Música

50 anos de Samba Junino: uma tradição originalmente soteropolitana

Considerado patrimônio cultural de Salvador, o movimento revelou nomes como Tatau, Ninha, Márcio Vitor, entre outos grandes nomes da música baiana

Wanda Chase
02/06/2022 às 10h30

4 min de leitura

O samba junino nasceu nos terreiros de candomblé de Salvador, mais precisamente no bairro do Engenho Velho de Brotas e se espalhou por diversos outras regiões como Vale das Pedrinhas, Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Liberdade, Sussuarana e Garcia. Porém, muitos grupos acabaram. E só existe um, aqui na capital baiana. Criado na década de 1970, a manifestação é um Patrimônio Cultural soteropolitano, título concedido pela Prefeitura, que em 2022 comemora 50 anos. Das festas de caboclos, o evento ganhou às ruas com a sua batida inconfundível e canções envolventes. Tem música de protesto, mas tem também música romântica. No periodo junino, os integrantes vão às ruas dos bairros de origem da festa, animados e orgulhosos do que construíram.

“Apesar da beleza, da importância para a cidade e do apoio dos moradores, o samba junino sempre foi mantido com recursos próprios”, diz o presidente Jorge dos Santos, do Grupo Fogueirão, fundado há 35 anos. Ele assumiu a manifestação cultural quando sentiu que a tradição corria risco de acabar. Os mais velhos estavam cansados e começaram a desistir de ficar à frente dos trabalhos. Os custos eram bancados pelos bingos, rifas e apoio dos comerciantes do bairro. 

Foto: Acervo Ópraí Wanda Chase

“O samba junino tem ainda uma importância muito grande para a música baiana”, ressalta Nonato Sanskey , do Grupo Mucum’G. O artista costuma dizer que 89% dos artistas baianos beberam na fonte desse gênero musical. A lista é grande. Um rapaz de apelido Toinzinho, morador do Nordeste de Amaralina, teria feito a ponte entre os compositores e o radialista Manolo Posada (da Rádio Itapoan) – que não está mais entre nós. 

Manolo foi ganhando confiança dos compositores, sabia que tinha uma mina na mão. Se misturava com o povo nos festivais de música, observando tudo que o povo gostava. Quando detectava o que seria sucesso na voz dos artistas mais conhecidos – cantores que já estavam na estrada há algum tempo ou até mesmo em início de carreira – oferecia para as gravadoras. Enfim, até emplacar a música.

Foi, por exemplo, por iniciativa de Manolo que Daniela Mercury gravou “Canto da Cidade”. A música é de Toti Gira, na época do Samba Elite. A canção estourou. Foi uma época muito produtiva musicalmente. Por todo canto havia uma samba junino em Salvador. Jovens loucos para um dia se tornarem artistas reconhecidos. Muitos conseguiram realizar o sonho, como Tatau, que criou o Skorpios e com muito talento chegou ao Araketu, além de ter passado por vários grupos de samba.

Foto: Acervo Ópraí Wanda Chase

Ninha, criador do Leva Eu do Engenho Velho de Brotas, fez sucesso em vários grupos até migrar para a Timbalada, grupo revolucionário da música baiana. Xexéu, Márcio Victor, Guiguiu, Alexandre Guedes, Tonho Matéria, Virgílio e Ronaldinho são alguns dos nomes que fizeram história com o ritmo eletrizante, escrevendo canções que ficaram na história.

Tem muita experiência que ainda não foi contada dessa fase de ouro da música baiana. Aquela juventude tinha orgulho e amor pelo que fazia. Era o novo. Muita gente boa se descobriu como artista. Neivaldo Jaké fez história como cantor e compositor e faz questão de contar que Ninha tem responsabilidade nisso. Ele tocava surdo no Jaké e é um dos compositores do Melô do Tchaco, uma música feita com trechos de outras canções, ideia de Tonho Matéria.             

Quando nem se falava em diversidade de genêro, a turma do samba junino dava um passo importante contra a discriminação e escolhia como rainha, uma transexual. Orgulhosa do título, Pokette Lyra foi coroada rainha, mesmo tendo enfrentado barreiras e discriminação. Mas hoje ocupa lugar de destaque e, vale destacar, dança muito! Emocionada, ela defende: “Vou morrer levantando essa bandeira, que é o samba junino de Salvador”.

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