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Tabus, Tretas e Troças

E o destino colocou Irã e Egito no Jogo do Orgulho LGBTQIAPN+

Entre a bola e as bandeiras políticas, dois países assumidamente homofóbicos devem fazer uma das partidas mais simbólicas da Copa do Mundo de 2026

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Sílvio Tudela

19/01/2026 às 15:17 - há XX semanas
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A Copa do Mundo de 2026 terá em Seattle um de seus capítulos mais emblemáticos e mais controversos. No dia 26 de junho, o duelo entre Irã e Egito, válido pela fase de grupos, será disputado coincidentemente em meio à Pride Weekend, com muitas ações de diversidade, inclusão e combate à discriminação contra as comunidades LGBTQIAPN+. Os organizadores do evento passaram a chamar a partida desta data sob o rótulo de Pride Game (Jogo do Orgulho).


					E o destino colocou Irã e Egito no Jogo do Orgulho LGBTQIAPN+
Foto: Divulgação

Trata-se de um título simbólico para uma partida, segundo vários meios de comunicação. A decisão de nomeá-lo assim foi tomada antes do sorteio das partidas, mas quis o destino que o Jogo do Orgulho coincidisse exatamente com o confronto entre dois países extremamente homofóbicos. Esse fato transformou um jogo aparentemente comum em um campo de tensões políticas, culturais e morais.

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Segundo a lei islâmica (sharia), as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são proibidas no Irã e, em alguns casos, podem ser punidas com a pena de morte. O relacionamento entre pessoas do mesmo sexo não é explicitamente proibido no Egito, mas frequentemente é punido por meio de leis formuladas de maneira vaga que proíbem a “depravação”

A escolha de Seattle não é aleatória. A cidade abriga uma das comunidades LGBTQIAPN+ mais organizadas e visíveis dos Estados Unidos e tradicionalmente celebra, no mesmo período, o Pride Weekend. Os organizadores locais decidiram manter a programação do orgulho fora do estádio com eventos culturais, manifestações e celebrações públicas usando a Copa do Mundo como vitrine global para valores que fazem parte da identidade da cidade e do estado de Washington. A decisão, no entanto, provocou protestos formais das federações de futebol do Irã e do Egito, países onde a homossexualidade é criminalizada ou severamente reprimida, e rejeitaram a ideia de dedicar este jogo à comunidade LGBTQIAPN+.

Do ponto de vista esportivo, trata-se de um confronto relevante para duas seleções que carregam histórias muito distintas na Copa do Mundo. Dentro de campo, portanto, há pressão, expectativa e ambição legítima, pois, no Grupo G, ao lado de Bélgica e Nova Zelândia, o duelo em Seattle pode ser determinante para definir quem seguirá vivo na competição.

O Irã chega à sua sétima participação (1978, 1998, 2006, 2014, 2018, 2022 e agora em 2026), mas nunca passou da fase de grupos.

O Egito, por sua vez, retorna ao Mundial após oito anos e tenta reafirmar sua importância histórica como a primeira seleção africana a disputar uma Copa do Mundo. O país vai disputar seu quarto Mundial (1934, 1990, 2018 e está presente em 2026).

Por trás das bandeiras e símbolos:

Fora dele, porém, o jogo assume outra camada de significado. Ao se oporem publicamente ao “Pride Game”, dirigentes egípcios e iranianos alegam conflito com valores culturais e religiosos. O presidente da Federação Iraniana de Futebol classificou a iniciativa como “irracional” e afirmou que seu país contestará a decisão junto à FIFA. A reação escancara o dilema que acompanha o futebol globalizado: até onde vai o compromisso com a diversidade e onde começa o argumento do respeito às culturas nacionais?

A FIFA, oficialmente, mantém o discurso de neutralidade política e respeito às diferenças, mas também sustenta regras claras contra qualquer forma de discriminação. Ao transferir a responsabilidade das ações para os organizadores locais e limitar sua atuação ao que ocorre dentro do estádio, a entidade tenta caminhar sobre uma linha cada vez mais estreita. Ainda assim, o simples fato de a partida carregar o selo simbólico do orgulho LGBTQIA+ já a transforma em um gesto político, mesmo que nenhum arco-íris esteja pintado no gramado.

Esse embate ganha contornos ainda mais complexos no contexto geopolítico atual. O Irã não mantém relações diplomáticas com os Estados Unidos desde 1980, após a tomada de reféns na embaixada americana em Teerã depois da Revolução Islâmica, e chegou a ameaçar boicotar o sorteio da Copa por dificuldades na concessão de vistos. A presença do país em solo americano já é, por si só, carregada de simbolismo, até porque o momento é bastante tenso e o Irã vive revoltas populares de grandes proporções há mais de 20 dias e ninguém sabe o que pode ocorrer dada a falta de informações e à proibição no uso da Internet. Quando somada às pautas de diversidade e direitos humanos, a partida passa a representar muito mais do que três pontos em disputa.

O “Jogo do Orgulho” de Seattle evidencia, talvez como nenhum outro até agora, o paradoxo do futebol contemporâneo: um esporte que se pretende universal, inclusivo e agregador, mas que inevitavelmente reflete as fraturas do mundo em que está inserido. Para alguns, será apenas mais um jogo decisivo de Copa do Mundo. Para uns, um gesto necessário de afirmação. Para outros, um incômodo.

No fim, o apito final não encerrará o debate. Independentemente do resultado, Irã x Egito já está inscrito como uma das partidas mais simbólicas do Mundial de 2026, uma daquelas em que o peso da história, da política e da sociedade se impõe com a mesma força que a bola rolando no gramado. E diante das confusões geopolíticas do momento, será que este jogo vai acontecer?

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