Nunca foi sobre a Seleção Brasileira; sempre foi sobre Neymar
Geração sem título, nenhuma final em quatro Copas do Mundo e sem deixar um legado esportivo proporcional à expectativa criada durante quase 20 anos

Há derrotas que encerram um campeonato. Outras finalizam um ciclo. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 pertence à segunda categoria. Não caiu apenas a equipe de Carlo Ancelotti, nem fracassou exclusivamente uma geração de jogadores. O que terminou naquele apito final foi um projeto que consumiu praticamente duas décadas do futebol brasileiro e que apostou todas as suas fichas na figura de um único protagonista.

É natural que, nas horas e dias seguintes a uma eliminação, comece a caça aos culpados. Sempre foi assim: o técnico errou, a defesa falhou, o goleiro poderia ter defendido bolas fáceis, o pênalti não foi convertido, o Camisa 10 não decidiu, a arbitragem influenciou. A imprensa faz sua lista de erros e a torcida escolhe seus vilões.
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Mas talvez a pergunta correta seja outra. Como o Brasil passou 16 anos sem construir uma geração capaz de sobreviver sem Neymar? Essa história não começou em 2026. Nem em 2022. Ela nasce muito antes, quando o futebol brasileiro encerrava uma das fases mais vitoriosas de sua história.
Em 2006, no Mundial seguinte ao Pentacampeonato, a Seleção foi eliminada pela França nas Quartas de Final. A derrota foi dolorosa, mas aconteceu com um elenco repleto de craques e formado por Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano, Roberto Carlos, Cafu e tantos outros jogadores que já haviam conquistado praticamente tudo o que existia. Era uma geração extraordinária.
Quatro anos depois, o cenário já era diferente. A África do Sul marcava a despedida definitiva daquela safra e a chegada de um novo símbolo, que nem lá chegou a pisar. Seu nome era Neymar.
A construção desse personagem aconteceu quase diante das câmeras. Na final do Campeonato Paulista de 2009, Corinthians e Santos ofereceram uma imagem que parecia simbolizar a passagem do bastão. Do lado corintiano, Ronaldo Fenômeno, último grande representante da geração pentacampeã. Do outro, um garoto irreverente de cabelos moicanos que encantava o país com dribles improváveis. Ronaldo venceu o duelo cuja narrativa a mídia insistiu em criar. Mas Neymar, ainda muito jovem, conquistou algo ainda mais importante: a imaginação de todo o Brasil.
Em poucos meses, a convocação para a Copa de 2010 transformou-se numa campanha nacional. Programas esportivos, colunas, debates televisivos e torcedores defendiam a presença de Neymar entre os convocados. O técnico Carlos Caetano Bledorn Verri (Dunga) resistiu. Alegou coerência e preferiu manter o grupo que havia disputado todo o ciclo classificatório. Naquele instante nasceu uma divisão que acompanharia toda a carreira do atacante. Se o Brasil fosse campeão, Dunga teria razão. Se fracassasse, Neymar seria apresentado como a peça que faltava. A eliminação diante da Holanda, nas Quartas de Final, fortaleceu definitivamente esse discurso.
A criação de um monstro
Ao mesmo tempo, outro episódio ajudava a moldar o personagem. Após a polêmica em que Neymar desafiou publicamente seu treinador no Santos, Dorival Júnior, o técnico René Simões, do time adversário, fez uma declaração que parecia exagerada para a época, mas que o tempo trataria de transformar em advertência: "Estamos criando um monstro.". Não era uma crítica ao talento do jogador, mas um alerta sobre tudo aquilo que estava sendo construído ao redor dele.
Os anos seguintes pareceram confirmar apenas a primeira parte da história. Neymar ganhou Campeonatos Paulistas, Copa do Brasil, Libertadores da América e Recopa pelo Santos, tornou-se estrela de um Barcelona supercampeão ao lado de Lionel Messi e Luis Suárez, protagonizou até então a transferência mais cara da história para o Paris Saint-Germain quando vieram mais títulos e assumiu definitivamente a Camisa 10 da Seleção Brasileira.
Os feitos do jogador
Dentro de campo, acumulava gols e troféus. Fora dele, muita polêmica na vida pessoal e uma publicidade absurdamente monetizada.
A Seleção Brasileira passou a girar ao seu redor e, olhando em retrospecto, talvez o maior erro do futebol brasileiro tenha sido exatamente esse. Enquanto Alemanha, França, Espanha e até a Argentina renovavam sucessivamente suas gerações, o Brasil depositava praticamente todas as suas expectativas sobre um único jogador. Esse fenômeno ganhou até um nome: "Neymardependência".
Em 2014, ela parecia fazer sentido. No difícil confronto contra a Colômbia, Neymar deixou a Copa após uma entrada violentíssima do zagueiro Juan Camilo Zúñiga. Sem seu principal jogador e simbolicamente órfão naquele jogo, o Brasil sofreu o trauma histórico do 7 a 1 diante da Alemanha na Semifinal. A conclusão parecia inevitável mais uma vez. Sem Neymar, o Brasil desmoronava.
Mas as Copas seguintes desmontaram essa teoria. Em 2018, ele esteve em campo e o Brasil caiu diante da Bélgica. Em 2022, participou normalmente da campanha e a eliminação veio nos pênaltis contra a Croácia. Em 2026, em meio a uma grande polêmica, foi convocado, mesmo sem estar em sua melhor condição física, e pouco conseguiu produzir antes da despedida contra a Noruega.
Quatro Copas. Nenhuma final. Nenhum título. Nenhum legado esportivo proporcional à expectativa criada durante quase 20 anos.
Tudo errado desde a convocação
Nas horas seguintes à eliminação frente à Noruega, multiplicaram-se as críticas ao desempenho do Camisa 10. Mas bastava voltar poucos meses no calendário para perceber uma curiosa inversão de discurso. Os mesmos programas que agora discutiam sua baixa condição física passaram semanas perguntando apenas uma coisa: Neymar deve ir à Copa? Antes da convocação, essa era provavelmente a principal pauta esportiva do país. Não se discutia apenas a lista de Carlo Ancelotti, mas se ele estaria nela.
Organizavam-se enquetes, entrevistas com ex-jogadores, celebridades, influenciadores e torcedores nas ruas. A convocação tornou-se uma novela diária. A presença do atacante parecia condição indispensável para que a própria Copa do Mundo despertasse paixão nacional. E ele foi chamado em meio a um delírio de seus fãs e interessados pela sua presença no torneio.
Convocação de Neymar
Não era exatamente uma novidade na Seleção Brasileira. Em 2002, boa parte da imprensa também pressionou Luiz Felipe Scolari pela convocação de Romário. Mas Felipão ignorou o clamor popular e permaneceu fiel ao grupo que havia formado durante as Eliminatórias e o Brasil terminou pentacampeão.
Em 2026, o ambiente era completamente diferente. Neymar já não era apenas um jogador. Era uma marca global. Com centenas de milhões de seguidores nas redes sociais, contratos milionários de publicidade e enorme capacidade de mobilização por uma legião de fãs que nunca assistiram um jogo inteiro com o seu ídolo (mas apenas recortes de seus lances geniais feitos nas redes sociais), sua convocação extrapolava completamente o campo esportivo. Cada postagem gerava audiência e engajamento apaixonado de fãs e haters. Cada aparição movimentava muitíssimo dinheiro dos patrocinadores. Cada convocação ampliava sua exposição internacional. Uma verdadeira indústria construiu Neymar e foi construída por ele. Futebol por si só não lhe pareciam mais suficientes e o seu propósito de vida de celebridade.
Garoto-propaganda
Num Mundial que movimenta bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade, turismo e marketing esportivo, discutir Neymar também significava debater negócios. Porque não foi apenas o futebol que apostou nele, mas toda uma engrenagem industrial de imagem de sucesso pessoal. E isso ajuda a explicar por que, mesmo fisicamente limitado e longe de seu melhor desempenho técnico, Neymar permaneceu sendo tratado como protagonista absoluto.
Sem poder de decisão num mata-mata
O problema é que, enquanto todos esperavam sua redenção, os demais jogadores pareciam esperar exatamente a mesma coisa. Nos poucos minutos em que esteve em campo na Copa de 2026, a impressão era clara: o Brasil jogava para Neymar. Não com Neymar. E ele não correspondia. Fato.
Durante o jogo da eliminação, seus companheiros pareceram abdicar de assumir responsabilidades para devolvê-las ao Camisa 10, assim que ele entrou em campo, como se apenas ele pudesse decidir. Em vez de libertar a equipe para o jogo e liderá-la, sua presença acabou ofuscando e intimidando os outros atletas concentrando sobre si todas as expectativas, diminuindo a iniciativa e a responsabilidade coletiva.
Criou-se um paradoxo cruel. Durante anos acreditou-se que Neymar carregava sozinho o peso da Seleção. Na prática, talvez tenha sido a própria Seleção, a CBF, os torcedores, a mídia e os patrocinadores que decidiram colocar sobre ele um peso sobre o qual ele era incapaz de corresponder. Ao mesmo tempo, essa dependência impediu o surgimento de outras lideranças, sucessores e futuras promessas. Não houve continuidade e um projeto coletivo capaz de sobreviver à perda de protagonismo de seu principal astro, mesmo que em declínio.
Admirada até os dias de hoje, a geração de 1970 deixou uma identidade de jogo e é celebrada em todos os cantos do planeta. Mesmo sem conquistar o título, a de 1982 deixou uma referência estética para aquilo que foi o “Futebol Arte” levado ao seu máximo grau. A de 1994 recuperou a autoestima de um país que não acreditava mais no seu potencial coletivo. A de 2002 conquistou o pentacampeonato e uma hegemonia de títulos que perdurará por, no mínimo, mais duas Copas do Mundo.
Assim como Neymar, os jogadores de sua geração deixam números impressionantes em seus clubes, recordes individuais, contratos publicitários gigantescos, centenas de milhões de seguidores e uma sucessão de expectativas frustradas com a camisa verde e amarela. Não deixa uma Copa. Não relembra e nem deixa uma escola. Não deixa um sucessor claramente preparado para ocupar um lugar de liderança.
Talvez deixe apenas uma advertência. O futebol brasileiro passou tempo demais se apegando ao Menino Ney como um salvador quando deveria estar formando uma equipe. Durante 16 anos, o destino da Seleção se confundiu com o destino de um único jogador. No fim das contas, talvez a maior tragédia dessa geração não tenha sido só perder quatro Copas do Mundo, mas fazer o país acreditar que existia apenas um caminho possível para vencê-las e agora não ver futuro feliz algum à frente.
A verdade é que desde 2010, nunca foi sobre a Seleção. Sempre foi sobre Neymar. E, quando finalmente o personagem provou ser incapaz de sustentar o roteiro que escreveram para ele, o Brasil descobriu que havia perdido uma geração inteira e, sem esperanças, deixa uma pergunta que já começa a ser feita: será que ele pode ir para o Mundial de 2030? Principalmente após o viral criado por Inteligência Artificial pelo portal Nerd Soul AI, cujo conteúdo imagina Neymar aos 38 anos, questionando sua versão mais jovem se ele deve tentar vencer uma Copa do Mundo uma última vez em 2030.
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