Futebol, afeto e a masculinidade que ainda precisa se explicar
Abraços, rostos colados e beijos trocados após o bi da Espanha viralizaram nas redes sociais em perfis que torcem por romance entre os jogadores

Durante semanas, a Copa do Mundo 2026 discutiu carrinhos violentos, empurrões, provocações, cotoveladas, invasões de campo e árbitros acuados por jogadores cercando suas decisões, além dos prognósticos de quem chegaria à decisão. Quase nada disso provocou tanto burburinho nas redes sociais nos dias seguintes quanto algumas imagens de jogadores espanhóis comemorando o título com abraços demorados, rostos colados e beijos na testa após a final do torneio. O motivo é mais que justo: a Espanha é bi!
A final entre Espanha e Argentina acabou simbolizando algo que ia muito além do futebol. De um lado, uma seleção argentina que fez da intensidade física parte de sua identidade competitiva. Faltas duras, pressão constante sobre a arbitragem, confrontos verbais, provocações e um jogo emocional levado ao limite acompanharam praticamente toda a campanha. Do outro, uma Espanha que respondeu quase sempre com circulação de bola, inteligência coletiva e uma celebração que chamou atenção não pela euforia agressiva, mas pela intimidade e parceria entre seus jogadores. O contraste foi poderoso e talvez represente um dos retratos mais fiéis do futebol, pois a sociedade ainda aceita com relativa naturalidade a violência masculina, mas vê como algo escandaloso o carinho entre homens, mesmo em 2026.
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Durante anos repetiu-se quase como uma caricatura que os argentinos gostam de dizer que são "europeus nascidos na América", enquanto os espanhóis seriam os mais "latinos" entre os nativos do Velho Continente. Naturalmente, trata-se de um estereótipo incapaz de explicar sociedades inteiras. Mas, curiosamente, na decisão do Mundial, essa imagem pareceu inverter alguns papéis construídos historicamente. A Argentina apresentou um futebol de força física que valorizava o enfrentamento permanente, ao modo europeu. A Espanha respondeu valorizando o coletivo, bailando de um lado para o outro e abrindo brechas para o talento individual aparecer. Enquanto um grupo parecia precisar demonstrar rigidez o tempo inteiro, o outro parecia seguro e extremamente confortável para demonstrar afeto.
Sexualidades em debate nas redes sociais

Não por acaso, as imagens de Ferran Torres, autor do único gol da final e consequentemente do bicampeonato espanhol, comemorando com seus companheiros rapidamente passaram a circular muito além das páginas esportivas. Em poucas horas, as redes sociais pelo mundo deixaram o resultado em campo um pouco de lado para questionar outra coisa: a sexualidade dele e dos demais atletas. Não porque existisse qualquer declaração do jogador ou um fato por si só. Mas porque, aparentemente, para muita gente, dois homens demonstrando carinho ainda precisam ser explicados.
A efusiva comemoração em campo e as irreverentes celebrações dos jogadores entre si e com a torcida na capital espanhola viraram objetos de observação contida, mas também de apoio à demonstração de afeto.
As especulações nas redes sociais se intensificaram após a publicação de fotos de férias de Ferran Torres com o colega de seleção Marcos Llorente com gestos de carinho e proximidade em um iate.
Por mais que tenha se tentado criar uma narrativa, não existem namorados ou relacionamentos homoafetivos confirmados envolvendo o jogador Ferran Torres, que terminou um namoro em meio à Copa do Mundo, e nenhum romance com Marcos Llorente, que é casado e tem um filho. E se houvesse provavelmente seria bem-vindo. Verdade seja dita: houve até mais pessoas apoiando a liberdade para os atletas que ataques a eles.
Para quem acompanhou o assunto, foi possível perceber até mesmo que vieram à tona suposições sobre um romance entre Ferran Torres com o meio-campista Pedro González López, o Pedri, também do time campeão. Não demorou muito para recuperarem perfis com fã-clube informal que há tempos shippa os dois jogadores, como “Pedran”, “Perran” e “Fedri” e que tem até a hashtag #Fedri no antigo Twitter na qual se encontram vários vídeos carinhosos entre os dois, na qual os internautas fazem as suas apostas sobre o que acontece.
A bebida sempre entrega certeza que no primeiro video o Ferran foi pra beijar o Pedri mas ele percebeu e desviou entregando a taça. FERRAN É MUITO CANALHA#Fedri pic.twitter.com/YdQvRBhy2H
— nah (@celebrith_) July 21, 2026
A verdade é que são bonitos, talentosos e jovens, e tudo sobre eles atrai ainda mais a atenção. Mas seria esse interesse algo realmente espontâneo ou, na verdade, um flerte com a homofobia?
Modelos de masculinidade em conflito
É curioso perceber que o funcionamento dessa lógica é perverso. Um goleiro pode intimidar adversários. Um zagueiro pode distribuir cotoveladas. Um atacante pode insultar o árbitro. Um treinador pode quebrar objetos no banco. Tudo isso permanece dentro daquilo que convencionamos chamar de "raça", "personalidade" ou "espírito competitivo". Mas basta um abraço um pouco mais demorado para surgir uma avalanche de perguntas.
O futebol talvez seja o último grande território da masculinidade tradicional e, não por acaso, continua sendo um dos poucos ambientes profissionais de enorme exposição pública onde praticamente inexistem atletas homens assumidamente gays em atividade. Estatisticamente, isso simplesmente não faz sentido. O que existe é uma cultura construída durante décadas em que o silêncio passou a funcionar como mecanismo de sobrevivência.
A frase "O que acontece no vestiário fica no vestiário" resume bem esse universo. Ela não fala apenas de privacidade, mas de uma cultura que ensina homens, desde muito jovens, que sentimentos precisam ser escondidos, vulnerabilidades devem ser negadas e qualquer gesto que possa ser interpretado como delicadeza representa um risco.
Mas essa lógica produz aquilo que a psicologia contemporânea costuma chamar de masculinidade tóxica e não porque ser masculino seja um problema, mas porque determinados modelos de masculinidade transformam sensibilidade em fraqueza e agressividade em virtude.
Imagens simbólicas
Em 2022, na final da Copa do Mundo, o argentino Emiliano Martínez transformou a cerimônia de premiação numa enorme provocação ao fazer um gesto obsceno com o troféu da Luva de Ouro diante do planeta inteiro. A cena virou meme, fantasia de Carnaval, campanha publicitária e símbolo da irreverência argentina. Houve severas críticas também, mas elas rapidamente foram absorvidas pelo argumento de que fazia parte da personalidade do goleiro e do espírito da festa.
Quatro anos depois, o gesto que mais mobilizou debates após a Copa do Mundo não é um ato obsceno, mas demonstrações de carinho. E essa inversão talvez diga muito sobre nós, pois o futebol sempre vendeu uma ideia específica de homem: o guerreiro, o líder, o provedor, o vencedor, o que suporta dor, o que nunca chora, o que jamais demonstra fragilidade.
Mas basta lembrar algumas das imagens mais marcantes da história dos mundiais para perceber como essa narrativa sempre foi incompleta. Pelé chorando copiosamente em 1958. Taffarel ajoelhado no Tetracampeonato em 1994. Ronaldo desabando após o Pentacampeonato em 2002. O próprio Lionel Messi, bastante emocionado, sendo carregado pelos companheiros em 2022, e agora em lágrimas pela derrota em 2026. Todas são imagens profundamente emocionais que jamais diminuíram a grandeza daqueles atletas e que, ao contrário, humanizaram seus heróis.
Mudança geracional
Os jogadores que hoje chegam às seleções cresceram num mundo onde a amizade masculina pode ser demonstrada com mais liberdade do que há vinte ou trinta anos. Muitos pertencem a uma geração menos preocupada em provar masculinidade a cada gesto e mais confortável para viver relações de afeto sem a necessidade de justificá-las.
Isso não significa que o futebol tenha resolvido seus tabus e estamos muito longe disso. O esporte continua convivendo com cânticos homofóbicos, insultos baseados na orientação sexual, ausência quase completa de atletas assumidos e um ambiente em que a masculinidade ainda costuma ser medida pela capacidade de intimidar o adversário.
Mas talvez exista uma pequena fresta e ela apareceu justamente na maior vitrine do planeta. Não porque alguém tenha assumido qualquer orientação sexual (o que por si só jamais representaria um problema), nem porque o futebol tenha se tornado subitamente um espaço inclusivo. Mas porque, pela primeira vez, milhões de pessoas passaram dias discutindo, apoiando e criticando, se homens poderiam simplesmente demonstrar carinho um pelo outro sem que isso precisasse ser interpretado como escândalo ou provocação.
Quem sabe esse seja o verdadeiro gol desta Copa. Não o que decidiu somente um título, mas aquele que começou a derrubar uma das últimas muralhas que ainda cercam o futebol, porque, no fim das contas, a questão nunca foi um gesto afetuoso. O problema sempre foi o medo que muitos homens aprenderam a sentir diante da possibilidade de abraçar outro homem sem que isso signifique mais do que isso.
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