Laiô enfrenta fantasmas pessoais e se apega na ancestralidade em álbum de estreia


A cantora e compositora Laiô segue estética afropop eletrônica em álbum homônimo (Foto: André Medina / Divulgação)

Laiô é uma daquelas cantoras que arrebata o público de primeira. Ao menos foi assim comigo. Assisti à sua apresentação no Mais MPB Festival, em agosto, e fiquei impressionado com a força da sua voz. Trocamos figurinhas nos bastidores e ela me adiantou, em primeira mão, o seu álbum de estreia, que chega em todas as plataformas de streaming nesta sexta (23) pelo selo Digital Ruffo.

Nascida em Ilhéus e criada em Uruçuca, ela é cria do litoral sul da Bahia e, apesar de ser apenas o seu primeiro álbum, já traz 17 anos de experiência. Sua trajetória passou por uma diversidade de gêneros, como afrobeat, forró, funk, rock e MPB, e é a partir desse referencial que ela compõe o seu trabalho autoral.

Dentro de uma estética afropop eletrônica, Laiô revisita sua ancestralidade e atualiza os ritmos de matriz africana num diálogo com a música eletrônica global. O resultado é uma sonoridade bastante particular, de forte assinatura artística, que serve de base para reflexões pessoais e coletivas sobre temas de caráter social e político.

O trabalho traz 8 faixas autorais: Ancestral (parceria com Diego Schaun); Brisa, Nem Sei, Arrudeio, Coração, Lá em Casa, Por Dentro e Retinta. Os arranjos e a produção musical são da própria Laiô junto com Lukas Horus, que também faz as programações e beats. O trabalho ainda conta com as colaborações de Igor Cruz, na guitarra, além da produção musical de Rê Freitas em Arrudeio e Thainê Calheira em “Coração”.

Laiô nos convida no álbum homônimo para uma viagem pelos seus fantasmas pessoais. O medo do fracasso, as angústias causadas pela pandemia, entre outras questões subjetivas que, apesar de individuais, são pontos potentes de conexão com o público. Durante a escuta, vamos também percebendo como a ancestralidade e a vida coletiva em comunidade, mesmo que mediada pelas tecnologias que nos acompanham cotidianamente, podem ser fortes aliadas no suporte às questões que nos afligem.

A força artística de Laiô, tanto no canto, quanto na composição, fica evidente no trabalho. Ela parte da estética afropop que caracteriza a atual geração da música pop baiana para deixar sua marca. Com um timbre forte e potente, ela traz um trabalho de produção em parceria com Lukas que abre outras possibilidades de encontro entre a rítmica afro baiana e a música eletrônica, como na canção “Nem Sei”, por exemplo, que explora uma linguagem eletrônica de rave.

Outro destaque é “Arrudeio”, que na linguagem das redes sociais seria classificado como um exposed, já que ela monta áudios reais trocados via WhatsApp. A faixa começa com um desabafo choroso de Laiô, que é seguido de uma série de mensagens de apoio. Ao mesmo tempo em que ela deixa transparecer uma fragilidade, ela abre a possibilidade de identificação muito forte e poderosa.

Laiô é um disco que tem a maturidade de uma artista experiente, aponta caminhos possíveis e poucos explorados para a estética afropop e trabalha com temas e sonoridades bastante pertinentes atualmente. Uma viagem guiada pela ancestralidade da artista e com grande capacidade de criar conexões e identificações. Um trabalho que representa bem a música baiana e faria bonito nos festivais Brasil afora.

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