Luiz Caldas: o menino dos sete instrumentos


Foto: Acervo Wanda Chase

‘O menino dos sete instrumentos’ – Era assim que seu Orlando Tapajós apresentava Luiz Caldas no palco ou fora dele. Os dois fizeram uma bela parceria. “Seu” Orlando não tocava, não cantava, mas quando estava em cima do trio enganava direitinho. Luíz conta que teve muita briga com “Seu” Orlando .

“Ele ficava em cima do trio dublando, fingindo que estava tocando. Eu e Jota Morbeck (que morreu aos 39 anos, em 2000, ao dar um mergulho no mar, em Porto Seguro ) nos esgoelando lá em cima do trio e ele aparecendo. Era todo um teatro que ele fazia. Orlando queria tocar, mas não sabia”.

A justificativa para Luiz: “Deus não me deu esse dom, mas eu sinto necessidade.” Ele não tocava instrumento, mas concebia todo o espetáculo. Luís conta que se deu bem quando foi para o Trio Tapajós e passou por um “estágio”. Tinha 17 anos, ficava sentado no trio só observando os músicos tocarem e quando chegava no percurso seu Orlando dizia: “pega a caixa” . E fazia um negocinho, pegava o baixo de Levi ( que tocou no Asa e hoje mora em Paris). Era muito divertido e “Seu” Orlando fazia aquele discurso do menino dos sete instrumentos .

“Teve uma época de transição também, dessa coisa de cantar, porque no Dodô e Osmar já tinha Moraes no trabalho deles, mas o Tapajós foi o primeiro trio a gravar um disco. Era tudo instrumental. No repertório músicas de Roberto Carlos, pot-pourri de Clara Nunes. Era muito louco. Quem compunha muito nessa época era Renatinho, dono de um clássico: as 25 em ponto. Rimos muito desse título.”

Boa parte da entrevista, Luiz fala de Seu Orlando, contando histórias hilárias. E por isso, perguntei: Por que foi bom tocar no Tapajós?

Porque Orlando era um cara de visão, querendo fazer algo novo, diferente, não ficou estacionado, tinha umas idéias loucas na cabeça. Naquele tempo o trio elétrico subia a Castro Alves e fazia a volta lá atrás. Ele mandava fazer uns paletós verde cana brilhoso de lantejoula, daquelas bem grandes, ele mandava fazer em duas cores. Por dentro, no avesso, o paletó era azul e sem forro. Imagina como coçava! A gente subia no trio elétrico com aquele figurino verde cana. Quando chegava na Castro Alves.Aí ele dava a ordem: “apaga a luz “. O cara apagava, a gente tirava o paletó verde cana e rapidinho vestia do avesso e ficava tudo azulzinho. As pessoas ficavam impressionadas, querendo saber como era aquilo, perguntavam como esses caras conseguiam isso.Ele gostava de fazer espetáculo.

Intimidade

O Tapajós tinha conceito. As histórias de Luiz são deliciosas. Demos muitas gargalhadas juntos, mas durante o bate-papo relato de situações sérias também, desse jovem que completa, hoje, 60 anos. Uma delas é a polêmica do Fricote, uma composição dele e de Paulinho Camaféu, que não está mais entre nós. Eles enfrentaram muitas críticas de mulheres e homens negros indignados, inclusive eu.

Foto: Divulgação

Houve protesto de vários setores do movimento negro no Brasil, principalmente do MNU – Movimento Negro Unificado, do qual fui uma das fundadoras, em Pernambuco. Chegamos a assinar uma moção contra a música. Um detalhe: quando cheguei na Bahia, em 1988, conversei com Luiz Caldas sobre isso. Foi uma conversa delicada, mas respeitosa. Mais de vinte anos depois perguntei se hoje ele gravaria Fricote. A resposta foi negativa .

Com a mesma letra não. Naquele momento tudo era brincadeira, era naturalizado, permitido. Eram outros tempos. Hoje tá tudo diferente, não é correto. Nos dias de hoje, não existiria o Programa dos Trapalhões. Não canto mais essa música .

Tudo na vida de Luiz foi muito bem estudado. Ele amadureceu cedo. Aos 7 anos, acredite, já fugia de casa para cantar nos bailes. É um autodidata. Quando decidiu ser artista já tinha passado por várias bandas, mudando de grupo a cada seis meses para aprender a tocar com outras pessoas. Até no visual, ele pensou. Ficava olhando o estilo de cada artista que fazia sucesso e Sidnei Magal era um deles.

Começou tocando nos bailes e já pintava o cabelo com sete cores, usava saia (de pirraça) só porque os homens usavam calça. Ele queria ser diferente dos outros artistas. Assistia o programa do Chacrinha e analisava um por um o estilo dos artistas. E decidiu cantar, andar descalço. Criou uma polêmica, mas segurou a onda .

Por isso, perguntei: em algum momento você se sentiu injustiçado, preterido em sua carreira?

Isso tudo não me deixou tão triste e atrapalhado quanto o alcoolismo. Isso tudo que você citou são coisas do jogo, já o alcoolismo é uma doença, uma coisa que você tem que se cuidar, curar, se vigiando o tempo todo porque não tem cura. Eu me sinto curado porque não tenho a mínima vontade de beber. Vou aos lugares que as pessoas estão bebendo e vejo a transformação. É uma coisa muito rápida. Eu bebia e não conseguia me livrar, era um viciado mesmo. Chegou um momento que eu precisava beber álcool para dar um autógrafo, senão tremia as mãos, o sistema nervoso todo. Foi uma coisa que me atrapalhou muito, principalmente pelo fato de eu não poder exercitar minha profissão, minha arte. Eu sou um instrumentista e sou solista. Quando você tá bebendo, você acha que tá jogando duro, maravilhoso, na verdade tá jogando contra você mesmo, entendeu ?

Foto: Divulgação

Eu acredito que isso tenha me atrapalhado muito mais simplesmente porque eu não tocaria em determinada festa porque outro cantor iria tocar, porque eu sei a qualidade do meu trabalho. Então, eu consigo discernir que na minha obra tenho músicas como ‘Flor Cigana’ com uma Orquestra tocando comigo que é uma coisa muito difícil de ser elaborada. Eu sei muito bem o meu valor como artista. Mas o estado do alcoolismo sim, porque é uma doença que não adoece só você, mas a família, amigos, colegas de trabalho .

Você procurou ajuda ?

Sim. Tive ajuda não só de médicos, mas de amigos como César Rasec. Ele escreveu uma carta dizendo assim: “Eu resolvi escrever essa carta porque falando você podia me interromper. Aqui não, você vai ter que ler e ponto final. E outra, você pode guardar e ler várias vezes, sem eu precisar repetir “. Foi isso, sem negócio de jeitinho, mas sem agressão. Tem que ser papo reto. Quando você tem bons amigos, você consegue muita coisa boa e sair de situações complicadas. Além dos grandes amigos, eu tenho a música. A música é meu combustível, quando eu vi que não podia minhas obras direito, eu tive uma conversa comigo, eu mesmo, consegui me olhar no espelho e dizer: “e aí, velho? Quer tocar bem ou comer água? Escolha aí, porque as duas coisas eu não lhe dou. Eu preferi tocar bem .

Acho bom você tocar nesse assunto…Se fala muito em outras drogas, mas o álcool é a pior. E é uma droga liberada.

O tabaco também. O cigarro …vejo muitos artistas usando. Na minha opinião quem canta, quem dança, acho uma incoerência muito grande a pessoa colocar um cigarro e tragar. Eu acredito muito na coisa de você estar bem, não só fisicamente, mas mentalmente também. Depois de vencer o alcoolismo, comecei a praticar yoga e mudou completamente a forma de ver o mundo e a vida. Não vejo nenhum animal como comida, não consigo ver.

Nem um peixinho?

Nenhum. Imagino logo que aquele peixinho tem um pai, um irmão, um primo, um sobrinho, um filho. Todo mundo tem família, né ? Animal, eu ainda uso leite e ovos.

Ter sessenta anos pesa?

Pra mim, não ! Acordei muito cedo pra fazer exercícios. Bell é um atleta, né? Acho maravilhoso isso, ele cuida da saúde dele. Ele precisa trabalhar e você pode ver, ele não entrega meio trabalho . Precisa entregar a coisa certa mesmo!! Meu mantra é a música é meu combustível, todo dia estou gravando dois ou três discos. Isso me dá muito prazer !!!

Hoje, ele faz sessenta, de bem com a vida, compondo, gravando e chamando atenção para um assunto de saúde pública. Feliz dia Luiz Caldas !!!

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