A demissão de Filipe Luís do comando do Flamengo, mesmo após uma goleada histórica por 8 a 0 sobre o Madureira na semifinal do Campeonato Carioca (11 a 0 no placar agregado) expôs mais uma vez uma das contradições mais persistentes do futebol brasileiro: a incapacidade estrutural de sustentar projetos técnicos, mesmo quando eles apresentam resultados.

A decisão da diretoria rubro-negra ocorreu em meio a uma temporada marcada por oscilações. O Flamengo fez campanha irregular no Campeonato Carioca, chegou a flertar com um cenário improvável de rebaixamento nas primeiras rodadas e sofreu dois golpes simbólicos no início do ano: a derrota na Supercopa do Brasil para o Corinthians e a perda da Recopa Sul-Americana diante do Lanús. Ainda assim, o treinador conseguiu recolocar a equipe na decisão estadual - algo que, em outras circunstâncias, poderia ter sido interpretado como sinal de forte recuperação.
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Nos bastidores do clube, porém, o ambiente já parecia deteriorado, tanto que o treinador foi apagado das redes sociais entre o início do Campeonato Brasileiro deste ano até a sua demissão. Dirigentes apontavam dúvidas sobre o rendimento da equipe, questionavam a liderança do jovem treinador diante de um elenco repleto de jogadores consagrados e passaram a enxergar com desconfiança rumores de conversas de Filipe Luís com um clube inglês. Não tanto, mas nas entrelinhas deixaram claro que o Flamengo poderia conquistar mais, o que ainda não se sabe o que é. A combinação desses fatores foi suficiente para encerrar um trabalho que, paradoxalmente, apresentava conquistas relevantes e uma proposta de jogo considerada moderna.
O episódio revela mais sobre a cultura administrativa do futebol brasileiro do que propriamente sobre o desempenho do treinador. A lógica predominante segue sendo a do resultado imediato - muitas vezes interpretado de forma seletiva - e da gestão baseada na pressão política e emocional do ambiente.

Não é a primeira vez que um técnico campeão descobre que troféus não são garantia de estabilidade. Vindo da própria equipe em que encerrou a carreira, em 2023, Filipe Luís foi treinador do Sub-17 e do Sub-20 antes de ser efetivado no comando do time principal no qual conquistou Copa do Brasil em 2024 e no ano seguinte a Supercopa do Brasil, o Campeonato Carioca, o Campeonato Brasileiro, a Libertadores da América, o Dérbi das Américas e a Copa Challenger (ambos da FIFA). Em termos individuais, em 2024, foi considerado o melhor treinador da Copa do Brasil e em 2025 como o melhor técnico do Campeonato Carioca e o Treinador Sul-Americano do Ano. Recebeu o Troféu Mesa Redonda como o melhor comandante da temporada e foi incluso na lista dos 10 Melhores Treinadores do Mundo (IFFHS).
Casos recorrentes no Flamengo
Basta lembrar o caso de Dorival Júnior, que deixou o próprio Flamengo em 2022, poucos meses depois de conquistar a Copa do Brasil e a Libertadores da América. A decisão surpreendeu torcedores e analistas, mas refletiu a tendência de substituições abruptas mesmo após campanhas históricas.
Outro exemplo emblemático foi o de Adenor Leonardo Bachi (Tite), que acumulou títulos e enorme respaldo popular no Corinthians e foi alçado à Seleção Brasileira por duas Copas do Mundo (2018 e 2022) antes de enfrentar períodos de profundo desgaste no Flamengo e atualmente no Cruzeiro que pareciam ignorar a consistência de seu trabalho. No Brasil, vitórias passadas costumam envelhecer rapidamente.
A trajetória de Fernando Diniz também ilustra bem essa instabilidade. Mesmo após conduzir o Fluminense a um dos títulos mais importantes (e improváveis) de sua história recente, o treinador continuou convivendo com questionamentos recorrentes sobre estilo de jogo e resultados.
Já Renato Gaúcho viveu situações semelhantes no Grêmio e também no Flamengo: idolatria em períodos de conquistas e críticas ferozes quando a sequência de resultados se interrompe.
A sucessão de episódios sugere que, no Brasil, o cargo de treinador é muitas vezes tratado como variável de ajuste para crises que, na prática, têm origem em estruturas administrativas, planejamento esportivo ou montagem de elenco.
Exceções à regra...
Há, no entanto, exceções que ajudam a explicar como a estabilidade pode produzir efeitos diferentes.
O caso mais evidente é o de Abel Ferreira no Palmeiras. Desde 2020 no clube, o treinador português construiu um dos ciclos mais longevos e vencedores do futebol brasileiro recente. O sucesso se explica não apenas pelos títulos, mas pela confiança institucional que lhe permite atravessar momentos de instabilidade junto a diretores e a torcida sem que cada derrota se transforme em crise existencial.
Algo semelhante ocorre com Rogério Ceni no Esporte Clube Bahia, onde o trabalho vem sendo sustentado por uma estrutura administrativa mais alinhada a modelos de gestão corporativa. A continuidade, nesse contexto, não é vista como risco, mas como parte do projeto esportivo.
Esses casos sugerem uma diferença fundamental: quando o clube possui planejamento claro e governança mais estável, o treinador deixa de ser o único responsável pelo destino esportivo da equipe. No ambiente tradicional do futebol brasileiro, porém, a lógica ainda parece invertida. Técnicos jovens e inovadores são celebrados quando vencem, mas rapidamente expostos quando a curva de desempenho oscila - algo inevitável em qualquer temporada.
A demissão de Filipe Luís, portanto, pode ser interpretada menos como um julgamento definitivo sobre seu trabalho e mais como mais um capítulo de uma cultura que ainda trata projetos esportivos como episódios curtos. No Brasil, o técnico raramente é demitido apenas pelos resultados. Na grande maioria das vezes, ele paga o preço pela ansiedade estrutural do próprio sistema que o emprega.
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