O Carnaval sempre foi o território simbólico da inversão, da fantasia e da suspensão momentânea da ordem. Mas, neste 2026, o que se viu no ambiente esportivo foi menos fantasia e mais revelação. Foram vários episódios de uma comprovação de um traço persistente, incômodo e profundamente enraizado: a convicção de que o crime pode ser seguido por uma desculpa protocolar e que isso basta.

Um dos casos envolveu o brasileiro Vinícius Júnior, novamente alvo de racismo, durante partida de ida do Real Madrid contra o Benfica pela Champions League. Mais uma vez, o roteiro se repetiu com precisão perturbadora. Após o episódio, o agressor, o argentino Gianluca Prestianni, recorreu ao manual clássico das desculpas vazias: primeiro disse que não teve nenhuma atitude racista e que a briga verbal (com a camisa à frente da boca, provavelmente para não criar provas contra si mesmo) faz parte do calor de jogo. Os atletas do Real Madrid saíram em defesa de Vini Jr. O francês Kylian Mbappé chegou a dizer que ouviu o argentino chamar o brasileiro de macaco por cinco vezes e Aurélien Tchouaméni apontou que o argentino chamou o seu colega de equipe de "maricón" e não de "mono", como se isso também não fosse condenável. A equipe madrilenha se posicionou contra o ato racista expondo faixas nas arquibancadas no jogo de volta.
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Dizer que “não houve intenção”, que “foi mal interpretado”, que “era coisa do calor do jogo” é uma fórmula bastante conhecida. O racismo, curiosamente, nunca é assumido como tal. É sempre um mal-entendido, uma metáfora involuntária, uma piada sem maldade. O problema, ao que parece, é sempre atribuído à vítima, incapaz de compreender o suposto espírito esportivo da ofensa.
O problema do racismo não acontece somente na Liga Espanhola e contra Vinicius Júnior, como parece ser pelas notícias veiculadas na mídia. No Brasil, o goleiro Hugo Souza, do Corinthians, também foi alvo de insultos racistas vindos de torcedores da Associação Portuguesa de Desportos durante as Quartas de Final do Campeonato Paulista. A denúncia, registrada pelas câmeras de televisão e pelos torcedores, feita por sua esposa, Rauany Barcellos, expôs nas redes sociais não apenas o ato em si, mas a reação subsequente ou a falta dela.
O episódio ganhou contornos ainda mais simbólicos quando o ex-goleiro Marcos Roberto Silveira Reis, ídolo histórico do Palmeiras e pentacampeão pela Seleção Brasileira, tratou o caso com ironia nas redes sociais, sugerindo exagero ou vitimismo, ao diminuir a gravidade do caso de racismo com emojis de gargalhadas nos comentários. Não houve ali um insulto direto, mas algo talvez mais revelador: a banalização do racismo como fenômeno menor, desmerecedor de indignação plena. A desculpa, quando veio, seguiu o padrão: “São Marcos” disse que foi uma zoeira, que foi mal interpretado, que não quis ofender e que pedia desculpas aos que se sentiram ofendidos.
Em Salvador, na semana que passou, o episódio envolvendo jogadores do Esporte Clube Bahia durante o confronto contra o Club Deportivo O'Higgins pela fase de classificação à Libertadores da América, na Arena Fonte Nova, escancarou novamente o problema em sua forma mais primitiva. Um torcedor da equipe chilena foi identificado por meio de câmeras de monitoramento do estádio imitando um macaco em direção aos atletas brasileiros. Não há ambiguidade possível nesse gesto. Ainda assim, a reação seguiu o script habitual: lamentou-se o ocorrido, pediu-se desculpas se alguém se sentiu ofendido, como se a ofensa dependesse da sensibilidade de quem a recebe, e não da violência de quem a pratica. O torcedor foi preso e mantido assim após audiência de custódia realizada na última sexta-feira.
Mulheres vítimas de machismo e sem direito à opinião
O mesmo padrão de desculpas se repetiu em outro registro, desta vez envolvendo o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, na partida contra o São Paulo, pelas Quartas de Final do Campeonato Paulista, após ofensas dirigidas à arbitragem feminina em partida oficial: “Primeiramente, eu quero falar da arbitragem porque não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Era o sonho da gente chegar à Semifinal ou até à Final, mas ela acabou com o nosso jogo. Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher. Todo respeito às mulheres do mundo, eu sou casado, eu tenho minha mãe, então desculpa se estou falando alguma coisa para as mulheres.”.
O desrespeito, quando confrontado, transformou-se em arrependimento performático ou estratégia de reversão de marketing negativo. Disse-se que foi “coisa do jogo”, que “não representa quem ele é”. Mas representa, porque as ciências da mente humana afirmam que o que se diz sob pressão é frequentemente o que se pensa sem filtros.
Nem mesmo fora das quatro linhas o padrão se altera quando as mulheres tentam expressar sua voz. A jogadora de vôlei Carol Solberg foi suspensa nesta semana pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) após comemorar a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro durante uma etapa do Circuito Mundial disputada no fim de 2025. Aqui, a lógica se inverte: não houve ofensa racial ou de gênero, mas opinião. Ainda assim, a punição veio, evidenciando que o esporte é mais eficiente em conter vozes dissonantes do que em erradicar discriminações estruturais, como o machismo, o racismo e a homofobia.
Quando o machismo vem do presidente dos Estados Unidos
Os contrastes entre homens e mulheres tornaram-se ainda mais evidentes quando se observa o episódio envolvendo as seleções masculina e feminina de hóquei no gelo dos Estados Unidos. Após conquistas históricas nos Jogos de Inverno, nesta semana, o presidente Donald Trump telefonou primeiro para os homens, convidando-os para o tradicional State of the Union. Ao mencionar as mulheres, o fez em tom de deboche, sugerindo que se elas ganhassem também teria de convidá-las “para não sofrer consequências”.
As gargalhadas no vestiário masculino foram espontâneas, naturalizando a discriminação. A recusa posterior da seleção feminina em participar do evento, comunicada pela USA Hockey, mesmo com a informação de incompatibilidade de agendas, foi igualmente eloquente, pois nem sempre o silêncio é submissão e, muitas vezes, significa exatamente o que é: recusa. Após a equipe feminina dispensar o convite, o time masculino se encontrou com o presidente dos Estados Unidos. Não houve solidariedade.
And no, we're not tired of winning yet. pic.twitter.com/mrKYmBvGPN
— The White House (@WhiteHouse) February 24, 2026
As desculpas vazias
O que une todos esses episódios não é apenas a ofensa original, mas o ritual que vem depois. A desculpa sem substância. O pedido de perdão que não reconhece o erro, apenas sua repercussão. O agressor não se arrepende do que fez, mas do constrangimento que sofreu. É o racismo sem racistas. O machismo sem machistas. A violência sem culpados.
Vivemos a era da desculpa preventiva, aquela que já nasce com prazo de validade curto. “Não foi minha intenção.” “Se alguém se sentiu ofendido.” “Foi só uma brincadeira.” São frases que não buscam reparar o dano, mas preservar a imagem de quem o causou.
O esporte, que tantas vezes se orgulha de ser símbolo de superação e igualdade, continua sendo também um espelho fiel das desigualdades que insiste em não superar. E talvez o aspecto mais perturbador não seja o ato em si, mas a convicção de que pedir desculpas, mesmo sem arrependimento, ainda é suficiente. Não é mais. E nunca foi.
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