Durante décadas, a convocação da Seleção Brasileira foi mais do que um ato administrativo: era um ritual nacional. A possível lista de chamados mobilizava conversas nas ruas, inflamava debates nos bares e transformava cronistas esportivos em protagonistas de um verdadeiro tribunal popular. Havia expectativa, pertencimento e até uma certa dose de tensão dramática. Quem seria convocado para determinada posição? Qual clube formaria a base? Quem ficaria de fora? Quaishttps://www.ibahia.com/tag/copa-do-mundo seriam as injustiças cometidas pelo treinador? O país inteiro parecia caber naquela lista.
Hoje, esse cenário mudou e se alterou profundamente.
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Apesar de ainda aguardada com certa expectativa por boa parte da torcida, a convocação já não paralisa o Brasil como décadas atrás. Em muitos casos, passa quase despercebida fora dos círculos mais especializados, mas agita as redes sociais. Para as novas gerações, é difícil até imaginar que um anúncio de nomes pudesse gerar tamanha comoção e emocionar tanto. O que aconteceu com esse elo afetivo entre a Seleção e o torcedor?
Parte da resposta está na geografia e nas relações trabalhistas do futebol contemporâneo. A esmagadora maioria dos jogadores brasileiros que são convocados atua fora do país, distribuída entre os principais centros do futebol europeu e, mais recentemente, também em mercados emergentes e altamente capitalizados, como ligas do Oriente Médio. São atletas de elite, indiscutivelmente, que muitas vezes nem chegaram a jogar ou a se firmar no Brasil, mas distantes do olhar cotidiano do torcedor brasileiro médio.
Sem acesso regular (seja por barreiras de transmissão, seja por desinteresse), o público perde familiaridade. Os rostos se tornam menos reconhecíveis, as histórias menos compartilhadas, os vínculos mais frágeis. A Seleção, que antes parecia uma extensão dos clubes nacionais, hoje é um mosaico global, formado por peças que raramente se encontram sob os olhos do seu próprio país. E esse fenômeno foi crescendo a cada Copa do Mundo, principalmente a partir dos anos 1990. Começou de forma tímida, com dois ou três jogadores que atuavam no exterior, evoluíram para seis, dez e hoje representam quase a totalidade dos convocáveis.
A recente convocação para amistosos contra França e Croácia, com apenas três jogadores atuando no Brasil, escancara esse novo paradigma. Mas é importante notar: não se trata de uma particularidade brasileira. O futebol, como indústria, tornou-se essencialmente transnacional. Seleções do mundo inteiro vivem realidade semelhante. Jogadores formados em seus países ganham o mundo e se reencontram apenas em datas específicas, muitas vezes como adversários de companheiros de clube.
Diante desse cenário, surgem perguntas inevitáveis e incômodas.
O que significa torcer por uma Seleção cujos protagonistas são, em grande parte, desconhecidos do público local? É possível manter o mesmo nível de identificação emocional sem a convivência simbólica que os campeonatos nacionais proporcionavam? A globalização fortaleceu tecnicamente as equipes cada vez com mais estrangeiros, mas enfraqueceu o sentimento de pertencimento?
E mais: será que o futebol de seleções, tal como conhecíamos, está perdendo espaço para o protagonismo absoluto dos clubes? Ou estamos apenas diante de uma transformação inevitável, que exige novas formas de conexão entre time e torcida?
Talvez a convocação não pare mais o Brasil como antes, mas o silêncio e a pouca emoção que a cerca hoje dizem tanto quanto o barulho de antigamente.
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