Ludicidade x Competição: por que perdemos a conexão com o ato de brincar durante os jogos?


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Faça um teste e procure em algum motor de buscas na internet algo relacionado à origem do jogo ou ao ato de jogar. Em menos de um único segundo aparecem mais de 46 milhões de resultados e, evidentemente, um mais conflitante que o outro. Não há consenso científico sobre o local nem a época em que brincar se tornou algo efetivamente histórico. Entretanto, um fato se torna quase unânime: o objetivo dos jogos é a ludicidade em que todos os participantes possam brincar, se divertir e deixar a competição em segundo plano. E principalmente levar esses conceitos para o nosso cotidiano, que vem sendo tomado pela violência em campo e fora dele.

Para o historiador e linguista holandês Johan Huizinga (1872-1945), conhecido como um dos maiores intelectuais a refletir sobre o assunto, para que uma brincadeira seja considerada lúdica ela deve ser de escolha livre da criança em participar ou não. Ele se baseia em conceitos chineses para diferenciar o sentido de jogo leve e brincalhão (wan) do jogo de competição acirrada (tim ou agón), que pode se aplicar a quase tudo: à vida econômica, à política, à saúde.

De todo modo, o jogo, qualquer que seja ele, é uma atividade livre, conscientemente tomada como não-séria pelos envolvidos e exterior à vida habitual, dentro de certas regras, e funcionando como um intervalo na vida cotidiana. Quando jogamos, sabemos que a disputa não é de verdade: no jogo de xadrez, por exemplo, não se elimina o bispo e nem se mata um rei. Pode-se até dizer que brincar é algo natural, porque bebês e animais domésticos “jogam” mesmo sem uma base linguística e, portanto, cultural.

O espaço de brincar é o lugar da alteridade, do não-eu, do outro, e é nesse local que reside a satisfação humana, pois o homem se realiza na sociedade na qual está inserido. Para o bem e para o mal, essas formas lúdicas praticamente desapareceram no esporte atual, por causa da desvinculação com o ritual no primeiro instante e, em seguida, pelo excesso de organização técnica, econômica e cultural. Do ponto de vista da sociedade, o esporte age como intermediário entre o princípio de prazer e o princípio de realidade através do lazer, criando uma dimensão mais amena e sublimada do real. O esporte é também uma forma de um retorno mítico à infância, um período de pouquíssima autocensura, como um mecanismo nostálgico de recuperação do momento perdido e de fuga da opressão do presente em que não se pode perder tempo, igualado a dinheiro na sociedade capitalista.

O esporte é fim e meio em si próprio. É fim quando é prazer, lazer e euforia pela experiência boa em si mesma e na sanidade mental, mas é meio também quando o seu objetivo é alcançar a saúde física, o aprendizado de tolerância à dor, a beleza estética desejada para obter energia e como forma de aprender a disciplina e a “regra do jogo” para viver em sociedade.

Em alguns textos, a Psicanálise encara o esporte como um produto da repressão sexual e dos impulsos agressivos, levando-se em conta que o corpo físico é a maior fonte de prazer para o ser vivo. Numa análise ainda mais radical, é possível quase afirmar que o esporte desvia a energia sexual para fins socialmente aceitos e que existe uma ritualização através de símbolos, gestos e trajes específicos. E em todo jogo existem regras claras de dominação da violência: não matar, não ferir, não humilhar; revelando que, no fundo, o esporte se desenvolve, desde tempos remotos, como uma prática civilizada de lidar com a selvageria e de autoafirmação perante o grupo social.

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Mesmo que simbólica, a derrota sempre conferiu a morte ao perdedor e a liberdade ao vitorioso e o exemplo mais emblemático disso vem das lutas de gladiadores no Coliseu romano. E na sociedade moderna não é diferente, pois a vitória de um questiona a honra do outro, e é na competição esportiva que cada participante (atleta ou torcedor) encontra um ambiente legitimado para reafirmar a sua superioridade e ostentar a sua vaidade como formas simbólicas de violência alternadas entre ganhar e perder, entre viver e morrer.

A maioria dos jogos revela também um fundo mítico de amor e de morte. Talvez seja por isso que o esporte exija tanto que o atleta não caia por terra ou deixe a bola invadir seu campo, pois o chão confirma a presença ambígua da morte quando um dos propósitos do esporte é justamente outro: esquecê-la. Como exemplo temos o futebol, que recria um caso de amor pela posse da bola (o objeto de desejo), em que 22 pessoas reunidas sobre duas bandeiras almejam dominá-la e levá-la à casa do adversário (o gol). Cair por terra, no caso do judô, ou deixar que a bola desabe no seu território, no caso do vôlei ou do basquete, significa a derrota.

Apesar de tudo isso, segundo alguns pesquisadores, a ideologia da competição se encarrega de amenizar o resultado negativo e a consequente frustração do vencido. Entre os orientais há um ditado que diz: curve-se no princípio e no final de cada luta, em respeito. Para eles, a superioridade na disputa é um dom recebido dos deuses e não pode se constituir em envaidecimento pessoal, pois significa humildade e perdão pela violência contida e manifestada.

Posto isso, é preciso também delimitar dois espaços distintos: o do atleta que executa e obtém o corpo físico padrão e o resultado almejado, e o do torcedor que observa e valoriza a busca e os objetivos do jogador ou de seu time. Trata-se, no fundo, de um espelhamento de identificação num outro corpo bonito e saudável.

Com tudo isso em jogo e num caldeirão de emoções numa sociedade extremamente desigual, cabe se perguntar se é isso que estamos vendo acontecer com as inúmeras brigas de torcidas, perseguições aos jogadores e até mesmo aos jornalistas que cobrem a área esportiva. Quem joga e se envolve com tudo isso sabe que as disputas esportivas nunca foram vales floridos e pacíficos, mas em algum momento perdemos a conexão com a magia do ato de brincar. E é preciso resgatar esse sentimento em nome de uma cultura e sociedade de paz!

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