iBahia Portal de notícias
icone de busca
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Tabus, Tretas e Troças

Fim das bets: saúde mental vence, e o futebol 'acaba' de novo

Saída das casas de apostas abre buraco comercial relevante e força clubes a abandonar a dependência de um dinheiro que chegou fácil e cresceu demais

foto autor

Sílvio Tudela •

- há XX semanas
Google News iBahia no Google News Google Adicionar como fonte preferida no Google

O futebol brasileiro tem uma tradição curiosa. De tempos em tempos, alguma mudança aparece e imediatamente surge alguém anunciando o seu fim. A profissionalização acabaria com o romantismo, a criação dos campeonatos nacionais destruiria os estaduais, os pontos corridos matariam a emoção, a redução das datas dos estaduais acabaria com a tradição, a venda de jogadores para o exterior desmontaria os grandes clubes, as SAFs transformariam os times em empresas sem alma. Agora chegou a vez das bets.


					Fim das bets: saúde mental vence, e o futebol 'acaba' de novo
Foto: IA

A proibição das apostas de cota fixa, determinada pela Medida Provisória 1.394, de 25 de setembro, atinge uma fonte de dinheiro muito fácil que ganhou espaço em velocidade impressionante no futebol brasileiro. Entre 2024 e 2025, os valores pagos pelo setor aos 20 maiores clubes saltaram de R$ 618 milhões para R$ 1,14 bilhão. A receita total de marketing dessas equipes chegou a R$ 3,2 bilhões, aproximadamente 34% desse segmento. É muito dinheiro, mas daí a concluir que a proibição das bets significa o fim do futebol brasileiro há uma distância enorme.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Leia também:

No cenário atual, é possível afirmar que o crescimento de 45% das receitas de marketing em 2025 foi fortemente influenciado pelos pagamentos das bets, que, segundo a consultoria Sports Value, estavam acima dos valores oferecidos por outros setores. Em alguns clubes, a dependência foi significativa. Entre os valores individualizados pela consultoria, o Flamengo recebeu R$ 269 milhões em patrocínios de apostas em 2025, o Corinthians, R$ 150 milhões, o São Paulo, R$ 113 milhões, e o Palmeiras, R$ 100 milhões. Mais revelador que o valor absoluto é o peso dentro do marketing: as apostas representaram 73% da receita de marketing do São Paulo, 69% no Atlético-MG, 57% no Botafogo, 54% no Corinthians, 50% no Flamengo e 49% no Santos.

O problema real não é a camisa ficar sem uma marca, mas substituir, rapidamente, uma categoria inteira de anunciantes que passou a pagar patrocínios muito elevados. Em valores absolutos, Flamengo e Corinthians aparecem entre os mais expostos, seguidos por São Paulo e Palmeiras. Em termos de dependência relativa do marketing, entretanto, São Paulo, Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Flamengo e Santos aparecem entre os casos mais sensíveis. Antevendo a iminência da medida e querendo defender seus interesses, clubes de futebol do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Sindicato dos Atletas e a Fenapaf divulgaram um comunicado sobre o risco de mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas, que podem acarretar o fim do futebol brasileiro.

Isso não significa que todos estejam diante de uma crise financeira provocada exclusivamente pelo fim das bets, pois o peso de um patrocínio precisa ser analisado junto com receitas de televisão, bilheteria, sócios, premiações, transferências, custos e endividamento. Até porque perder uma receita não significa necessariamente deixar de ter a mesma quantia no orçamento final, pois o espaço comercial pode ser ocupado por outra empresa. O problema é quanto essa nova marca estará disposta a pagar e quanto tempo será necessário para encontrá-la.

Os não dependentes

Mirassol e Red Bull Bragantino são apontados como os únicos clubes da Série A que não tiveram uma bet como patrocinadora master nas temporadas de 2025 e 2026. Alguns clubes que hoje aparecem como exemplos de uma possível “sobrevivência sem bets” já passaram exatamente por isso: Athletico, Bahia, Coritiba e Internacional chegaram a ter casas de apostas como patrocinadoras principais e encerraram esses vínculos antes da MP.

Ou seja, a saída das bets não inaugura uma experiência inédita, mas amplia para boa parte dos grandes clubes uma situação que alguns já enfrentaram: encontrar outras fontes para preencher o espaço comercial deixado por esse setor. E isso deveria ser encarado menos como tragédia e mais como teste de capacidade comercial, pois o futebol não precisa (e nem deveria precisar) de uma única fonte de renda.

Se uma categoria de patrocinador consegue representar metade da receita de marketing de uma instituição, o problema não está apenas na categoria que saiu, mas no grau de concentração da carteira comercial. Até porque os clubes precisam negociar mais do que a camisa. Necessitam vender audiência, conteúdo, experiência, estádio, relacionamento com torcedores, propriedades digitais, licenciamento, produtos, hospitalidade, eventos, internacionalização da marca e projetos associados às categorias de base e ao futebol feminino. Precisam também melhorar a capacidade de entregar métricas aos patrocinadores, porque uma empresa não compra apenas um espaço no uniforme, mas acesso a uma comunidade e resultados.

Um mundo sem bets

O relatório Deloitte Football Money League 2026 mostra que os 20 clubes de maior receita do futebol mundial ultrapassaram € 12,4 bilhões em faturamento na temporada 2024/2025. As receitas comerciais chegaram a € 5,3 bilhões e foram a principal fonte de recursos pelo terceiro ano consecutivo. Não é apenas uma questão de ter um patrocinador forte, mas uma máquina comercial diversificada.

Se tomarmos os dez clubes mais valiosos do mundo em 2026, segundo a Forbes (Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Liverpool, Paris Saint-Germain, Bayern de Munique, Manchester City, Arsenal, Chelsea e Tottenham), encontramos organizações com marcas comerciais espalhadas por diferentes setores.

O Real Madrid, por exemplo, renovou sua parceria principal com uma companhia aérea até 2031. O Arsenal também estendeu sua negociação com a mesma empresa até 2033. Manchester United tem uma organização de tecnologia como principal patrocinadora da camisa; Liverpool acaba de anunciar uma companhia aérea para assumir a propriedade a partir de 2027; Tottenham mantém uma seguradora como principal parceira até o fim da temporada 2026/27. Importante destacar que nenhum desses gigantes construiu sua sustentabilidade comercial dependendo de uma única categoria de anunciante, e essa é a lição que interessa ao Brasil.

Mudança saudável para o mercado esportivo

O fim das bets não significa o fim do dinheiro, porque bancos, seguradoras, empresas de tecnologia, montadoras, companhias aéreas, varejistas, empresas de alimentos, telecomunicações e marcas de consumo continuam tendo interesse potencial no futebol. Mas há uma diferença entre existir dinheiro e disposição para investi-lo, porque os clubes terão de provar que conseguem entregar retorno, o que não era um fator tão determinante assim para as bets.

Durante alguns anos, o dinheiro das apostas ajudou a inflacionar determinadas propriedades comerciais. Com a retirada desse setor, os clubes terão de voltar a disputar patrocinadores em um mercado no qual a marca, a audiência, a capacidade de ativação e o retorno comercial precisam justificar o preço. O caminho passa também pela redução de custos, pois os 20 maiores clubes brasileiros movimentaram R$ 15 bilhões em receitas em 2025, mas terminaram o ano com déficit conjunto de R$ 1,1 bilhão. Portanto, substituir patrocínio sem rever despesas seria apenas trocar o problema de lugar.

Uma questão maior que o futebol: o jogo patológico

A MP agora em tramitação no Congresso Nacional não foi criada para resolver a contabilidade do futebol. Ela nasceu de uma discussão mais ampla sobre apostas, endividamento, perda de renda, problemas familiares e afastamentos do trabalho, proteção de consumidores, fiscalização e, principalmente, comprometimentos severos na saúde mental. O texto da medida proíbe exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de cota fixa, inclusive apostas esportivas e jogos on-line. Também determina a retirada de publicidade e patrocínios em até dez dias e prevê mecanismos para bloquear transações financeiras relacionadas ao setor.

Isso não elimina o debate econômico nem as críticas à política pública. O Flamengo, por exemplo, argumentou que a proibição pode ampliar o mercado ilegal e reduzir arrecadação e fiscalização, citando estimativas de que uma parcela relevante das apostas já ocorreria em plataformas clandestinas. Essa é uma posição do clube e uma questão que a implementação da medida terá de enfrentar. Diversos outros clubes se manifestaram nas redes sociais, posicionando-se contra o fim das apostas.

A existência desse contraponto, porém, não muda uma constatação: o futebol não pode ser utilizado como argumento para ignorar uma discussão de saúde pública.

O fim das bets pode provocar uma queda importante e imediata das receitas comerciais de determinados clubes. Certamente via obrigar a renegociação de contratos, revisão de orçamentos e redução de despesas. Deve até acelerar a crise de quem já opera no limite, mas também pode produzir um movimento que o futebol brasileiro deveria ter iniciado há muito tempo: diversificar suas receitas e parar de confundir dinheiro abundante com modelo econômico sustentável. E esse movimento é saudável.

A camisa continuará existindo. O torcedor continuará comprando ingresso. A televisão continuará querendo transmitir os campeonatos. Empresas continuarão querendo associar suas marcas aos grandes clubes. Jogadores serão vendidos para outros clubes. E o futebol continuará produzindo audiência. O que muda é quem pagará pela festa e quanto. Não pode ser o torcedor.

Participe do canal
no Whatsapp e receba notícias em primeira mão!

Acesse a comunidade
Acesse nossa comunidade do whatsapp, clique abaixo!

Tags:

Mais em Tabus, tretas e troças com Sílvio Tudela