Futebol X Fé: descubra quais são os ‘santos’ que estão em campo no cenário nacional


Chegamos ao 13 de junho, data em que se homenageia Santo Antônio, o primeiro dos santos celebrados nas festas juninas e um dos mais queridos do Brasil. Ele é considerado “o padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos idosos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é invocado para achar coisas perdidas, para conceber filhos, para evitar naufrágios e para conseguir casamento”. E além de tudo isso, é o santo protetor da Chapecoense e da cidade de Chapecó, em Santa Catarina.

Mas se você está se perguntando o que isso tem a ver com um espaço para falar sobre futebol, basta observar que este esporte, pela paixão que desperta, é muitas vezes comparado ou se mistura com as características de uma religião, possuindo símbolos, trajes especiais, hinos e canções de louvor, e até santos padroeiros para seu clube.

Há uma história com contornos praticamente místicos envolvendo futebol e religião nas vésperas da final da Copa do Mundo de 1958. O Brasil vinha jogando muito bem e deixando pelo caminho um a um dos seus adversários usando a camisa verde e amarela, recentemente adotada. Mas, em função de um sorteio, foi obrigado a mudar, justamente na final, para o azul e branco, para ceder as suas cores à equipe sueca.

Foto: Divulgação / Arquidiocese de Salvador

Para quem não sabe, antes de 1954, a Seleção Brasileira usava uniforme completamente branco, com um friso azul em cada manga, mas essa associação de cores ganhou a fama de azarada por causa dos fiascos internacionais e pelo desfecho trágico no Mundial de 1950. Preocupado com a superstição criada e o medo aparente dos jogadores brasileiros, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, teria dito, para tranquilizar os atletas, que o segundo uniforme traria sorte, pois era da cor do manto de Nossa Senhora Aparecida. O Brasil fez 5 a 2 na Suécia e conquistou seu primeiro campeonato mundial.

Originária do latim, a palavra “padroeiro” significa defensor ou aquele que protege. E num país diversificado como o Brasil, porém com maioria católica, a razão da escolha de um santo como padroeiro de um clube pode surgir por um motivo bairrista ou regional, por causa de uma data específica ou até mesmo eleito pela popularidade do santo entre os torcedores e dirigentes.

A começar pelos grandes clubes paulistas, São Jorge é o padroeiro do Corinthians, com o qualse relaciona de diversas formas. Sua sede social, chamada de Parque São Jorge, fica na rua de mesmo nome. E há também o vínculo histórico com o Corinthian Football Club, time inglês que excursionou pelo Brasil e inspirou a fundação do Timão em 1910. O santo guerreiro é o protetor da equipe e da própria Inglaterra.

O Santos Futebol Clube possui duas santas de devoção: Santa Rita de Cássia (oficial) e Nossa Senhora do Monte Serrat (padroeira da cidade e adotada pelo ex-presidente do clube, Marcelo Teixeira, que a reconheceu também como defensora do time por ser um fervoroso devoto).

San Gennaro é o padroeiro do Palmeiras e um dos santos mais cultuados na Itália e entre a colônia que forma boa parte da torcida. Conta a tradição que, antes de sua morte, alguns fiéis recolheram o sangue do mártir, que até hoje é guardado como relíquia. E quando é exposto, uma vez por ano, o material que está sólido passa para o estado líquido, sua cor se transforma e seu volume fica com o dobro do peso.

Foto: Reprodução

Já o São Paulo, fundado em 1930, tem o seu padroeiro no próprio nome que homenageia a cidade e o estado em que nasceu, confirmando a justificativa histórica e geográfica, pois o clube foi criado num momento de grande efervescência política, que teve como ápice o Movimento Constitucionalista [ou Separatista do Brasil, a depender do ponto de vista] de 1932.

Entre os cariocas que misturam os esportes aquáticos e o futebol praticamente desde a sua fundação confundindo quem é mais antigo, o Flamengo vivia um jejum de nove anos sem título quando Padre Goés, pároco da Igreja de São Judas Tadeu, ofereceu uma missa ao santo e nos anos de 1953, 1954 e 1955 se consagrou tricampeão estadual. A fé em São Judas se consolidou e, até hoje, todos os anos, o elenco mantém a tradição de ir à igreja do Cosme Velho ou rezar uma missa na Gávea em homenagem ao padroeiro do clube.

O Fluminense tem Nossa Senhora da Glória (oficial) e João Paulo II como padroeiros. Isso porque a canção “A Benção, João de Deus”, composta em homenagem ao Papa quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 1980, foi adotada pela torcida tricolor e é cantada, até os dias de hoje, durante os jogos, para elevar o ânimo e trazer sorte aos tricolores.

Celebradíssima pela Igreja Católica, Nossa Senhora da Conceição é a padroeira do Botafogo, por relembrar a data em que houve a fusão do clube de regatas com o de futebol, em 08 de dezembro de 1942.

O Vasco da Gama, por sua vez, tem como santos protetores Nossa Senhora das Vitórias, que possui uma capela entre o campo de futebol e o parque aquático, e São Januário, que dá nome ao estádio da agremiação, num aportuguesamento de San Gennaro. O elenco, sempre que pode, vai à missa na igreja dedicada ao santo e que fica próxima ao clube.

Se há times sem padroeiro, com dois e até, quem sabe, mais, parece um causo folclórico a história que envolve o Atlético Mineiro e Nossa Senhora das Graças, sua santa de proteção. Em 2001, a imagem teve o manto azul – cor do arquirrival Cruzeiro – pintado de preto. Quatro anos depois, o time caiu para a Série B exatamente no dia de Nossa Senhora das Graças, e, em 2006, ao retornar para a Primeira Divisão, a diretoria resolveu fazer as pazes com a santa e trocar a imagem por uma nova com o manto original, nas cores azuis.

O Cruzeiro também foi um dos que aderiram à geolocalização. A mais tradicional sede do clube, onde praticamente iniciou sua história ainda nos tempos de Palestra Itália, no bairro do Barro Preto, está separada por apenas uma quadra da Igreja de São Sebastião, padroeiro do clube.

Na Terra de Todos os Santos, Encantos e Axés, o Vitória tem como padroeira oficial Nossa Senhora da Vitória, por ter sido fundado, em 1899, na região conhecida por este nome e que tem um templo dedicado a ela. O clube também passou a reverenciar Nossa Senhora de Fátima, que é homenageada no mesmo dia de sua fundação, 13 de maio. Já o Bahia, segundo sua assessoria de imprensa, não possui um padroeiro oficial, apesar de várias indexações na internet levarem ao nome de Nosso Senhor do Bonfim, o que no fundo se trata de uma devoção de todos os baianos. Um fato curioso envolve a final da Copa do Brasil de 2010, quando o Vitória esteve a um passo de conquistar seu primeiro título nacional contra o Santos, e torcedores do seu arquirrival apoiaram o time paulista com faixas espalhadas por toda a cidade com a frase “Bahia de Todos os Santos”.

Outros clubes também têm seus padroeiros: o Athletico vem com Nossa Senhora da Salettte, e o Ceará também adotou João Paulo II depois que o polonês esteve em Fortaleza, em 1980, no estádio Castelão, para abrir o Congresso Eucarístico. A verdade é que muitos clubes não apresentam esse tipo de registro em seus sites oficiais ou revelam ambiguidade. Mas se o seu time do coração não estiver aqui, como América-MG, Grêmio, Internacional, Coritiba, Fortaleza, Sport, Náutico e Santa Cruz, entre outros, ficarei agradecido pela contribuição!

E que todos os santos nos protejam!

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