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Tabus, Tretas e Troças

A Copa que será disputada num país em guerra interna e com o mundo

A FIFA insiste no discurso da neutralidade, em que princípios são relativizados quando confrontados com poder, dinheiro e 'estabilidade' do evento

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Sílvio Tudela

02/02/2026 às 16:08 - há XX semanas
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A Copa do Mundo de 2026 foi vendida pela FIFA como a celebração definitiva do futebol globalizado: 48 seleções, três países-sede, estádios monumentais e cifras nunca vistas. Mas, a cada dia que o pontapé inicial se aproxima, o maior torneio do planeta começa a conviver com uma pergunta incômoda e inevitável: ela realmente vai acontecer como planejado?


					A Copa que será disputada num país em guerra interna e com o mundo
Foto: Reprodução / @gianni_infantino

A história recente mostra que Copas do Mundo não são organizadas apenas com bolas, gramados e tabelas. Elas são atravessadas por política, geopolítica, ideologia e poder. Sempre foram, desde as primeiras. A diferença é que, desta vez, o epicentro dessas tensões está justamente no país que se apresenta como o guardião da democracia ocidental.

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A Copa do Mundo com os próprios anfitriões em rota de colisão

A política migratória dos EUA, executada de forma ostensiva pelo ICE, lança dúvidas concretas sobre a presença de torcedores estrangeiros. Não se trata de especulação: países já enfrentam restrições parciais ou totais de entrada, e partidas da fase de grupos podem ocorrer com arquibancadas esvaziadas, não por falta de interesse, mas por barreiras diplomáticas e burocráticas. E uma pergunta surge. Que Copa do Mundo é essa em que atletas entram, mas torcedores não?

O paradoxo se aprofunda quando se olha para os outros dois organizadores. O México, historicamente associado à migração latino-americana, é alvo constante de estigmatização e pressão na fronteira sul dos EUA. O Canadá, por sua vez, vive uma situação ainda mais surreal: é parceiro do Mundial enquanto seu território é publicamente citado por Donald Trump como alvo de possível anexação.

Como garantir um torneio harmonioso quando os próprios anfitriões estão em rota de colisão diplomática?

E há ainda a Europa observando tudo com atenção. A Dinamarca, que vê seu território na Groenlândia ser alvo de investidas políticas americanas e ameaças de ser tomada pela força, pode estar na Copa do Mundo se avançar na repescagem europeia, que acontece em março. Caso isso aconteça, o Mundial pode ganhar um ingrediente explosivo: tensões territoriais envolvendo uma seleção participante e o principal país-sede do evento.

A FIFA insiste no discurso da neutralidade, que, nesse caso, soa menos como princípio e mais como conveniência.

As diferenças entre as ações na Ucrânia e na Venezuela

Os Estados Unidos, sob o segundo mandato de Donald Trump, adotaram uma política externa agressiva e seletiva. Houve incursões militares diretas ou indiretas em regiões sensíveis, como a Venezuela, ameaças explícitas ao Irã e uma escalada retórica que inclui até a ideia de anexação do Canadá. Ainda assim, nenhuma sanção esportiva foi cogitada. Nenhuma ameaça de exclusão. Nenhuma nota dura da FIFA.

O contraste com o passado recente entre Ucrânia e Venezuela é inevitável. A Rússia foi punida pela FIFA e pelo Comitê Olímpico Internacional, sob o argumento de violação do direito internacional e ameaça à integridade das competições. Por serem excluídas das fases classificatórias, as equipes russas ficaram fora da Copa do Mundo do Qatar (2022) e da América do Norte (2026) e dos Jogos Olímpicos de Paris (2024).

A pergunta que paira no ar é simples e desconfortável: por que há dois pesos e duas medidas? O que diferencia uma guerra “punível” de outra “administrável” quando o anfitrião do Mundial é a maior potência econômica do planeta? E é neste ponto que pode estar a resposta. A comparação entre a punição imposta à Rússia após a invasão da Ucrânia, em 2022, e a ausência de sanções esportivas aos Estados Unidos após a ação militar contra a Venezuela expõe como decisões no futebol internacional passam menos por critérios morais universais e mais por contexto político, pressão institucional e viabilidade econômica.

No caso russo, a suspensão pela FIFA e pela UEFA ocorreu após manifestação conjunta de federações filiadas, apoio explícito da UEFA e recomendações do Comitê Olímpico Internacional, em um cenário de forte condenação internacional e sem impacto estrutural para a realização da Copa do Mundo daquele ciclo. Já no caso estadunidense, não houve qualquer movimento formal de boicote por parte de países classificados ao Mundial de 2026, nem pressão institucional comparável dentro da FIFA.

Além disso, a Copa de 2026 é estruturalmente dependente dos Estados Unidos, que sediarão a maioria absoluta dos jogos, incluindo todas as partidas a partir das Quartas de Final, além de concentrarem contratos bilionários de patrocínio, transmissão e logística. Esse fator torna praticamente inviável qualquer punição esportiva ou mudança de sede a poucos meses do torneio.

Assim, a diferença de tratamento não decorre apenas das ações militares em si, mas da combinação entre articulação política no esporte, interesses econômicos e o peso estratégico do país envolvido. O episódio reforça críticas recorrentes sobre a existência de uma “dupla régua” na governança esportiva global, em que princípios são frequentemente relativizados quando confrontados com poder, dinheiro e estabilidade do evento.

O esporte já boicotou guerras, regimes e injustiças antes. As Olimpíadas de Moscou (1980) e de Los Angeles (1984) foram marcadas por boicotes em massa. Copas do Mundo já sofreram pressões políticas, exclusões e ameaças veladas. A diferença agora é que o sistema parece disposto a seguir adiante desde que os gigantescos interesses comerciais estejam preservados.

A pergunta que fica não é se a Copa de 2026 será politizada. Ela já é. A questão real é se o futebol aceitará, mais uma vez, ser apenas o figurante de um jogo muito maior, aquele que é jogado nos gabinetes, nas fronteiras e nos discursos. Talvez a Copa do Mundo aconteça exatamente como planejado. Talvez não. Mas ignorar os sinais seria repetir o erro histórico de acreditar que o futebol vive em um mundo à parte. Ele nunca viveu. E nunca viverá.

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