iBahia Portal de notícias
icone de busca
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Tabus, Tretas e Troças

Copa do Mundo sem e com Neymar revive dilema histórico

Ex-craque em atividade relembra ídolos barrados em Mundiais e o retorno da figura do “indispensável” capaz de fazer a diferença às vésperas do torneio

foto autor

Sílvio Tudela

27/04/2026 às 11:37 - há XX semanas
Google News iBahia no Google News

À medida que a Copa do Mundo se aproxima, o Brasil revive um velho ritual: a tentativa de transformar desejo em convocação. E, como em outros ciclos, um nome se impõe acima de todos, não exatamente por unanimidade, mas pela força do debate que provoca. Em 2026, esse nome é Neymar.


					Copa do Mundo sem e com Neymar revive dilema histórico
Foto: Reprodução/ Redes sociais

Desde a chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção Brasileira, o até então titular da camisa 10 não foi convocado. O treinador italiano evita qualquer declaração que provoque uma ruptura pública, repete que as portas estão abertas a Neymar e outros jogadores, mas estabelece um critério que, na prática, funciona como filtro: só estarão na lista os atletas em plena condição física. Hoje, Neymar não se encaixa nessa exigência e é a partir daí que o debate deixa de ser apenas técnico.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Leia também:

Isso porque, há tempos, Neymar já não é discutido apenas pelo que joga, mas pelo conjunto do que representa. Em campo, sua temporada recente é marcada por intermitência. Poucos jogos completos, minutos controlados e uma produção ofensiva aquém do que se espera de alguém que, por tanto tempo, foi sinônimo de jogador capaz de fazer a diferença e mudar os rumos de uma partida. O problema não é apenas quantos gols faz ou quantas assistências distribui, mas com que frequência consegue estar disponível em alto nível. A dúvida que paira é incômoda: ainda é o jogador capaz de decidir uma partida em um instante de genialidade ou tornou-se mais um ex-atleta talentoso cercado de expectativas que já não se confirmam com regularidade?

Fora de campo (e, muitas vezes, dentro dele), a imagem recente do jogador contribui para ampliar essa tensão. Discussões acaloradas com torcedores do próprio time do Santos, reações furiosas a críticas feitas pela imprensa, embates frequentes com arbitragem e gestos de enfrentamento passaram a ocupar espaço semelhante ao de suas atuações. Para uma Seleção que busca reconstruir identidade e estabilidade, o “pacote Neymar” passou a ser analisado por inteiro, não apenas pelo talento que um dia foi indiscutível.

Essa ambiguidade se reflete diretamente na opinião pública. Os torcedores parecem divididos entre quem ainda enxerga em Neymar o último grande ídolo capaz de decidir jogos grandes e quem entende que a Seleção precisa virar a página. Há uma parcela que fala a partir da memória afetiva construída no início de sua carreira, outra que se apoia em inquestionáveis critérios de desempenho e uma terceira que rejeita não apenas o momento técnico, mas o comportamento de agressor e de vitimismo que acompanha o jogador. Em comum, apenas a intensidade do debate.

Mas há também uma camada menos visível e igualmente decisiva. A pressão por Neymar não vem apenas das arquibancadas. Interesses econômicos, midiáticos e institucionais orbitam em torno de sua figura de craque e celebridade, mas a vaidade de estar em mais uma Copa do Mundo não pode ser desconsiderada. Trata-se de um dos nomes mais valiosos do futebol brasileiro em termos de imagem, audiência e mercado. Sua presença em uma Copa do Mundo não impacta apenas o desempenho esportivo, mas toda uma cadeia de negócios. Ainda assim, sinais sutis sugerem que o tempo pode estar mudando, pois o próprio álbum oficial do torneio já não traz a sua figurinha. Parece um detalhe, talvez, mas carregado de simbolismo.

Barrados no baile

A história da Seleção Brasileira mostra que esse tipo de encruzilhada não é novo. Ao longo das décadas, o Brasil já deixou fora de Copas nomes que pareciam inegociáveis. Praticamente em todos os casos, também viveram momentos em que o passado não foi suficiente para garantir presença no maior palco do futebol.

Apesar de ser o maior artilheiro da história do Campeonato Brasileiro com 190 gols marcados, a trajetória de Carlos Roberto de Oliveira, o Roberto Dinamite, na Seleção Brasileira ficou conhecida pelo que alguns chamaram de “injustiças” ou “escolhas técnicas” que o impediram de ser o protagonista em Mundiais. Sob o comando de Cláudio Coutinho, na Argentina, em 1978, jogou e marcou três gols, mas esteve longe de ser o titular absoluto. Em 1982, convocado de última hora por causa da lesão de Antônio de Oliveira Filho, mais conhecido como Careca, ficou na reserva de Serginho Chulapa por escolha de Telê Santana e não teve oportunidade em nenhum momento de entrar em campo. Mesmo em grande fase novamente, Roberto Dinamite não foi relacionado para a Copa do Mundo de 1986 porque a comissão técnica da época, especialmente Telê, priorizava outros perfis de atacante.

Um dos heróis do Tetracampeonato de 1994, Romário ficou fora da Copa do Mundo de 1998, em meio a uma lesão que jamais deixou de gerar debate após o técnico Mário Jorge Lobo Zagallo se referir a ele como "falta de amor à Amarelinha" durante a preparação para os Jogos Olímpicos de Atlanta-1996. Também por causa de uma série de lesões foi preterido em 2002 por escolha do treinador Luiz Felipe Scolari, apesar da forte pressão política e popular. Posteriormente, o ex-jogador admitiu publicamente que teria torcido para o Brasil não ganhar as Copas de 1998 e 2002.

Dois dos jogadores mais talentosos de sua geração também acabaram sendo excluídos da lista final de Carlos Caetano Bledorn Verri, mais conhecido como Dunga, para a Copa do Mundo de 2010: Adriano Imperador, por queda de rendimento e difíceis questões extracampo, e Ronaldinho Gaúcho, que, segundo o técnico, não teria demonstrado comprometimento com a equipe nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008. Sem o peso do passado nas costas, o treinador ainda se viu muito pressionado para convocar a dupla Paulo Henrique Ganso e Neymar Júnior, que eram revelações e jovens promessas do futebol brasileiro daquela época, mas resistiu e não os levou para a África do Sul.

De volta a Neymar nos dias de hoje

O padrão se repete quando a Seleção deixa de ser refém da história de seus ídolos e passa a responder às exigências do presente. É exatamente esse o ponto em que Neymar se encontra. Durante anos, ele foi a resposta automática para qualquer dúvida ofensiva e hoje é a principal dúvida. Embora pareça distante, talvez consiga chegar à Copa do Mundo por mérito próprio, recuos da comissão técnica ou sorte pela eliminação de algum outro jogador.

De todo modo, a decisão final de Carlo Ancelotti não será apenas sobre levar ou não um jogador. Será sobre que tipo de Seleção o Brasil quer ser a partir de agora. Uma equipe que aposta apenas na memória de um talento capaz de iluminar jogos ou um time que privilegia consistência, intensidade e construção coletiva, qualidades que parecem ausentes no jogador santista atualmente.

Às vésperas de grandes torneios, a figura do “indispensável” emerge, como tantas vezes antes e o futebol brasileiro se vê diante de sua própria contradição, entre o peso do passado com a figura redentora do “Salvador da Pátria” e a urgência do presente. A insistência em seu nome revela não apenas a falta de um substituto claro, mas também uma dificuldade coletiva de virar a página. O Brasil ainda busca um novo protagonista e, enquanto não encontra, recorre ao passado, mas em Copas do Mundo, essa escolha costuma ser implacável.

Participe do canal
no Whatsapp e receba notícias em primeira mão!

Acesse a comunidade
Acesse nossa comunidade do whatsapp, clique abaixo!

Tags:

Mais em Tabus, tretas e troças com Sílvio Tudela