Nos bastidores de grandes shows, do Carnaval e de grandes eventos, existe um trabalho quase invisível e altamente estratégico. Produtora geral da cantora Daniela Mercury, Lívia Lopes construiu uma carreira importante no âmbito do entretenimento. Teve o primeiro emprego como secretária, num escritório contábil, enquanto cursava administração na faculdade. Mal sabia que essa sua atuação iria proporcionar a descoberta do seu talento: Produtora. Aos 17 anos entregava panfletos de shows na porta de outros eventos, depois ingressou na faculdade, atuou na área administrativa financeira, passou pela parte operacional e linha de frente da produção de eventos, até chegar, aos 39 anos, no comando de uma das engrenagens mais complexas do entretenimento brasileiro.

Nesta entrevista para Cristiano Saback, Lívia fala de planejamento, confiança, inteligência emocional, desafios, responsabilidade institucional e o impacto econômico na cadeia do entretenimento. Confira abaixo.
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As pessoas têm uma ideia de que quem trabalha com entretenimento, não trabalha, se diverte Lívia Lopes Produtora geral do Canto da Cidade
Cristiano Saback: Quais caminhos você percorreu na sua carreira, para chegar ao cargo de produtora que você ocupa hoje?
Lívia Lopes: Saback, eu tenho 39 anos e comecei a minha carreira muito cedo. Aos 17 anos, eu entregava panfletos na porta de shows para outros shows. Depois disso a vida me levou para outro caminho. Quando estava fazendo faculdade de Administração, fui ser secretária em um escritório de contabilidade aqui em Salvador. Foi quando comecei a ter contato com a parte administrativa, financeira, planilhas, organização e rotina de escritório. Uma das clientes desse escritório era Nil Pereira, da NP eventos, uma das maiores produtoras de eventos deste país. Quando saí de lá, ela estava precisando de alguém para cuidar do financeiro da empresa dela e foi assim que começou a minha história.
Eu cuidava somente da parte financeira, mas, um dia ela me chamou para ir a alguns eventos que a empresa realizava, para ver, de perto, a execução do trabalho que havia sido planejado na produtora. Foi aí que o bichinho me mordeu. A partir daí, durante a semana eu ficava no financeiro, dentro do escritório, e nos finais de semana ia trabalhar nos eventos.
CS: Foi nessa experiência, então, que você descobriu a produção de eventos como carreira?
LL: Isso! Quando saí do escritório e fui para o campo. Sabe? Ver aquela máquina girar, tanta gente trabalhando por um resultado e, no final, ver aquilo entregue... eu pensei: “isso aqui é incrível, isso aqui é a minha cara”. Foi ali que entendi que era isso que eu queria fazer para o resto da minha vida. Acabei usando o curso de Administração na área de eventos. A formação era na prática e, atualmente, mesmo existindo a educação formal para ser produtor de eventos, é preciso estar inserido no mercado para ganhar experiência e aprender de fato.
CS: Muita gente acha que produção é só execução. Como você explica a lógica que realmente sustenta a realização de um evento?
LL: Existe algo fundamental que muita gente não conhece que é a pré-produçao. Ela é o alicerce da produção. É nela que tudo acontece: planejamento, organização, negociação e gerenciamento. Essa parte é extremamente burocrática. São horas no computador, horas no telefone negociando com fornecedores, alinhando horários, fechando contratos, planilha, organizando a logística. Saback, para você ter uma boa execução, você precisa ter uma pré-produção bem estruturada. Sem isso o evento não acontece.
A execução, que é quando a gente vai pra campo, depende completamento do que foi feito antes. Confesso que eu gosto muito mais da execução (risos), da linha de frente, mas faço toda a pré-produção sempre pensando no campo, pensando no momento em que vou estar dando vida ao que foi cuidadosamente planejado.
Depois ainda tem a pós-produção, que muita gente também não vê. É quando você fecha as planilhas, finaliza os pagamentos dos fornecedores, gera relatórios, registra os problemas que aconteceram para não se repetirem. A produção não termina quando o show acaba.
CS: Sua entrada na área se deu pela administração e pelo financeiro. Isso foi determinante para a sua carreira?
LL: Foi totalmente determinante. A parte administrativa e financeira abriu todas as portas para mim. A partir do desenvolvimento dessas competências, eu consegui entender, planejar e gerenciar todo o resto. Produção exige organização, planejamento e visão de processo. Sem isso você não executa. Planejamento é fundamental. Essa base me permitiu sair dos bastidores para linha de frente com confiança e segurança.
CS: Você começou como adolescente entregando panfletos na porta de shows e hoje ocupa o cargo de produtora geral de uma das maiores artistas desse país. Qual o valor disso na sua formação?
LL: Só dá para saber como funciona uma engrenagem quando você passa pelas etapas e funções que fazem a roda girar. Distribuí panfletos, coloquei pulseira em convidados de camarote, fiz contagem de ingressos e de produtos, gerenciei equipes de garçons, fiz montagem e desmontagem de evento… coloquei a mão na massa. Isso me deu a experiência para entender como a máquina funciona e, com isso, bagagem para coordenar todas as etapas que fazem um evento ser realizado.
CS: Como acontece a transição para o trabalho com Daniela Mercury?
LL: A área de eventos é movida por referências. Quando você trabalha bem, você é indicado. Nil, com quem eu trabalhava, foi quem me indicou para Daniela e Malu Mercury, para cuidar, inicialmente, da parte administrativa. A partir daí, fui naturalmente me inserindo na produção. Hoje eu gerencio toda a equipe e tudo que precise de produção na carreira de Daniela. Para o artista chegar e sair de qualquer lugar, seja no local de uma entrevista, de um show ou em um evento; é preciso logística, segurança, planejamento e gestão de equipe. A depender da situação, às vezes, temos 30/40 pessoas envolvidas nesse processo.
CS: Como se constrói confiança nesse nível de responsabilidade?
LL: Com entrega e honestidade. Daniela é exigente com a qualidade da entrega. Malu, empresária de Daniela, chega sempre com um desafio. Quando acho que me superei e não existe algo maior do que acabei de entregar, Malu chega com uma nova demanda (risos). Mas uma produtora raiz não desiste. A gente vai até o fim. Isso tudo com muito zelo, responsabilidade e comprometimento.
CS: Então me conta qual o perfil que um produtor precisa ter?
LL: Tem que ser proativo, ter muita inteligência emocional e vislumbrar possíveis problemas que possam vir a acontecer antes que aconteçam, tomando providências para evitar alguma intercorrência. A gente tem que lidar com o cansaço das pessoas, com o sentido de urgência dos projetos, com prazos. Precisa resolver conflitos, pensar rápido e dar soluções que algumas vezes podem ser simples. São muito profissionais envolvidos. As pessoas têm uma ideia de que quem trabalha no ramo do entretenimento, não trabalha, se diverte. A diversão até existe, para quem ama fazer o que eu faço, mas tem muito suor por trás de tudo. A gente contrata médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, ambulância, motoristas, eletricistas, encanador e vários outros profissionais. Ah! E tem uma outra coisa. Quando a gente está lidando com uma pessoa pública, a gente deixa de ser pessoa física. (Risos). A gente é uma extensão do artista, no meu caso. Eu sou Lívia, mas todo mundo lembra de mim como Lívia Lopes, produtora de Daniela Mercury. Entender essa responsabilidade é muito importante. Então, tudo que eu faço na minha vida tenho o maior cuidado para não impactar na artista. Inclusive, quando estou fechando os contratos ou gerenciando pessoas, deixo isso muito claro. Pode até parecer óbvio, mas para muita gente não é.
CS: Você falou na contratação de profissionais de áreas diversas. Qual impacto disso na economia de uma cidade, de um estado, de um país?
LL: Que bom que você me perguntou isso. Estava aqui na ponta da língua para falar. Cristiano, eu sempre olho, observo e penso: o motorista de aplicativo está ganhando dinheiro por causa desse evento, o vendedor de picolé, o bar que fica na esquina. Isso sem falar nos contratos diretos que fazemos com as empresas e os profissionais envolvidos diretamente nos eventos: o arquiteto, o carregador, o advogado, a menina da limpeza ou a empresa que chega com a estrutura do palco. É muita coisa. Isso impacta a economia de uma cidade, de um país, porque todas essas pessoas estão emitindo nota fiscal. Tudo isso gera recolhimento de imposto para o país. Movimenta a cidade, movimenta o comércio local. Um evento causa um impacto econômico importante tanto direta quanto indiretamente. Para cada 1 real investido através de Lei Rouanet, por exemplo, o retorno financeiro é de mais de 7 reais. Mas isso fica invisibilizado e muita gente acredita que aquele investimento através de lei de isenção fiscal é uma benesse do estado com artistas e produtores. Mas o entretenimento é um negócio. E é um negócio rentável que reverbera e impacta na economia.
CS: O verão e o carnaval são o ápice. Como você se prepara?
LL: Saback, eu não trabalho para o verão, somente, no verão. Trabalho meses antes. Planejo e organizo tudo com antecedência. O imprevisto sempre existe, mas o planejamento diminui o impacto.
CS: E cadê o glamour nesse trabalho que as pessoas acham que profissionais como você vive? (risos)
LL: O glamour do meu trabalho está na entrega. O glamour é ver Daniela pisando no palco segura de que tudo foi meticulosamente planejado. Arte dá trabalho e é muito trabalho.
CS: E o lado B de Lívia Lopes? O que você gosta de fazer que lhe traz criatividade, relaxa ou te inspira?
LL: Viajar. De férias e, inclusive, a trabalho. Aliás, viajar traz muita inspiração para minha vida pessoal e profissional. Relaxar, passear, conhecer outras culturas, outras formas de viver e ir a outros shows. Isso tudo me alimenta e me motiva. Aí quando estou de volta ao trabalho, me pego pensando em referências que que eu observei durante uma viagem. Já trouxe até ideias que me inspiraram para soluções durante eventos. Meu lado B é viajar. Mas já deu pra perceber que não desligo né? (risos)
CS: Qual conselho você deixa aqui para quem quer trabalhar com produção de eventos ou que está iniciando nessa carreira?
LL: A primeira coisa é: aproveite a oportunidade. Nem sempre você vai entrar pela porta da frente, como foi o meu caso. Mas esteja aberto ou aberta a aprender, a se movimentar. É preciso ter um perfil proativo, com inciativa e sentido de urgência. Senão, nada anda. Mas é importante lembrar da parte burocrática e do planejamento. É preciso entender e estar com disposição para a aprendizagem contínua. Desafios sempre vão existir. Todo show, todo evento eu aprendo algo diferente e já coloco no meu repertório profissional. A maior parte você vai aprender em campo e para isso é preciso estar aberto a ouvir, fazer, errar e corrigir, melhorar e entregar com mais qualidade, a cada novo espetáculo.
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