iBahia Portal de notícias
icone de busca
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Tabus, Tretas e Troças

Copa do Mundo corre o risco de ter jogos com estádios vazios

Com restrições dos EUA à entrada de cidadãos de determinados países, ao menos dez partidas da fase de grupos podem sofrer impacto direto de público

foto autor

Sílvio Tudela

06/01/2026 às 11:23 - há XX semanas
Google News iBahia no Google News

Quando a FIFA anunciou, em junho de 2018, que Canadá, México e Estados Unidos sediariam juntos a Copa do Mundo de 2026, a decisão foi celebrada como um marco. O torneio voltaria à América do Norte após 32 anos, ampliaria fronteiras ao ser disputado em três países e, sobretudo, se ancoraria em democracias consolidadas, com infraestrutura, estabilidade institucional e enorme capacidade comercial. Depois de duas edições realizadas em contextos autoritários (Rússia, em 2018, e Qatar, em 2022), a escolha parecia sinalizar um reposicionamento político e simbólico da entidade.


					Copa do Mundo corre o risco de ter jogos com estádios vazios
Foto: Divulgação

O mundo, porém, mudou rápido demais.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Leia também:

A poucos meses do início do maior Mundial da história, com 48 seleções, o país que concentra a maior parte dos jogos vive um endurecimento sem precedentes em sua política migratória. O segundo mandato de Donald Trump tem produzido efeitos que já ultrapassam o campo interno e começam a interferir diretamente no maior evento esportivo do planeta.

Medidas restritivas adotadas pelo governo dos Estados Unidos passaram a dificultar - e em alguns casos impedir - a entrada de cidadãos de determinados países. Senegal e Costa do Marfim, por exemplo, entraram recentemente em uma lista de restrições parciais. Já Irã e Haiti enfrentam bloqueio total de acesso. O resultado é concreto: ao menos dez partidas da fase de grupos, todas em solo americano, podem sofrer impacto direto de público, com arquibancadas esvaziadas ou presença drasticamente reduzida de torcedores.

O paradoxo é evidente. A FIFA sustenta, em seus estatutos, princípios como inclusão, combate à discriminação e neutralidade política. Mas a Copa do Mundo de 2026 se vê ameaçada por políticas estatais que caminham na direção oposta e que afetam justamente seleções de regiões historicamente marginalizadas no sistema global, como África, Caribe e Oriente Médio.

O governo norte-americano afirma que atletas e delegações terão entrada garantida. Ainda assim, o futebol não se limita às quatro linhas. Torcedores fazem parte da alma do Mundial e o risco de jogos sem o colorido humano que sempre definiu a Copa do Mundo é real. Um Haiti x Brasil disputado na Philadelphia, por exemplo, pode ocorrer sem a presença de haitianos - justamente em um país que abriga uma das maiores diásporas dessa população.

Confira os jogos que podem ter o público esvaziado:

13/06 - Haiti x Escócia (Boston);

14/06 - Costa do Marfim x Equador (Philadelphia);

15/06 - Irã x Nova Zelândia (Los Angeles);

16/06 - Senegal x França (New Jersey);

19/06 - Haiti x Brasil (Philadelphia);

21/06 - Irã x Bélgica (Los Angeles);

22/06 - Senegal x Noruega (New Jersey);

24/06 - Haiti x Marrocos (Atlanta);

25/06 - Costa do Marfim x Curaçao (Philadelphia);

27/06 - Irã x Egito (Seattle).

O contexto político

A questão, porém, extrapola o esporte. Desde o início de seu segundo mandato, Donald Trump prometeu endurecer o combate à imigração. A promessa se materializou rapidamente: milhares de agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) foram mobilizados, detenções ocorreram sem mandado judicial e políticas de concessão de vistos começaram a ser desmontadas. Especialistas apontam para uma virtual paralisação do sistema de imigração legal dos Estados Unidos.

Esse cenário se conecta a uma estratégia geopolítica mais ampla. Documentos recentes do Pentágono indicam a retomada da Doutrina Monroe (1823), agora reinterpretada sob a lógica do governo de Donald Trump e já sendo chamada por especialistas em geopolítica de Doutrina Donroe, com foco na América Latina e no enfrentamento à influência de China e da Rússia. A Copa do Mundo, nesse contexto, deixa de ser apenas um evento esportivo e passa a coexistir com uma política externa mais agressiva, nacionalista e excludente.

A FIFA, que apostou no poder econômico e no sucesso comercial do mercado americano, agora enfrenta um dilema delicado. Intervir pode significar confronto político. Silenciar, por outro lado, pode custar a integridade simbólica do torneio. Não se trata apenas de logística, mas de imagem, valores e credibilidade.

A Copa do Mundo sempre foi um palco onde o mundo se enxerga, com suas contradições, disputas e esperanças. Em 2026, ela corre o risco de expor, em rede global, um espetáculo atravessado por muros invisíveis, aeroportos seletivos e arquibancadas vazias. Resta saber se o futebol, mais uma vez, encontrará caminhos para sobreviver às turbulências do seu tempo, como já foi em diversos momentos no passado, ou se será apenas mais um refém da política que jurou manter fora de campo.

Participe do canal
no Whatsapp e receba notícias em primeira mão!

Acesse a comunidade
Acesse nossa comunidade do whatsapp, clique abaixo!

Tags:

Mais em Tabus, tretas e troças com Sílvio Tudela