Na véspera do Dia do Orgulho Gay, ainda é difícil citar jogadores brasileiros que tenham revelado ser homossexuais


Antes de mais nada, é preciso falar da Revolta de Stonewall, a primeira grande manifestação da população LGBTQIAPN+ contra a violenta invasão da polícia de New York ao bar homônimo, em 28 de junho de 1969. Desde então, esta data passou a ser um grande símbolo de resistência para esta comunidade.

Se tem um gay na música é normal, se tem um gay ator é normal, se tem um gay em qualquer outra profissão é normal. Mas se tem um gay no futebol, vira notícia mundial. Por quê? Não entendo isso.

As frases acima são do ex-jogador e técnico Renato Gaúcho durante uma entrevista, em 2019, que foi reproduzida por diversos meios de comunicação. Polêmicas à parte, ele não está de todo errado [até porque ele comete alguns deslizes preconceituosos na finalização do raciocínio] e é por essa razão que o texto de hoje poderia ter sido publicado como uma trollagem no Dia da Mentira. Não há como citar dez, cinco ou três jogadores de futebol brasileiros que se assumiram como homossexuais, pois este é um dos tabus mais persistentes e invisíveis nesse ambiente. As poucas exceções ocorrem no futebol feminino.

O curioso é que seja o próprio Renato Gaúcho a tratar do assunto, quando ele mesmo protagonizou um momento bastante conturbado na Seleção Brasileira quase pela mesma razão. O caso foi tema, inclusive, do grupo de trabalho “Masculinidades em Jogo: O Caso da Amizade Sem Limites entre Renato Gaúcho e Leandro”, apresentado pelo pesquisador Leonardo Turchi Pacheco, durante o XV Congresso Brasileiro de Sociologia (Curitiba, 2011).

Para quem não se lembra ou jamais imaginou um tema assim ser tratado na esfera pública, o assunto dominou o noticiário esportivo às vésperas da Copa do Mundo de 1986, quando o técnico Telê Santana, antes do embarque para o México, cortou o atacante Renato Gaúcho da lista de convocados, por indisciplina. Em solidariedade ao colega, o lateral Leandro não apareceu no aeroporto e também ficou fora do Mundial. Por irreverência ou desobediência, o confronto aberto com a autoridade instituída na figura do treinador respingou na virilidade dos jogadores e numa possível perda da masculinidade em campo, apesar da excepcionalidade técnica dos envolvidos.

Sem entender claramente os motivos do corte e renúncia, o noticiário partiu para a especulação e adentrou pela vida pessoal dos atletas e seus casos amorosos, pela rotina boêmia nos momentos extracampo e nas fugidinhas durante a concentração. Até o ciúme do elenco perante esta amizade despertou a insinuação de que havia uma relação homoafetiva entre eles. No “escândalo” criado e jamais comprovado, questionava-se até que ponto esta camaradagem poderia ser um fator desestruturante das representações masculinas do mundo do futebol e influenciar os resultados da Seleção.

O que se sabe até hoje, 36 anos e nove Copas do Mundo depois, é que o esporte mais popular do planeta não é, e nem nunca foi, um espaço acolhedor para os homossexuais, estejam eles em campo ou fora dele, nas arquibancadas. O que mais se ouve nos estádios são xingamentos, gritos homofóbicos, piadas de cunho sexual e falas discriminatórias que deixam de lado o que mais importa: o desempenho de determinado atleta.

Enquanto, muito lentamente, jogadores assumem ser gays nos Estados Unidos e na Europa, esta discussão inexiste no País do Futebol e até mesmo atletas aposentados fogem do assunto. Chegamos à ironia de ter um jogador obrigado a ir a público – Richarlyson – para afirmar sua heterossexualidade, após o dirigente de um time rival ter afirmado em um programa de TV que o atleta disse que era homossexual em uma entrevista. Após muito bate-boca, pedido de desculpas e tristes gozações, o vitorioso jogador teve que conviver com manifestações de violência dos torcedores nos clubes em que passou depois.

Mas será que realmente não há jogadores homossexuais no futebol brasileiro? E se há, pairam na cabeça dos atletas várias dúvidas. Como a maioria dos torcedores reagiria ao saber que sou gay? Como lidar com as piadinhas de vestiário? Pode haver reflexo nos patrocínios? Qual a forma de proteger os familiares? Há um jeito de se policiar o tempo todo?

Para o veteraníssimo treinador Abel Braga, fingir ser heterossexual pode ser mais prejudicial ao ambiente do clube do que se admitir gay, mesmo que apenas internamente. “A opção é dele [jogador] e não precisa ser pública, mas se não assumir no vestiário a coisa vira um pouco para o lado da gozação. Temos que ter a cabeça aberta com esse tipo de situação. É uma coisa absolutamente normal hoje”, comentou em reportagem ao GE.

É quando voltamos ao início do texto com Renato Gaúcho, que já sofreu com o mesmo tipo de situação, mas no final da entrevista citada revela seu preconceito: “Se eu tenho um jogador gay, vou sacanear ele de manhã, de tarde e de noite. Eu quero é que ele jogue. O que não pode é misturar as coisas: entrar no vestiário de sacanagem por ser gay e levar mais para este lado do que para o trabalho. Aí ele ‘tá fora comigo”, disse.

Por fim, ninguém é obrigado a sair do armário se não for por sua absoluta convicção e vontade, mas é estranho que em mais de 120 anos de futebol no Brasil não haja uma única voz de renome a se colocar no centro do assunto. Com o passar do tempo, clubes e torcedores parecem ter evoluído um pouco e mudaram a forma de tratar o tema, embora problemas sérios ainda existam. Mas isto é assunto para outro momento.

Em tempo / Chama o VAR:

A coluna já estava fechada quando uma notícia sobre o assunto da semana balançou a crônica esportiva. O ex-jogador Richarlyson colocou seu nome na história como o primeiro com passagens pela Série A e Seleção Brasileira a assumir ser bissexual. Para saber mais: Ex-seleção brasileira, Richarlyson se declara bissexual, mas critica necessidade de rótulo: ‘Tem questão mais importante.

Leia mais sobre Tabus, Tretas e Troças no iBahia.com e siga o portal no Google Notícias. 

Veja também: