Carrascos: o destino de quem derrubou a Seleção nas Copas do Mundo
Sobra apenas a pergunta que acompanha gerações de torcedores brasileiros: se eles não eram os melhores do mundo, por que ficamos pelo caminho?

Toda eliminação brasileira em Copa do Mundo produz o mesmo ritual. Procura-se um culpado, revisam-se escolhas, apontam-se erros e nasce a sensação de que o título escapou por detalhes. Mas um olhar sobre a história revela uma curiosidade pouco explorada: quase sempre o Brasil foi eliminado por seleções que confirmaram, até o fim da competição, que realmente eram fortes o suficiente para conquistar (ou pelo menos disputar) o título mundial.

Há exceções, naturalmente. Algumas derrotas envelheceram pior justamente porque seus algozes não conseguiram repetir o desempenho nas fases seguintes. São essas eliminações que alimentam até hoje a impressão de que a Seleção desperdiçou oportunidades históricas. Nem sempre, porém, existiu um "carrasco" propriamente dito.
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Nas primeiras Copas do Mundo, o formato da competição era completamente diferente. Em 1930, no Uruguai, apenas os líderes de grupos avançavam às Semifinais. O Brasil estreou perdendo para a agora extinta Iugoslávia e, embora tenha vencido a Bolívia na rodada seguinte, acabou eliminado ainda na fase inicial. Os iugoslavos não sustentaram o bom momento e foram goleados pelo Uruguai na semifinal. Pela primeira vez, a Seleção caía diante de um adversário que sequer disputaria a decisão.
Quatro anos depois, na Itália, aconteceu outra eliminação precoce. A Copa do Mundo de 1934 foi disputada em sistema eliminatório desde o primeiro jogo. O Brasil caiu logo nas Oitavas de Final diante da Espanha. Os espanhóis, entretanto, também não foram muito além. Eliminados pela anfitriã Itália nas Quartas após um violento jogo-desempate, assistiram aos italianos conquistarem o primeiro título mundial.
Um padrão se estabelece
Foi apenas em 1938 que começou um padrão que atravessaria praticamente todo o século seguinte. Na Semifinal, a poderosa Itália derrotou o Brasil e seguiu para conquistar o bicampeonato mundial. Era uma equipe histórica, comandada por Vittorio Pozzo e cercada pelas pressões políticas do regime fascista de Benito Mussolini. Foi a partir de então que duas Copas do Mundo (1942 e 1946) não aconteceram por causa da Segunda Guerra Mundial.
Em 1950 veio o trauma mais conhecido da história do futebol brasileiro. O Uruguai venceu o Brasil, de virada, no Maracanã por 2 a 1 e conquistou sua segunda Copa do Mundo. Diferentemente da Itália, porém, aquele título acabou marcando também o fim da era de protagonismo uruguaio em Mundiais.
Em 1954, outra seleção considerada quase imbatível apareceu no caminho brasileiro. Favorita ao título, a Hungria de Ferenc Puskás eliminou o Brasil por 4 a 2 nas Quartas de Final, na famosa "Batalha de Berna". Os magiares encantavam o mundo havia anos, mas acabaram surpreendidos pela Alemanha Ocidental na decisão, numa das maiores zebras da história das Copas do Mundo.
A partir deste momento, a lógica se repetiria diversas vezes.
Em 1974, a Holanda de Johan Cruyff eliminou o tricampeão Brasil em 1970 na segunda fase. Era o nascimento do chamado Futebol Total. Os holandeses revolucionaram o esporte, embora tenham perdido a decisão para a Alemanha Ocidental, repetindo de forma negativa o feito da Hungria 20 anos antes.
Na Copa do Mundo de 1978, curiosamente, o Brasil sequer teve um carrasco para chamar de seu. A Seleção terminou o torneio de forma invicta, mas foi eliminada pelo saldo de gols na segunda fase depois de ver a Argentina aplicar um inacreditável 6 a 0 sobre o Peru, resultado suficiente para colocar os anfitriões na final. A partida permanece cercada de suspeitas mais de quatro décadas depois, especialmente pelo contexto da ditadura militar argentina e das relações políticas entre Buenos Aires e Lima. Sem ter sido derrotado em campo, o Brasil deixou o Mundial enquanto a Argentina caminhava para conquistar seu primeiro título mundial diante da Holanda. Se há algum "carrasco" neste Mundial, foi o regulamento, o contexto político e um resultado que até hoje desafia a credibilidade da história das Copas.
Em 1982, na Espanha, num dos capítulos mais tristes de sua história, a Seleção Brasileira de Telê Santana encontrou outra equipe destinada ao título. A Itália de Paolo Rossi derrotou o Brasil por 3 a 2 e iniciou uma caminhada improvável rumo ao tricampeonato mundial.
Oito anos depois, em 1990, na Copa da Itália, a Argentina de Diego Maradona eliminou o Brasil nas Oitavas de Final com um único lance genial do Camisa 10 concluído por Claudio Caniggia. Os argentinos avançaram até a decisão, mas perderam o título para a Alemanha.
Depois disso, o Brasil viveu seu maior período de hegemonia recente, conquistando o Tetracampeonato em 1994 e o Penta em 2002. Entre essas duas conquistas, porém, surgiu outro carrasco de peso. Em 1998, a França venceu a final por 3 a 0 e levantou sua primeira Copa do Mundo, liderada por Zinédine Zidane.
Novamente, a queda para os campeões ou vices

O século XXI consolidou outro fenômeno: a hegemonia europeia sobre a Seleção Brasileira. Em 2006, na Alemanha, novamente a França apareceu no caminho. Zinédine Zidane novamente comandou a vitória por 1 a 0 nas Quartas de Final antes de perder a decisão para a Itália.
Em 2010, na África do Sul, a Holanda virou o jogo por 2 a 1 diante da equipe de Carlos Caetano Bledorn Verri (Dunga) e chegou até a final, sendo derrotada pela Espanha.
Em 2014, em nossa própria casa, aconteceu o maior trauma da história do futebol brasileiro. O 7 a 1 diante da Alemanha não foi apenas uma goleada; foi a confirmação da superioridade da futura campeã mundial e de que as coisas estavam erradas e precisavam ser corrigidas.
A queda para os terceiros colocados
Talvez o primeiro sentimento de grande colapso da geração bicampeã do Brasil (1958 e 1962) tenha surgido em 1966. A Seleção chegou à Inglaterra defendendo dois títulos consecutivos, mas foi eliminada ainda na fase de grupos após perder para Portugal por 3 a 1. Liderados por Eusébio, os portugueses alcançaram o terceiro lugar, melhor campanha de sua história em Mundiais.
Foi em 1986 que surgiu uma eliminação capaz de reviver essa dúvida histórica. A França venceu o Brasil nos pênaltis nas Quartas de Final, mas acabou derrotada pela Alemanha Ocidental na Semifinal e terminou apenas em terceiro lugar. Pela primeira vez, desde 1966 (quando Portugal chegou na mesma posição), a sensação era de que o Brasil havia deixado escapar uma Copa perfeitamente conquistável.

O sentimento se repetiria em 2018, quando a Bélgica eliminou o Brasil nas Quartas de Final, mas parou diante da França na Semifinal e terminou apenas em terceiro lugar na Rússia. O roteiro repetiu-se em 2022, quando a Croácia venceu nos pênaltis, alcançou novamente uma Semifinal, mas terminou a competição na terceira colocação após ser eliminada pela Argentina, que foi a campeã no Qatar.
O que chama a atenção na derrota de 2026

Já a eliminação de 2026 para a Noruega acrescenta um ingrediente novo à história. Pela primeira vez em décadas, o Brasil caiu nas Oitavas de Final diante de uma seleção que ainda buscava consolidar seu espaço entre as grandes potências do futebol mundial. O destino dos noruegueses acabou nas Quartas e a derrota brasileira pode ser interpretada de duas formas: como a confirmação do surgimento de uma possível nova força internacional ou como mais uma oportunidade desperdiçada por uma geração brasileira incapaz de confirmar o talento que durante tantos anos lhe foi atribuído.
No fim das contas, a história dos carrascos brasileiros revela algo curioso. Em diversas ocasiões, perder para Itália (1938 e 1982), Alemanha (2014), Argentina (1990), França (1998 e 2006), Holanda (1974 e 2010) ou Hungria (1954) significou simplesmente reconhecer a superioridade de seleções que marcaram época. Em outras, o Brasil caiu diante de adversários que não conseguiram transformar aquela vitória em título, mas chegaram às semifinais, como Iugoslávia (1930), Portugal (1966), França (1986), Bélgica (2018) e Croácia (2022). Lá na Copa do Mundo da Itália, quando foi eliminada nas Oitavas pela Espanha (1934), como agora, com a Noruega, as vencedoras nem chegaram à Semifinal.
Talvez seja justamente essa diferença que explique por que algumas derrotas são lembradas com resignação, enquanto outras continuam abertas como feridas nacionais. Porque, quando o carrasco levanta a taça dias depois, a eliminação encontra alguma justificativa histórica. Mas quando ele também fracassa, sobra apenas a pergunta que acompanha gerações de torcedores brasileiros: se eles não eram os melhores do mundo, por que justamente o Brasil ficou pelo caminho?
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