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Tabus, Tretas e Troças

A tristeza de ver o escudo de uma camisa virar sentença de morte

Modelo de torcida única no Ba-Vi, adotada justamente para reduzir esse tipo de ocorrência, não eliminou a violência e a deslocou para longe do estádio

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Sílvio Tudela

- há XX semanas
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Quando uma camisa com o escudo do adversário deixará de ser uma senha para o confronto e voltará a ser apenas uma camisa? Esta é uma pergunta que o futebol brasileiro insiste em adiar, talvez porque a resposta seja mais incômoda do que qualquer medida de segurança.

O Ba-Vi 508, de 23 de agosto de 2026, deveria ter sido apenas mais um capítulo de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Após várias rodadas de jejum, o Bahia venceu o Vitória por 2 a 0, pela primeira vez na história no temido Estádio Manoel Barradas jogando pela Série A do Campeonato Brasileiro, e o resultado poderia ocupar sozinho as páginas esportivas. Mas, horas antes de a bola rolar, a rivalidade havia produzido aquilo que o futebol deveria ser incapaz de produzir: morte.

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José Alexandre e Lucas dos Reis foram mortos no dia 23 de agosto de 2026. Foto: Reprodução / Redes sociais

Em suas redes sociais, a principal torcida organizada do Bahia comunicou a morte de dois de seus integrantes. Por sua vez, a Polícia Civil confirmou oficialmente uma vítima fatal e, até o momento, não estabeleceu relação entre o crime e os confrontos envolvendo torcidas organizadas no segundo caso. A Polícia Militar localizou posteriormente um grupo de cerca de 60 pessoas e conduziu os envolvidos para as autoridades; seis deles foram encontrados com materiais associados aos confrontos. A Justiça manteve a prisão dos seis suspeitos inicialmente detidos e, posteriormente, sete suspeitos tiveram a prisão preventiva decretada.

O problema é que a violência não aconteceu dentro do Barradão e esse detalhe talvez seja o mais importante de toda a história, pois o estádio tinha torcida única.

O Ba-Vi chegou ao domingo sob um dos mecanismos considerados mais eficazes para impedir confrontos entre torcedores rivais: desde 2017, com uma breve interrupção em 2018, os clássicos entre Bahia e Vitória são realizados sem as duas torcidas compartilhando as arquibancadas. A medida nasceu depois de uma sucessão de episódios violentos e chegou a ser suspensa temporariamente quando as autoridades consideraram positivos os resultados obtidos. Bastou, porém, o primeiro Ba-Vi com duas torcidas, em fevereiro de 2018, terminar novamente em confusão dentro e fora do estádio para que a recomendação fosse retomada. Em 2026, o Ministério Público da Bahia voltou a rejeitar um pedido do Vitória para o retorno das duas torcidas, alegando que não havia comprovação técnica suficiente de segurança.


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Clássicos são disputados com torcida única desde 2017 na Bahia. Foto: Victor Ferreira / EC Vitória

E então chegamos à pergunta inevitável: se a torcida única não conseguiu impedir a morte de um torcedor em um domingo de Ba-Vi, o que exatamente ela resolveu? Honestamente, a resposta é que a medida melhorou alguma coisa, mas não o problema inteiro.

A torcida única reduz uma possibilidade específica de conflito, aquela que ocorre dentro ou nas imediações imediatas do estádio quando grupos adversários se encontram. Ela facilita a operação policial, diminui a necessidade de separar duas massas de torcedores e torna mais previsível o controle dos acessos. Não é pouca coisa. O problema é imaginar que a violência surge necessariamente na arquibancada. Ela não nasce e pode começar muito antes, sem sequer passar pelo estádio.

O domingo mostrou isso de maneira quase didática. As informações sobre deslocamentos de torcedores, encontros previamente combinados, perseguições e confrontos circulam atualmente com velocidade pelas redes sociais. O clássico deixou de ser necessariamente um encontro entre duas multidões dentro de um estádio para se transformar em uma espécie de disputa territorial espalhada pela cidade. O futebol fornece a identidade; as redes fornecem a comunicação; a rua fornece o espaço. É uma combinação muito mais difícil de controlar.

E o fenômeno não é exclusivamente baiano. Em São Paulo, os clássicos entre Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, assim como o derby campineiro (Guarani x Ponte Preta), são disputados com torcida única desde 2016, depois de episódios de violência que incluíram a morte de um torcedor. Em Pernambuco, Sport x Náutico passou a adotar o mesmo modelo em 2025. Goiás utiliza torcida única nos clássicos entre Goiás, Vila Nova e Atlético-GO desde 2018. Minas Gerais e Rio Grande do Norte adotam a medida em casos específicos.

Mas outros grandes centros seguiram caminho diferente. Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná, por exemplo, mantêm clássicos com as duas torcidas em seus principais campeonatos em 2026. O modelo, portanto, está longe de ser uma unanimidade nacional.

E quem sabe esteja aí outra pista, pois não existe uma solução universal porque o problema não é simplesmente a presença de duas torcidas no estádio. Se fosse, bastaria fechar os portões para uma delas e o problema estaria resolvido.

A grande questão é que a violência migrou. Ela pode aparecer no transporte público, nos bairros, nas vias de acesso, nos terminais, em pontos de encontro previamente combinados e até bem longe do local da partida. No próprio domingo do Ba-Vi, três ônibus foram alvo de vandalismo em Salvador. Em Plataforma, um rojão atingiu o vidro dianteiro de um coletivo e feriu o motorista. Na Estação Pirajá, um ônibus foi empurrado por pessoas ligadas a uma torcida organizada e teve uma porta danificada. Em Pernambués, outro veículo sofreu danos.

O futebol, portanto, está diante de uma contradição perturbadora. Quanto mais se tenta proteger o estádio, mais evidente fica que talvez seja necessário proteger a cidade.

O problema não é a torcida organizada

Também seria um erro colocar toda torcida organizada no mesmo pacote. Há milhares de pessoas que frequentam esses grupos, participam de festas, caravanas, ações sociais e acompanham seus clubes sem qualquer envolvimento com violência. O próprio Ministério Público do Rio de Janeiro, ao discutir recentemente medidas contra organizadas envolvidas em episódios violentos, tem defendido mecanismos de responsabilização individual, controle de membros e venda identificada de uniformes, em vez de simplesmente tratar todos os torcedores como criminosos.

A questão é outra e revela uma triste espiral de violência que se retroalimenta e aumenta as estatísticas de violência histórica. Quando uma organização passa a funcionar como estrutura de enfrentamento, com grupos previamente mobilizados para encontrar o adversário, a discussão deixa de ser sobre futebol, passa a ser de segurança pública e precisa ser tratada como tal.

Por isso, talvez seja necessário abandonar a ideia de que basta proibir a entrada de uma torcida no estádio ou suspender uma organizada depois de uma tragédia. As medidas precisam começar muito antes do dia do jogo e continuar depois que o árbitro apita o fim.

Cadastramento efetivo dos integrantes, identificação individual, monitoramento dos deslocamentos previamente comunicados, câmeras com capacidade de reconhecimento, integração entre clubes, federações, Ministério Público e forças de segurança, responsabilização individual dos envolvidos, impedimento de acesso aos estádios para quem tiver decisão judicial nesse sentido e punições que realmente tenham consequência são alguns dos instrumentos que podem compor uma estratégia mais ampla.

Há também uma mudança cultural que precisa ser enfrentada. Não adianta instalar centenas de câmeras se alguém continuar entendendo que perseguir um torcedor rival é demonstração de coragem. Não adianta separar as torcidas no estádio se continuar sendo socialmente tolerável transformar o bairro do adversário em território inimigo. Não adianta prender seis pessoas depois de uma morte se, algumas semanas mais tarde, elas puderem voltar à mesma dinâmica ou se outras ocuparem imediatamente o espaço deixado por elas.

E não adianta responsabilizar apenas o clube. Os clubes precisam responder pelo que acontece sob sua esfera de influência, as organizadas precisam responder pelos seus integrantes quando houver elementos que permitam essa responsabilização, o poder público precisa investigar e punir e a sociedade precisa parar de naturalizar a violência como parte constituinte do futebol. Porque não é.

Quando a camisa virou uma ameaça?

Por que vestir uma camisa do Bahia ou do Vitória pode fazer alguém ser identificado como inimigo em determinado bairro de Salvador e representar risco em outro ponto da cidade? A camisa deveria informar uma preferência esportiva.

Transformá-la em marcador de território é o primeiro passo para transformar o torcedor em alvo e é aí que a rivalidade ultrapassa uma fronteira perigosa. Torcer contra o adversário faz parte do futebol. Provocá-lo também. Cantar contra o rival, criar apelidos, produzir memes e comemorar uma derrota alheia fazem parte dessa cultura, desde que permaneçam dentro dos limites da convivência.

O problema começa quando o outro deixa de ser adversário e passa a ser inimigo. E, quando isso acontece, já não importa quem venceu o Ba-Vi. Todos perderam. Perdeu o torcedor, cuja vida terminou antes de assistir ao jogo, seus familiares, os torcedores que foram ao estádio, o motorista de ônibus atingido por um artefato que nada tinha a ver com futebol, e a cidade, que precisou transformar um domingo de clássico em uma operação de emergência. E perdeu o próprio futebol, porque cada morte produz uma pergunta que nenhum resultado consegue responder.

O Ministério Público da Bahia afirmou que acompanha as investigações e que atuará, em conjunto com os órgãos de segurança, para identificar e responsabilizar os autores dos atos violentos, reiterando que o esporte deve ser espaço de convivência, respeito e celebração. Talvez o verdadeiro teste de qualquer política de segurança para o futebol não seja saber quantos policiais estarão no estádio, quantas catracas foram instaladas ou quantas torcidas foram proibidas de entrar.

A pergunta deveria ser outra. Quantas pessoas poderão vestir a camisa do rival e voltar para casa em segurança? Enquanto essa resposta não for um simples "todas", nenhuma estratégia terá sido suficiente. Porque a torcida única pode impedir que duas multidões se encontrem na arquibancada, reduzir riscos, facilitar o policiamento e até evitar determinadas tragédias. Mas ela não ensina ninguém a conviver com o outro.

A lição que o último Ba-Vi deixa para o futebol brasileiro é que não basta separar os torcedores. É preciso acabar com a ideia de que eles precisam ser separados para que ninguém morra. A camisa do adversário não deveria ser uma senha, uma ameaça, uma sentença, mas apenas uma camisa.

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