abordar corpos e sensibilidades de outras pessoas. Eu também tive e tenho ótimos mestres, e isso ampliou minhas perspectivas. O ensino nunca foi um exercício aceito com muita empolgação de minha parte.

Pelo contrário, com muito temor e seriedade. Sempre significou um alto nível de entrega, esforço e responsabilidade para o qual meu ego não estava desejando se ofertar. Talvez por isso eu prefira a ideia de mediador e de trabalhar entre parceiros. Mesmo hoje, embora eu já ame estar em sala de aula cercado de gente faminta por aprender, ainda morro um pouco todos os dias, sempre, em cada aula, a cada hora, necessariamente. Mas essa é mesmo a dinâmica da semente. Eu a abracei.

CS: Quais os planos para 2023? Tem projeto novo? Novos desafios?

NS: Este ano, eu estive quase que exclusivamente dedicado a ser professor, localmente, com atuações pontuais como dançarino. No próximo ano, eu retomo mais intensamente a gestão e a prática artística junto ao Nii/Colaboratório, com novos projetos de ensino, pesquisa e criação, mas também puxo novo fôlego para seguir desenvolvendo minha pesquisa solística. Sigo com as parcerias artísticas já estabelecidas com outras artistas no Brasil e na Europa, e faminto por criar novas relações e possibilidades. A grande ambição sempre foi, e segue sendo, contribuir em alguma medida com a tradição de polo artístico que a Bahia sempre teve.

CS: Qual mensagem/conselho você deixa para aqueles que pensam em seguir uma carreira na dança?

Tente! Mas tente muito seriamente. A dança vai te exigir tudo, vai te exigir inteiro, vai te exigir mais do que você tem para dar, e você vai ter que inventar. Mas tente!

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