Pop Bahia

Saulo lança novo álbum e aposta na mistura de Axé Music e Pop Leve

Em 'Agora É Tempo Demais' (AETD+), o cantor se mostra atento aos movimentos do mercado e traz feats com Afrocidade, Melim, Vítor Kley e Melly

Marcelo Argôlo
11/05/2022 às 18h00

4 min de leitura

Por muito tempo, Saulo foi colocado no lugar de futuro do Axé Music. O discurso se consolidou, em boa medida, por sua capacidade de conexão com o público, mas também por conseguir construir uma relação entre novos e antigos movimentos da música baiana e brasileira. O sucesso dos seus primeiros projetos em carreira solo, num contexto de enfraquecimento do mercado de blocos de Carnaval que deu sustentabilidade a muitas carreiras nos anos 1990 e 2000, intensificou a narrativa.

Com quase 10 anos fora da Banda Eva, o artista volta a se mostrar atento ao que acontece ao seu redor. Em ‘Agora É Tempo Demais (AETD+)’, seu novo álbum que chegou em todas as plataformas de streaming no último dia 29 de abril, Saulo aposta na mistura de Axé Music com Pop Leve, uma tendência da música brasileira que ganhou força nos últimos anos e até tem uma playlist própria no Spotify.

O cantor Saulo, que lançou novo álbum no final de abril recheado de feats –(Foto: Jardel Souza/Divulgação)

Para ajudar a colocar a rítmica e o apelo percussivo do gênero baiano junto ao pop para relaxar, Saulo conta com ajuda de dois dos principais nomes que dão força ao estilo calminho no Brasil: Melim e Vitor Kley. O trio de Niterói formado pelos irmãos Rodrigo, Gabriela e Diogo Melim participa na canção ‘Vida Livre‘, enquanto o cantor gaúcho participa da faixa ‘Imaginário‘.

Saulo ainda se junta a dois dos novos nomes da música baiana que têm dado fôlego para a cena e para a imagem do Estado no mercado musical: Afrocidade e Melly. Com a banda de Camaçari, ele canta a faixa ‘Supercidade‘, composta em parceria com MCDO, Fernanda Maia e Eric Mazzone, integrantes do grupo. Já com a cantora de Salvador, Saulo canta ‘Então Volta‘, faixa que foi lançada com single em janeiro e figurou justamente na playlist Pop Leve do Spotify.

Além dos nomes destacados acima, outros artistas também participam do trabalho: Dexter, Anna Tréa, Arthur Ramos, Rita Batista (recitando o poema ‘Cante‘, na faixa de abertura do álbum), Mestrinho e Gigi Cerqueira. No release enviado à imprensa, Saulo falou sobre a estratégia de rechear AETD+ com tantos feats: “A ideia é: todos os parceiros das canções participarem com uma energia de colaboração mesmo, e quanto mais diverso, mais lindo e rico tende a ser esse trabalho”, explicou o cantor.

O objetivo do artista de fato se cumpre, pois se percebe que, nas faixas com participações, os convidados puderam colocar o seu estilo na gravação. Saulo consegue nesses feats mais do que parcerias para dividir o vocal da canção, pois cada uma delas traz sonoridades externas ao estilo do cantor para dentro do álbum.

O ponto fora da curva é a participação de Durval Lelys. Representante de um modelo ultrapassado de organização do mercado do Axé Music, o ex-cantor do Asa de Águia pouco agrega ao trabalho. Juntos, os dois cantam ‘Aonde‘, um ijexá que lembra as produções dos anos 1980 de outro cantor baiano, Luiz Caldas. Diferente das outras participações, que trazem diversidade sonora a AETD+, Durval Lelys se reduz à dividir os vocais com Saulo.

Obrigado, tambor!

Mesmo com o Axé Music em baixa no mercado nacional, Saulo não abre mão de trazê-lo para o seu álbum – e, na verdade, esses são os melhores momentos de AETD+. Um exemplo é a faixa ‘Só Pode Ser Tambor‘, que fecha o trabalho com uma homenagem aos percussionistas, grandes injustiçados pelo gênero, que nunca os valorizou devidamente.

Ela é uma canção de Axé Music, no melhor sentido da expressão, num estilo que já foi chamado de “murro no olho” (numa referência ao costume de foliões seguirem os trios elétricos no Carnaval dançando e trocando golpes de box). É também a melhor música do álbum e traz na letra uma saudação a uma lista de percussionistas que tocam ou tocaram com diversas bandas e artistas.

A faixa ainda traz um agradecimento especial a Letieres Leite, que morreu em outubro de 2021. Apesar de não ter sido percussionista, o músico dedicou os últimos anos da vida à revalorização do lugar da percussão e da música de matriz africana. É provável que Saulo tenha sido um dos muitos músicos que passaram a olhar com mais valor para o setor rítmico da banda depois de ouvir Letieres, ao ponto de encerrar AETD+ com uma dedicatória: “Obrigado tambor pela vida inteira!”.

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