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Tabus, Tretas e Troças

O dia em que Oscar Schmidt apagou a palavra impossível do basquete

Liderada pelo maior jogador brasileiro de todos os tempos, vitória histórica sobre os EUA no Pan-Americano de 1987 mudou o esporte para sempre

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Sílvio Tudela

22/04/2026 às 13:04 - há XX semanas
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O dia 23 de agosto de 1987 não trouxe apenas uma vitória maiúscula para o esporte brasileiro, assim como foi a conquista da Taça Jules Rimet em 1970 ou o bicampeonato mundial de Fórmula 1 por Emerson Fittipaldi (1972 e 1974), primeiro brasileiro a alcançar o título e, na época, o mais jovem campeão da história. Foi uma ruptura que consagrou uma geração, marcou o basquetebol nacional e alterou os rumos da modalidade para sempre.

Na decisão dos Jogos Pan-Americanos, em Indianápolis, o Brasil venceu os Estados Unidos por 120 a 115, um resultado que, à época, parecia impossível. Pela primeira vez, os estadunidenses eram derrotados em casa em uma final perante cerca de 16 mil torcedores incrédulos. Mais do que isso: sofriam mais de 100 pontos diante de sua própria torcida e viam cair uma invencibilidade de 34 jogos oficiais no jogo que inventaram. O resultado era tão improvável que houve um grande atraso na premiação porque o hino do Brasil não estava disponível na Market Square Arena e os organizadores tiveram que providenciá-lo às pressas.

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No centro daquele terremoto esportivo estava Oscar Schmidt, lenda do basquete brasileiro e mundial e que nos deixou na última sexta-feira, 17 de abril.

Com 46 pontos, muitos deles em arremessos de longa distância, Oscar comandou uma virada que entrou para a história. Ao seu lado, Marcel de Souza foi igualmente decisivo, com 31 pontos. Juntos, lideraram um segundo tempo avassalador, baseado em velocidade, movimentação e, sobretudo, precisão nas bolas de três, um recurso ainda pouco explorado na época.

O time, dirigido por Ary Vidal e que contava com José Medalha como assistente técnico, tinha nomes como Israel, Gerson e Guerrinha, além de jogadores importantes como Cadum, Paulinho Villas Boas, Pipoka, Rolando Ferreira, Maury, Sílvio Malvezi e André Stoffel. Um grupo que, sem o favoritismo dos rivais, construiu uma das maiores façanhas do esporte brasileiro. Acometido por sarampo durante os Jogos Pan-Americanos, Maury esteve uniformizado no banco de reservas e virou um espectador da conquista brasileira.

Do outro lado, os Estados Unidos contavam com talentos universitários que se tornariam estrelas da NBA, como David Robinson, além de nomes como Danny Manning e Dan Majerle. A estratégia da equipe era clara: neutralizar os alas Oscar e Marcel, mas ela não funcionou.

Os Estados Unidos venciam por 68 a 54 (absurdos 14 pontos) e não davam sinais de que seria ameaçado no retorno do intervalo. Mas, no segundo tempo, foram sete bolas de três de Oscar, uma avalanche ofensiva e uma virada construída na coragem e na precisão.

Um jogo que mudou o basquete

A vitória brasileira teve efeitos que ultrapassaram a quadra, pois aquele jogo não foi apenas uma vitória, mas uma aula. Desafiando todos os prognósticos de jornalistas e atletas, Oscar Schmidt conduziu o Brasil para uma proeza mais lembrada do que o Bicampeonato Mundial de 1959 e 1963.

Nos Estados Unidos, a derrota acendeu um alerta de que outros países estavam evoluindo no esporte e começavam a ameaçar a hegemonia do país. Somada ao bronze olímpico em 1988, ela levou o país a repensar seu modelo e, poucos anos depois, abrir espaço para jogadores profissionais da NBA na seleção. Era o embrião do lendário “Dream Team”, que dominaria os Jogos Olímpicos de Barcelona 1992 e dali em diante.

Ao mesmo tempo, o estilo brasileiro chamou atenção. A aposta em arremessos de três pontos, ainda subestimados, antecipava uma tendência que décadas depois seria levada ao extremo por equipes como o Golden State Warriors.

A escolha que definiu uma carreira

A grandeza de Oscar Schmidt também passou por decisões fora da quadra. Convidado a jogar na NBA em 1984, ele recusou. Na época, atletas da liga não podiam disputar competições internacionais e Oscar não abriu mão de defender a Seleção Brasileira. Sua escolha custou visibilidade global, mas reforçou sua identidade. Ele preferiu ser protagonista com a camisa do Brasil a coadjuvante no maior mercado do mundo.

E os números sustentam sua dimensão de maior atleta do basquete nacional e um dos maiores do mundo: foram 49.737 pontos na carreira, marca superada somente em 2024 por LeBron James, estrela do Los Angeles Lakers; recorde histórico de 1.093 pontos assinalados em cinco Jogos Olímpicos entre 1980 e 1996; e maior pontuador da seleção verde-amarela, com 7.693 pontos. Entre os inúmeros títulos, foi campeão mundial interclubes pelo clube paulista Sírio, em 1979, foi fazer sucesso na Europa e brilhou em 11 temporadas na Itália e duas na Espanha. Oscar Schmidt está imortalizado no Hall da Fama do Basquete, espaço localizado em Springfield, Massachusetts, que honra jogadores, técnicos, árbitros e outras pessoas que contribuíram diretamente para a história do basquete.

O legado de uma tarde eterna

A final do Pan-Americano de 1987 é frequentemente chamada de “Milagre de Indianápolis”. Mas, para quem teve a oportunidade de assisti-la ou teve o privilégio de vê-lo jogar, houve menos fatores sobrenaturais e mais execução perfeita. Treino, repetição, confiança, como o próprio Oscar gostava de dizer e rejeitar o apelido de “Mão Santa”. Aquele Brasil não apenas venceu os Estados Unidos, mas mudou a forma como o jogo era pensado, acelerou transformações e provou que o talento, quando encontra raça, amor e coragem, pode reescrever qualquer roteiro já dado como definitivo.

Em um esporte acostumado a hierarquias rígidas, Oscar Schmidt fez algo raro: virou sinônimo de impossível sendo vencido. E, desde então, toda vez que alguém acerta uma bola improvável de três pontos um pouco daquele 23 de agosto de 1987 ainda ecoa em nossa mente e a gente ouve a narração de alegria e orgulho ao fundo: cesta de Oscar!

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