A terceira ausência consecutiva da Itália em Copas do Mundo deixou de ser um acidente estatístico para se consolidar como um sintoma. Tetracampeã, dona de uma das camisas mais pesadas da história do futebol, a Seleção Italiana de Futebol vive um dos períodos mais trágicos de sua trajetória e a nova eliminação para o Mundial de 2026 reacende um debate que atravessa fronteiras: o que aconteceu com a poderosa Squadra Azzurra?

Durante décadas, a identidade do futebol italiano foi clara: solidez defensiva, disciplina tática e eficiência competitiva. O chamado catenaccio (tática de futebol ultradefensiva que surgiu na Itália nas décadas de 1950/60, focada na solidez defensiva, organização extrema e contra-ataques rápidos), mais do que um esquema se tornou uma filosofia, moldou gerações e ajudou a construir títulos, como os das Copas do Mundo de 1982 e 2006. Mas, no futebol contemporâneo, essa escola ainda encontra espaço?
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A resposta, cada vez mais, parece incerta.
A ausência na Copa do Mundo de 2026 marca a terceira edição consecutiva sem a presença italiana, um feito negativo inédito para um país com quatro títulos mundiais. O problema, segundo analistas, não é pontual, mas estrutural.
Na imprensa brasileira, o diagnóstico converge para uma combinação de fatores: dificuldade na renovação de talentos, rigidez tática e um campeonato nacional que perdeu protagonismo no cenário global. A Serie A, que já foi referência técnica e financeira, hoje ocupa posição secundária diante da força econômica e midiática de ligas como a Premier League e a La Liga, por exemplo. Jornalistas destacam ainda que o futebol italiano demorou a assimilar transformações importantes do jogo moderno, como intensidade física, versatilidade tática e protagonismo ofensivo. O resultado é uma seleção que, em muitos momentos, parece presa a um passado que já não se sustenta.
Na Europa, e especialmente na Itália, o tom é ainda mais duro. Veículos tradicionais classificaram a eliminação como “vergonha nacional” e “fracasso sistêmico”. Ex-jogadores e comentaristas apontam falhas profundas na formação de base, excesso de estrangeiros no campeonato local (o que parece uma contradição com os outros países que veem neste fato um maior intercâmbio de técnicas e o fortalecimento de suas seleções) e uma cultura que, por muito tempo, priorizou a experiência em detrimento da renovação.
Há também um componente simbólico forte: a Itália parece ter perdido aquilo que sempre foi seu maior trunfo: a capacidade de competir em alto nível mesmo sem brilho. Se antes a defesa era sinônimo de segurança, hoje é vista, por alguns críticos, como limitação. Mas até que ponto esse modelo está, de fato, ultrapassado?

A questão divide opiniões. Há quem defenda que o problema não está na tradição defensiva em si, mas na incapacidade de adaptá-la aos novos tempos. Outros acreditam que o futebol moderno exige uma ruptura mais profunda, com maior investimento em criatividade, formação ofensiva e protagonismo técnico.
As glórias e as polêmicas do passado:
A história italiana nos Mundiais é marcada por conquistas, mas também por episódios polêmicos nos títulos:
- 1934: a conquista em casa foi cercada por acusações de influência política durante o regime de Benito Mussolini.
- 1938: apesar do alto nível técnico da equipe, polêmicas não faltaram, como o telegrama “Vencer ou Morrer” direcionado aos jogadores antes da final, o uso das camisas pretas dos paramilitares e da saudação fascista e os favorecimentos pela arbitragem.
- 1982: após realizar uma péssima primeira fase e viver uma crise em pleno Mundial, a equipe engata vitórias expressivas sobre a Argentina e o Brasil e faz uma campanha histórica liderada por Paolo Rossi.
- 2006: o quarto e último título italiano é conquistado na Alemanha em meio ao escândalo de manipulação de resultados no futebol nacional (Calciopoli).
Histórico recente de eliminações:
- 2018 – Fica fora da Copa do Mundo após derrota para a Suécia na repescagem europeia.
- 2022 – Nova queda traumática ao ser eliminada pela Macedônia do Norte nos playoffs.
- 2026 – Derrota para a Bósnia nos pênaltis causa a terceira ausência seguida, consolidando a pior sequência da história da seleção.
Diante desse cenário, a Itália se vê obrigada a encarar perguntas incômodas. É possível resgatar a essência sem se tornar refém dela? O catenaccio pode evoluir ou precisa ser abandonado? E, principalmente, como uma das maiores potências da história chegou a esse ponto? A ausência em 2026 não é apenas mais um capítulo negativo. É um sinal de alerta e talvez o mais claro até aqui de que tradição, por si só, já não garante lugar no futebol contemporâneo.
O alerta italiano: um espelho para o Brasil?
A crise da equipe nacional italiana levanta uma pergunta inevitável e incômoda: a Seleção Brasileira pode seguir o mesmo caminho? A comparação, que até pouco tempo pareceria exagerada, hoje já circula com mais naturalidade entre analistas. Assim como a Itália, o Brasil enfrenta sinais de desgaste: dificuldade de afirmação coletiva, dependência de talentos individuais, distanciamento do torcedor e perda de protagonismo simbólico.
Especialistas apontam alguns caminhos para evitar esse destino, como o fortalecimento da formação de base com identidade de jogo, a maior integração entre clubes e Seleção, a adaptação tática ao futebol contemporâneo e a reconstrução do vínculo com o torcedor. Mais do que evitar o colapso, trata-se de se reinventar.
Ao mesmo tempo, o cenário global sugere uma mudança de eixo. Seleções historicamente dominantes, como Brasil, Alemanha e Itália já não ocupam sozinhas o topo. Nos últimos ciclos, França e Croácia consolidaram protagonismo com projetos sólidos, renovação constante e leitura mais precisa do jogo moderno. Parece que o futebol mundial está assistindo a uma troca de guarda ou fazendo um reequilíbrio de forças. Para o Brasil, olhar para a Itália pode não ser apenas um exercício de análise histórica, mas, sobretudo, um aviso em tempo real.
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