A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou, mas um fantasma que ninguém queria imaginar passou a rondar o futebol mundial: o medo de uma epidemia se transformar em crise planetária em meio à maior concentração esportiva do planeta. E desta vez, o alerta atende pelo nome de Ebola.
O avanço de um novo surto na República Democrática do Congo, cuja seleção estará na Copa, e em Uganda já provoca impactos diretos na preparação das seleções e na logística do Mundial que será disputado nos Estados Unidos, Canadá e México. Embora autoridades sanitárias tentem evitar alarmismo, o medo de um contágio de proporções inimagináveis deixou há muito de ser tratado como mera hipótese porque o futebol já viveu algo parecido antes e o trauma ainda está muito vivo.
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A principal preocupação neste momento envolve justamente a seleção congolesa. Diante das restrições impostas pelos Estados Unidos para viajantes oriundos de regiões afetadas pelo Ebola, a delegação da República Democrática do Congo precisou cancelar atividades programadas em Kinshasa e transferir integralmente sua preparação para a Bélgica, onde deve cumprir protocolos rígidos de monitoramento sanitário antes da entrada na América do Norte. Na prática, a equipe vive uma espécie de confinamento preventivo.
La situación del ébola es preocupante de cara al Mundial. La selección del Congo tendrá un partido en Guadalajara, otro en Houston y uno en Atlanta. #Loret en @latinus_us pic.twitter.com/emSLsGcUrK
— Carlos Loret de Mola (@CarlosLoret) May 19, 2026
As autoridades americanas determinaram um período de monitoramento de 21 dias para pessoas que estiveram recentemente nas áreas afetadas pelo surto. Isso obrigou dirigentes, jogadores e comissão técnica a reorganizar completamente a preparação para a Copa. Cerimônias de despedida, amistosos locais e eventos com torcedores foram cancelados para reduzir riscos de circulação. Tudo isso em meio a muita discussão.
A FIFA acompanha o caso ao lado da OMS e dos comitês organizadores do torneio. Oficialmente, o discurso é de controle e cautela. Nos bastidores,
porém, cresce o receio de que a Copa possa se tornar um ambiente ideal para aceleração de contágios caso o cenário se agrave.
A República Democrática do Congo retorna a uma Copa do Mundo após 52 anos. Sua última participação ocorreu em 1974 sob o nome de Zaire e chegou, inclusive, a enfrentar o Brasil, com vitória de nossa Seleção por 3 a 0, com gols de Jairzinho, Rivelino e Valdomiro. Nesta edição, o país está no Grupo K com Portugal, Colômbia e Uzbequistão, com partidas distribuídas por cinco cidades nos Estados Unidos e no México: Houston, Cidade do México, Guadalajara, Miami e Atlanta.
O jogo que se transformou na “bomba biológica” da Covid-19
Todo esse temor com relação ao que ocorre na África não nasce da ficção, mas da memória recente da epidemia do novo coronavírus. Isso porque, em 19 de fevereiro de 2020, muito antes de o mundo compreender completamente o tamanho da ameaça da Covid-19, o estádio San Siro, em Milão, recebeu mais de 40 mil torcedores da cidade italiana de Bérgamo para a partida entre Atalanta e Valencia, pelas Oitavas de Final da Liga dos Campeões da UEFA 2019-2020.
O que parecia ser apenas uma noite histórica de futebol acabaria entrando para a história por outro motivo. Naquele momento, o vírus já circulava silenciosamente pelo norte da Itália, especialmente na Lombardia. Milhares de torcedores viajaram em ônibus, trens e caravanas lotadas até Milão. Houve abraços, cantos, bares cheios, comemorações coletivas e contato físico intenso durante horas. Dias depois, Bérgamo se transformaria em um dos maiores símbolos globais da tragédia da Covid-19.
O prefeito da cidade, Giorgio Gori, definiu o jogo de forma brutal como uma “bomba biológica”. A expressão ganhou o mundo porque sintetizava um medo novo, o de que grandes eventos esportivos pudessem funcionar como aceleradores invisíveis de uma epidemia. Jogadores e membros da comissão técnica do Valencia também acabaram infectados. Em pouco tempo, a Europa mergulhou em lockdowns, hospitais colapsaram e funerárias deixaram de suportar a quantidade de mortos.
Hoje, seis anos depois, o futebol encara novamente um cenário de vigilância sanitária global e agora às vésperas de uma Copa do Mundo. Ainda não há, felizmente, qualquer indicação de pandemia semelhante à Covid-19. Especialistas lembram que o Ebola possui formas de transmissão e grau de letalidade muito diferentes. Mas o simples fato de o tema cercar um Mundial já basta para despertar tensões em organizadores, delegações e torcedores.
Principalmente porque a Copa do Mundo representa exatamente o oposto do isolamento: aeroportos lotados, deslocamentos internacionais, festas populares, concentração humana e circulação intensa entre continentes. O futebol moderno, tão globalizado, também se tornou biologicamente vulnerável à própria globalização.
Quando epidemias viraram entretenimento
Muito antes de a Covid-19 parar o planeta, milhões de pessoas já simulavam pandemias em videogames. Lançado em 2012, o jogo Plague Inc. se transformou em fenômeno mundial durante surtos reais de doenças como Ebola e coronavírus. No game, o objetivo do jogador era justamente criar um patógeno capaz de se espalhar pelo planeta e extinguir a humanidade antes que governos encontrassem uma cura.
Logo no início dos contágios e antes de ser classificada como uma pandemia, o interesse pelo jogo explodiu a ponto de sobrecarregar servidores da desenvolvedora. O sucesso abriu espaço para diversos outros títulos inspirados em infestações, vírus e colapsos sanitários, transformando epidemias em tema recorrente da cultura pop contemporânea. A ironia é que aquilo que parecia exagero de videogame acabou se aproximando perigosamente da realidade poucos meses depois.
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