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Tabus, Tretas e Troças

A Copa do Mundo à venda e o abismo que engoliu Gianni Infantino

Proposta de abrir os negócios da FIFA ao capital privado foi abandonada, mas deixou uma crise que pode custar o poder de quem parecia intocável

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Sílvio Tudela

- há XX semanas
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Durante anos, Gianni Infantino construiu uma imagem difícil de desmontar. Chegou à presidência da FIFA em 2016, depois do terremoto provocado pelo Fifagate, apresentou-se como o administrador capaz de reconstruir uma instituição devastada por escândalos e entregou aquilo que, também no futebol, costuma funcionar como o argumento definitivo: dinheiro.


					A Copa do Mundo à venda e o abismo que engoliu Gianni Infantino
​Foto: Reprodução / Instagram / @gianni_infantino

A FIFA cresceu. A Copa do Mundo aumentou de tamanho. O Mundial de Clubes ganhou uma nova dimensão. As receitas dispararam. O futebol feminino recebeu mais espaço. A entidade passou a distribuir mais recursos às federações. Infantino parecia ter encontrado a fórmula para transformar a reconstrução política em expansão comercial. Foi justamente por isso que a crise provocada pela FIFA Forward Enterprise se tornou tão perigosa.

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O adeus de Gianni Infantino?

A proposta parecia, à primeira vista, apenas mais uma operação financeira. A FIFA pretendia criar uma subsidiária avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões para concentrar os direitos comerciais e a operação de seus principais torneios. Até 20% dessa nova empresa seriam oferecidos a investidores privados, numa operação estimada em US$ 4,2 bilhões. A entidade manteria a maioria e, segundo sua própria versão, o controle esportivo e institucional.

Infantino apresentou a ideia como uma maneira de liberar dinheiro que hoje estaria subaproveitado. O capital privado permitiria ampliar investimentos em infraestrutura, formação de atletas e desenvolvimento das 211 associações nacionais. A FIFA argumentava que não estava vendendo o futebol, mas criando uma ferramenta para fazer o futebol render mais.

O problema é que futebol não é apenas uma empresa e a Copa do Mundo não é apenas um produto e dessa situação explodiu a revolta. O que incomodou UEFA, AFC e Concacaf não foi simplesmente a entrada de dinheiro privado, pois modelos semelhantes existem em outras modalidades e até dentro do próprio ecossistema do futebol. O que provocou esse racha foi a sensação de que uma transformação dessa magnitude estava sendo conduzida sem que os principais parceiros da FIFA fossem efetivamente ouvidos.

Comunicado da UEFA sobre os planos da FIFA

A AFC afirmou que não havia sido consultada. A Concacaf criticou o prazo considerado artificialmente curto e a ausência de análise pelos mecanismos de governança da FIFA. Na Europa, a reação foi ainda mais dura: a UEFA acusou a entidade de tratar o futebol como um ativo financeiro e ameaçou medidas e boicotes que poderiam atingir diretamente competições organizadas pela FIFA.

Declaração em nome da UEFA e das suas 55 Associações Nacionais

E o que era uma proposta financeira logo se transformou numa crise de poder porque quem controla os direitos comerciais da Copa do Mundo controla uma das propriedades esportivas mais valiosas do planeta. Não se trata apenas de transmitir partidas, mas gerir contratos de televisão, patrocínios, licenciamento, hospitalidade, ingressos, dados, plataformas digitais e todo o ambiente de negócios que se constrói em torno de um Mundial.

A FIFA argumentava que continuaria no comando, mas os críticos perguntavam por que uma entidade que acabara de realizar a Copa mais lucrativa de sua história precisaria colocar uma parte desse patrimônio nas mãos de investidores privados. Esse questionamento é particularmente incômodo porque a própria Concacaf utilizou esse argumento ao rejeitar o projeto: depois de um Mundial altamente rentável, por que recorrer a capital externo para financiar programas que a FIFA já consegue bancar?

Provavelmente o verdadeiro ponto de ruptura é que não se tratava apenas de saber quanto dinheiro entraria, mas de decidir quem teria interesse econômico no dinheiro que sairia do futebol mundial durante décadas. E foi nesse momento que surgiram as suspeitas sobre quem poderia estar por trás da operação.

Os investidores por trás da FFE

Mas o bom Jornalismo não serve apenas para registrar aquilo que já foi provado, mas também para perguntar por que determinadas escolhas foram feitas, quem se beneficiaria delas e por que uma operação dessa magnitude foi conduzida daquela maneira. E essas perguntas continuam sem respostas satisfatórias.

A Thrive Eternal, braço de investimentos ligado à Thrive Capital, de Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump, apareceu como possível investidor principal. A J.P. Morgan seria responsável pela estruturação da captação. A proximidade entre Infantino e o presidente americano transformou imediatamente a operação financeira em assunto político.

Apesar das especulações, não houve demonstração pública de que Donald Trump tenha participado da formulação do projeto. O próprio presidente estadunidense afirmou que não havia discutido a operação com Infantino. Tampouco há prova de que a sua família tivesse participação econômica na FIFA Forward Enterprise.

O recuo de Infantino

UEFA, AFC e Concacaf, somadas, representam uma parcela gigantesca do Congresso da FIFA. A oposição ganhou corpo, ameaçou competições e expôs uma fratura que não aparecia na superfície do império construído por Infantino. A pressão aumentou quando dirigentes e integrantes da própria estrutura da FIFA passaram a questionar a condução do processo. Conselheiros se afastaram, funcionários demonstraram resistência e a imagem de uma entidade perfeitamente alinhada em torno de seu presidente começou a desaparecer.

UEFA saúda a retirada dos planos da FIFA

A FIFA abandonou oficialmente a FIFA Forward Enterprise em 1º de agosto e o projeto que deveria representar uma nova etapa comercial no futuro da entidade durou poucos dias como proposta pública e terminou como uma derrota política.

Porém, a retirada da proposta não dissipou a desconfiança e a crise deixou de ser sobre a FFE e passou a ser sobre Infantino. A FIFA, anonimamente, reagiu à pressão em suas redes sociais.

Em 10 de agosto, UEFA, AFC e Concacaf divulgaram uma carta conjunta acusando o presidente da FIFA de quebrar a confiança das associações e pedindo uma revisão independente de todo o episódio. As três entidades também colocaram sobre a mesa a possibilidade de boicotes caso não houvesse garantias de que iniciativas semelhantes não voltariam a ser apresentadas.

Crise se amplia e chega ao terreno eleitoral

O atual presidente da FIFA ainda tem apoios importantes, especialmente na África e na América do Sul. A CAF e a Conmebol continuam respaldando sua liderança, enquanto a Oceania também declarou apoio institucional, embora a Nova Zelândia tenha rompido com essa posição e defendido uma revisão independente. Ou seja: não existe, neste momento, uma sentença política definitiva contra Infantino, mas algo igualmente perigoso para um dirigente: a perda da unanimidade.

Infantino parecia ter construído um poder transcontinental. Agora precisa administrar um futebol dividido em blocos, com confederações que já não querem nem mais discutir apenas uma proposta comercial, mas a própria maneira como a FIFA deve ser governada.

E a ironia maior é que o homem que chegou à FIFA prometendo reconstruir a entidade depois de um dos maiores escândalos de sua história pode terminar sua era enfrentando uma crise justamente sobre transparência, governança e concentração de poder. Não porque tenha vendido a FIFA ou a Copa do Mundo porque isso não aconteceu, mas porque tentou transformar parte da máquina comercial que sustenta o futebol mundial em um ativo aberto ao capital privado sem conseguir convencer aqueles que deveriam ser seus principais parceiros de que o projeto estava sendo construído para o futebol e não para quem controlasse sua extraordinária capacidade de gerar dinheiro.

A proposta morreu, mas a pergunta não. Quanto do futebol mundial pode ser transformado em ativo financeiro antes que ele deixe de pertencer simbolicamente às federações, aos clubes e aos torcedores? Gianni Infantino talvez tenha descoberto tarde demais que existe uma coisa mais difícil do que administrar uma empresa de US$ 20 bilhões: controlar 211 federações que acreditam ter direito de decidir o que fazer com ela. E essa pode ser a conta política mais cara de sua presidência: exatamente a sua saída.

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