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Tabus, Tretas e Troças

O inconsciente entra em campo e desperta emoções profundas

Vitórias históricas, eliminações sofridas e nervos à flor da pele transformam o Mundial em um dos maiores fenômenos psicológicos e sociais do planeta

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Sílvio Tudela

29/06/2026 às 12:32 - há XX semanas
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A Copa do Mundo é, oficialmente, um torneio de futebol. Mas, para milhões de pessoas, ela se transforma em algo muito maior. A cada partida decisiva, as ruas mudam de ritmo, as conversas giram em torno dos resultados, famílias se reúnem diante da televisão, amizades são colocadas à prova pelas rivalidades esportivas e o humor de países inteiros parece oscilar ao sabor de um gol marcado ou desperdiçado.


					O inconsciente entra em campo e desperta emoções profundas
​Foto: IA

Cabo Verde faz história:

Na Copa que estamos acompanhando, essa montanha-russa emocional voltou a se repetir. Há seleções que surpreenderam o mundo ao eliminar favoritas, jogadores que passaram da condição de vilões a heróis em poucos minutos e técnicos que, em questão de dias, deixaram de ser contestados para serem celebrados (ou fizeram o caminho inverso). Cada cobrança de pênalti, cada prorrogação e cada decisão por detalhes parece condensar, em poucos minutos, sentimentos que normalmente acompanham as pessoas ao longo de toda uma vida.

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Embora pareça exagero dizer que um simples jogo seja capaz de provocar tanta comoção, a Psicanálise oferece uma explicação consistente para esse fenômeno. Mais do que acompanhar uma disputa esportiva, o torcedor investe emocionalmente na seleção que representa sua história, sua cultura e seu sentimento de pertencimento. Quando ela vence, experimenta uma sensação de realização compartilhada. Quando perde, a frustração também parece coletiva.

Para os psicanalistas, o futebol funciona como uma linguagem simbólica capaz de mobilizar conteúdos profundos do inconsciente porque durante a Copa do Mundo, o jogo deixa de ser apenas uma competição esportiva. As pessoas projetam na seleção seus desejos, medos, expectativas e até suas frustrações. É por isso que uma vitória pode provocar euforia nacional e uma eliminação pode gerar uma sensação de perda que ultrapassa o campo esportivo.

Na perspectiva psicanalítica, esse processo é conhecido como identificação. O torcedor deixa de observar a partida apenas como espectador e passa a vivê-la

como protagonista emocional. Não por acaso, expressões como "ganhamos", "estamos na semifinal" ou "fomos eliminados" são repetidas por pessoas que nunca estiveram em campo, mas que se reconhecem simbolicamente naquele grupo.

Celebração brasileira:

Essa identificação torna-se ainda mais intensa em confrontos históricos. Quando duas seleções carregam décadas de rivalidade, a partida deixa de representar apenas a disputa por uma vaga e passa a reunir memórias, narrativas e emoções transmitidas entre gerações. O peso da camisa, as decisões do passado e os episódios que marcaram a história do futebol ressurgem como parte de um imaginário coletivo que alimenta a expectativa antes mesmo do apito inicial.

Outro aspecto que chama atenção nesta Copa do Mundo é a velocidade com que os julgamentos se transformam. Um atacante que desperdiça uma chance clara pode ser duramente criticado durante toda a semana; bastam um gol decisivo ou uma atuação brilhante para que seja elevado novamente à condição de ídolo. O mesmo acontece com treinadores, frequentemente tratados como gênios ou incompetentes conforme o placar do dia.

Esse movimento revela mecanismos típicos do funcionamento psíquico porque em momentos de grande investimento emocional, tendemos a simplificar a realidade. Buscamos heróis para representar nossos desejos de vitória e vilões para concentrar nossas frustrações. Essa necessidade de encontrar responsáveis ajuda a aliviar a angústia provocada pela incerteza do resultado.

A própria imprevisibilidade da Copa explica parte do fascínio que ela exerce. Nesta edição, seleções consideradas favoritas enfrentaram enorme dificuldade para confirmar seu favoritismo, enquanto equipes menos tradicionais conquistaram resultados históricos. Cada surpresa renova a esperança dos torcedores e alimenta a ideia de que, no futebol, tudo pode acontecer até o último minuto.

Essa alternância constante entre expectativa e incerteza desperta um estado emocional semelhante ao vivido em outras situações decisivas da existência humana. O medo da derrota convive com o desejo da conquista; a ansiedade cresce à medida que o relógio avança; o alívio de um gol marcado pode ser

imediatamente substituído pela tensão de defender o resultado. A partida se transforma, assim, em uma metáfora da própria vida.

O retorno de Neymar:

Mas talvez nenhum grupo experimente essa carga emocional de maneira tão intensa quanto jogadores e comissões técnicas. Enquanto milhões acompanham cada lance, atletas carregam o peso das expectativas de um país inteiro. Um erro pode marcar uma carreira. Um acerto pode garantir reconhecimento eterno. A pressão vivida pelos jogadores durante uma Copa é extraordinária porque ela reúne exposição pública, expectativa coletiva e responsabilidade histórica. Eles não combatem apenas o adversário. Enfrentam o medo do fracasso, a cobrança da torcida, a repercussão mundial e, muitas vezes, a própria autocobrança.

Esse contexto ajuda a compreender por que o cuidado com a saúde mental vem ganhando espaço no futebol de alto rendimento. Psicólogos passaram a integrar comissões técnicas, estratégias para controle da ansiedade são cada vez mais utilizadas e muitos atletas falam abertamente sobre pressão emocional, algo que há poucos anos ainda era visto como sinal de fragilidade. Compreender esse fenômeno significa reconhecer que o esporte oferece uma oportunidade singular para observar o funcionamento das emoções humanas e a Copa do Mundo reúne, em poucas semanas, temas que fazem parte da experiência de qualquer pessoa: desejo, medo, pertencimento, rivalidade, perda, esperança e superação. E é por isso que ela desperta tanto interesse, pois não estamos assistindo apenas a um campeonato, mas acompanhando histórias que dialogam diretamente com aquilo que somos.

É justamente essa dimensão simbólica que faz da Copa do Mundo um acontecimento único. Enquanto a bola rola, não são apenas as seleções que disputam um título. Entram em campo também memórias, afetos, expectativas e identidades coletivas. O futebol se torna uma narrativa compartilhada, capaz de aproximar desconhecidos, interromper rotinas e produzir emoções genuínas em diferentes partes do planeta.

No fim das contas, talvez seja essa a maior explicação para o fascínio que o Mundial exerce sobre bilhões de pessoas. A Copa não mobiliza apenas porque decide quem joga melhor. Ela mobiliza porque, por alguns instantes, transforma o esporte em um espelho da condição humana, onde convivem, lado a lado, a alegria da conquista, a dor da derrota, a esperança do próximo jogo e a permanente capacidade de recomeçar.

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