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Tabus, Tretas e Troças

Do nazifascismo às guerras atuais: o esporte no jogo do poder

Copas do Mundo, Jogos Olímpicos e competições variadas tornaram-se, muitas vezes, palco simbólico de disputas maiores que o próprio resultado em campo

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Sílvio Tudela

16/03/2026 às 16:16 - há XX semanas
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A ideia de que o esporte vive isolado da política é uma das narrativas mais repetidas por dirigentes e federações internacionais. A História, contudo, demonstra o contrário. Ao longo do Século XX e início do XXI, guerras, regimes autoritários, disputas ideológicas e econômicas, e crises diplomáticas influenciaram diretamente a realização (ou mesmo o cancelamento) de grandes eventos esportivos. Copas do Mundo, Jogos Olímpicos e competições internacionais tornaram-se, muitas vezes, palco simbólico de disputas muito maiores do que o próprio resultado em campo.


					Do nazifascismo às guerras atuais: o esporte no jogo do poder
Foto: ChatGPT Image

Nos dias atuais, a escalada de hostilidades envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã vem gerando preocupações logísticas e diplomáticas para o calendário esportivo internacional, especialmente em torneios que reúnem delegações de dezenas de países. Rotas aéreas alteradas, restrições de vistos, pressões por boicotes e questões de segurança podem transformar grandes eventos em arenas diplomáticas tão intensas quanto os próprios campos de jogo. Em meio a bombardeios incessantes, autoridades do Irã anunciaram que não vão aos Estados Unidos disputar a Copa do Mundo de 2026 e o que acontecerá nesta situação é um enigma, pois o conflito está se espalhando por outras regiões que possuem seleções classificadas, como o Qatar, Arábia Saudita, Egito e Jordânia, por exemplo. Outros países, por motivos dos mais diversos, também podem se sentir ameaçados e deixar de participar.

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Nem mesmo o automobilismo está escapando dessas tensões. A Fórmula 1 cancelou o Grande Prêmio da Rússia após o início da guerra na Ucrânia e diversas corridas realizadas em países do Oriente Médio frequentemente geram críticas de organizações de direitos humanos, que acusam a categoria de ajudar governos a promover uma espécie de “sportswashing”, estratégia em que grandes eventos esportivos são usados para melhorar a imagem internacional de regimes políticos. Não por acaso, os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita estão na iminência de serem cancelados por causa do conflito atual no Oriente Médio e no Golfo Pérsico.

O futebol também foi atingido por decisões políticas internas. Basta lembrar que a África do Sul foi excluída por décadas das competições internacionais organizadas pela FIFA devido ao regime do apartheid, sendo reintegrada apenas nos anos 1990 após o fim da política de segregação racial. Mais recentemente, a Rússia foi suspensa de competições da FIFA e do Comitê Olímpico Internacional após a invasão da Ucrânia em 2022, um episódio que reacendeu o debate sobre até que ponto organizações esportivas devem punir países por ações militares. Por que a mesma punição não acontece com os Estados Unidos agora, uma vez que vai sediar a Copa do Mundo de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028?

Copas do Mundo

Nos anos 1930, por exemplo, o futebol foi instrumentalizado por regimes autoritários europeus. O ditador italiano Benito Mussolini transformou a Copa do Mundo de 1934 em uma vitrine de propaganda do fascismo. O torneio foi realizado na Itália em meio a denúncias de pressão política sobre arbitragem e adversários. A seleção italiana acabou campeã, repetindo o título quatro anos depois na França, já sob o clima de tensão e muita pressão que antecedia a Segunda Guerra Mundial.

O conflito global que começou em 1939 acabou interrompendo o calendário esportivo internacional. As Copas do Mundo previstas para 1942 e 1946 simplesmente não aconteceram, assim como os Jogos Olímpicos de Verão de 1940 e de 1944 foram cancelados em razão do conflito. A paralisação deixou um vácuo esportivo que só seria preenchido anos depois.

Quando o futebol internacional retomou seu principal torneio, a escolha das sedes também refletiu decisões políticas e diplomáticas. A FIFA decidiu realizar a Copa do Mundo de 1950 no Brasil, país que havia permanecido relativamente distante da devastação europeia. Quatro anos depois, o evento foi sediado pela Suíça, considerada território neutro e símbolo de estabilidade no pós-guerra.

Poucos anos depois, outra controvérsia marcou o futebol mundial. A Copa do Mundo de 1978 foi realizada na Argentina durante a brutal ditadura militar. Organizações de direitos humanos denunciaram o uso do torneio como instrumento de propaganda política do governo militar, enquanto milhares de opositores eram perseguidos ou desapareciam durante o período conhecido como “Processo de Reorganização Nacional”.

A política também interferiu diretamente na escolha de sedes. A Copa do Mundo de 1986 estava originalmente prevista para acontecer na Colômbia, mas o país desistiu da organização alegando incapacidade financeira para atender às exigências da FIFA e porque também não tinha condições de garantir segurança aos participantes porque estava imerso em uma violenta guerrilha que envolvia grupos paramilitares e narcotraficantes. O torneio foi transferido para o México, numa decisão que evidenciou como fatores econômicos, políticos e sociais influenciam o mapa do futebol mundial.

A Copa do Mundo de 2022, realizada no Qatar, também foi cercada de debates políticos e culturais, envolvendo direitos trabalhistas, liberdade de expressão e direitos da comunidade LGBTQIA+. Embora os jogos tenham ocorrido normalmente, a competição mostrou como o futebol global se tornou um palco para discussões que vão muito além das quatro linhas.

Jogos Olímpicos

Um dos momentos mais emblemáticos dos Jogos Olímpicos remonta a Berlim 1936, quando o regime de Adolf Hitler transformou o evento em vitrine de propaganda da Alemanha nazista. A Olimpíada foi cuidadosamente coreografada para exibir a suposta superioridade do regime e a supremacia da raça ariana, mas o brilho do atleta americano Jesse Owens tornou a estratégia do Terceiro Reich num símbolo do fracasso dessa narrativa racial.

Durante os Jogos Olímpicos de Munique 1972, um ataque do grupo palestino Setembro Negro contra a delegação de Israel terminou com a morte de atletas e treinadores israelenses, em um dos episódios mais dramáticos da história do esporte. O atentado transformou a Olimpíada em um marco da vulnerabilidade de eventos globais diante de conflitos internacionais.

Poucos anos depois, durante a Guerra Fria, o esporte se confirmou como um instrumento direto de disputa ideológica. Os Jogos Olímpicos de Moscou 1980 foram boicotados pelos Estados Unidos e por diversos aliados em protesto contra a invasão soviética do Afeganistão. Em resposta, a União Soviética e o bloco socialista retaliaram com um boicote aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984. O resultado foi uma Olimpíada esvaziada de rivais históricos e uma prova clara de que a rivalidade geopolítica ultrapassava facilmente as fronteiras do esporte.

Espelho do mundo

A História mostra, portanto, que o esporte raramente está isolado das tensões do mundo. Pelo contrário: Copas, Olimpíadas e campeonatos globais frequentemente refletem o clima político de sua época. Se por um lado eles representam encontros entre povos e culturas, por outro também revelam as fraturas geopolíticas que atravessam o planeta. Em última análise, o esporte continua sendo uma poderosa linguagem universal e, como tal, carrega consigo as disputas, interesses e conflitos do tempo em que é praticado.

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