O impacto das doenças invisíveis no cotidiano profissional
Algumas doenças afetam produtividade, relações e saúde mental e desafiam empresas a enxergarem o que nem sempre é visível

Fui convidado a acompanhar o XI FOPADII (Fórum de Pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais) promovido pela Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), em Salvador (BA), no mês de agosto de 2026. Entre médicos, nutricionistas, profissionais de enfermagem, psicologia e pacientes, muito se falou sobre a Doença de Crohn e Recolite Ulcerativa, duas doenças inflamatórias intestinais crônicas.

Em meio às apresentações sobre diagnósticos e tratamento, uma questão me chamou a atenção: como trabalhar quando os efeitos de uma doença interferem profundamente na rotina, mas não necessariamente são percebidos por quem está ao lado?
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Dor abdominal, fadiga, urgência para evacuar, necessidade frequente de ir ao banheiro, exames, internações e efeitos emocionais pode afetar diretamente a atividade profissional. E ainda existe um componente adicional: o receio de explicar uma doença relacionada ao intestino.
Dra. Luciana Guedes, integrante da diretoria da ABCD, destacou justamente o preconceito que pode surgir no ambiente profissional. Ao falar sobre um funcionário que precisa se ausentar para ir ao banheiro, resumiu uma situação enfrentada por alguns pacientes no trabalho: “Será que ele é doente ou está de malandragem?”. A pergunta expõe um problema de gestão. Quando a condição é invisível o comportamento provocado pela doença pode ser interpretado como desinteresse, preguiça ou falta de comprometimento.
A Dra. Genoile Santana, professora titular da Faculdade de Medicina da UNEB, fundadora do Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais da UFBA e responsável pela implantação do ambulatório no Hospital Roberto Santos, explica que a doença em atividade repercute na qualidade de vida, nas dimensões sociais e emocional, mas ressalta que “com o tratamento e controle da inflamação, esses indicadores podem melhorar”.
Quando até comer vira um problema no horário de trabalho
A nutricionista da ABCD, Maria Izabel Lamounier, trouxe uma situação que talvez passe despercebida por colegas e gestores: “alguns pacientes, quando estão com a doença ativa, relacionam a alimentação à necessidade de evacuar e passam a evitar comida durante o período de trabalho. Elas não comem para não ter que ir ao banheiro”. Ela ressalta ainda que isso pode gerar um ciclo preocupante desencadeando restrição alimentar, perda de peso e desnutrição, com possíveis reflexos sobre disposição, capacidade de realizar atividades e produtividade.
A Gastroenterologista Dra. Adriana Ribas acrescenta que a urgência de evacuar e as frequentes idas ao banheiro podem provocar estigmatização. “Há situações que, nós médicos, precisamos produzir relatórios para orientar adaptações na atividade profissional. Para profissionais que trabalham com plantões ou jornada noturna, por exemplo, aspectos de regularidade do sono e condições de trabalho podem precisar ser considerados no acompanhamento do paciente”, explica.

Gízela Rodrigues, enfermeira especialista em endoscopia digestiva, falou que “quando não diagnosticada e tratada adequadamente, as doenças inflamatórias podem trazer prejuízo à vida profissional e social e, em fases agudas, levar inclusive a internações prolongadas para tratamento medicamentoso e, em alguns casos, cirurgia”.
Contar no trabalho ou esconder?
Uma questão importante é: o profissional deve comunicar sua condição de saúde à empresa? Não existe resposta única.
Fui falar com alguns pacientes que estavam presentes no evento. Ana Elisa, 43 anos, supervisora da AGCEF Bahia, disse: “fui diagnosticada com recolite ulcerativa em 2022 e decidi informar meus gestores. Precisava me ausentar para realizar os exames e apresentei toda a documentação médica.”
Já advogada e professora Vanessa Matos, do Direito dos Autoimunes, viveu durante anos outra relação com seu diagnóstico. Diagnosticada com uma DII (Doença Inflamatória Intestinal), em 2009, disse que passou anos sem tornar a condição pública. Somente em 2022 decidiu falar abertamente: “Eu tinha tanto medo de expor o diagnóstico, mas depois que comecei a falar abertamente sobre a doença isso acabou me abrindo muitas portas”. Sua experiência como paciente passou a dialogar com a sua atuação profissional no Direito da Saúde, aproximando-a de pessoas que reconhecem nela não apenas o conhecimento jurídico, mas a compreensão de quem também convive com a doença.
Mas é importante destacar que quem convive com DII (Doença Inflamatória Intestinal) tem seus desafios profissionais. Nem todos conseguem ter a compreensão do trabalho ou ressignificarem a própria carreira. Revelar uma doença que não é visível aos olhos dos colegas de trabalho, ainda pode gerar preconceito e desconfiança.
E qual é o papel da empresa?
Marcelo Pituba, administrador e psicólogo, chama a atenção para os efeitos emocionais que podem permanecer mesmo durante o tratamento ou a remissão: “Há pacientes que continuam convivendo com o medo de uma nova crise e com as repercussões psicológicas da experiência”. Marcelo aponta que no ambiente organizacional não existe uma regra de procurar primeiro o gestor direto ou o setor de Recursos Humanos. Isso dependerá da estrutura existente na empresa, mas destaca: “O RH pode servir como esse mediador e essa mediação importa, porque produtividade e saúde não devem ser tratadas como lados opostos”.
A presidente da ABCD, gastroenterologista Dra. Marta Brenner Machado, lembra que: “os efeitos podem chegar ao desemprego, à necessidade de auxílio-doença e à mudança da rotina profissional. A informação, a conscientização e o acesso ao tratamento são fundamentais para reduzir esse impacto.”
Aqui cabe uma reflexão necessária: nem todo profissional que aparenta estar bem, está bem.
Uma doença invisível não elimina metas, prazos ou responsabilidades. Mas reconhecer a situação permite discutir caminhos possíveis, adaptações e formas de preservar tanto a saúde quanto a capacidade produtiva. Porque, quando a empresa enxerga apenas o comportamento e desconhece o que existe por trás dele, pode achar que é falta de comprometimento o que, na realidade, é uma pessoa tentando continuar o trabalho enquanto enfrenta uma doença crônica.
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