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Tabus, Tretas e Troças

O indecoroso gesto obsceno que encerrou a última Copa do Mundo

Discussão sobre o assunto já não gira apenas em torno da educação ou da disciplina dos atletas, mas envolve a imagem do futebol como produto global

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Sílvio Tudela

15/06/2026 às 12:48 - há XX semanas
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A imagem correu o planeta em questão de segundos. Diante das câmeras do mundo inteiro, durante a cerimônia de premiação da Copa do Mundo do Qatar, o goleiro argentino Emiliano Martínez recebeu o troféu de melhor goleiro do torneio, posicionou-o na altura da virilha e fez um gesto obsceno em direção às arquibancadas. Era 18 de dezembro de 2022 e a Argentina comemorava seu terceiro título mundial. Mas, de certa forma, aquele ato também simbolizava outra coisa: a crescente naturalização de comportamentos provocativos e ofensivos no futebol moderno.

O episódio dividiu opiniões. Houve quem enxergasse apenas uma brincadeira irreverente de um personagem folclórico. Outros viram uma demonstração de desrespeito incompatível com a principal cerimônia do esporte mais popular do planeta. Dois anos depois, Martínez repetiria a cena durante as comemorações da Copa América. E, desta vez, as consequências foram concretas. Em setembro de 2024, a FIFA o suspendeu por dois jogos oficiais por comportamento inadequado, punição que também levou em consideração outro episódio envolvendo agressão a um cinegrafista. A mensagem da entidade máxima do futebol era que aquilo que por muito tempo foi tratado como simples provocação passava a ser encarado pelas autoridades esportivas como infração disciplinar.

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Mas desde então, os casos se multiplicaram. Nos últimos meses, o futebol brasileiro assistiu às expulsões de Allan e André, do Corinthians, de Jajá, do Remo, e de Gabigol, todos punidos por gestos obscenos durante partidas oficiais.

Vídeo: sportv

Mas o fenômeno não se restringe ao Brasil. No bilionário futebol saudita, um jogador acabou expulso após direcionar um gesto ofensivo às arquibancadas. Pouco tempo depois, até mesmo Cristiano Ronaldo, uma das figuras mais conhecidas do esporte mundial, protagonizaria uma cena semelhante ao reagir a torcedores que gritavam o nome de Lionel Messi durante uma partida.

A epidemia de obscenidades também atingiu a área técnica. No Palmeiras, Abel Ferreira passou a ser alvo frequente de debates não apenas por suas conquistas, mas por comportamentos considerados inadequados à beira do campo. Um gesto obsceno direcionado à arbitragem acabou gerando uma punição inédita e provocou forte repercussão entre comentaristas e analistas esportivos. O episódio levantou uma discussão que vai além do treinador português: até que ponto a competitividade pode servir de justificativa para atitudes que, em qualquer outro ambiente profissional, seriam consideradas inaceitáveis?

Convenhamos que o futebol sempre conviveu com esse tipo de comportamento. Para ficar apenas em três nomes, Romário, Edmundo e Maradona provocavam. A rivalidade faz parte da essência do esporte, mas o problema é que o ambiente mudou radicalmente.

Durante décadas, muitos excessos desapareciam junto com o apito final. Hoje, não há esconderijo possível. O estádio tornou-se um espaço permanentemente vigiado por câmeras de transmissão, equipamentos do VAR, fotógrafos, celulares e redes sociais. Um gesto que dura dois segundos pode gerar repercussão global durante semanas.

Por isso, a discussão já não gira apenas em torno da educação ou da disciplina dos atletas. Ela envolve também a imagem do futebol como produto global. Clubes, federações, patrocinadores e emissoras investem bilhões em um espetáculo consumido por crianças, famílias e públicos de diferentes culturas. Nesse contexto, gestos obscenos deixaram de ser vistos apenas como atos individuais de garra ou raça ou gestos de falta de educação para se tornarem potenciais fontes de desgaste institucional.

Casos recentes, como os de Gabigol, Cristiano Ronaldo, Abel Ferreira, Emiliano Martínez e do paraguaio Bobadilla (este por simulação gesto obsceno), mostram que o futebol atravessa uma fase de transição. A provocação continua existindo e provavelmente continuará sendo parte da cultura do esporte, mas a fronteira entre irreverência e ofensa parece cada vez mais estreita.

Talvez a grande questão não seja o motivo dos árbitros (ou tribunais) estarem punindo mais, mas por que tantos personagens do futebol continuam acreditando que determinados comportamentos ainda serão tratados como algo normal? Afinal, se o gesto obsceno que encerrou a última Copa do Mundo já provocou polêmica planetária, dificilmente episódios semelhantes passariam despercebidos nos gramados do restante do mundo. Hoje, o futebol não apenas vê tudo, mas também pune tudo o que possa escapar do controle institucional.

Futebol mais respeitoso ou mais controlado?

Mas à medida que as punições se multiplicam, cresce também um questionamento entre torcedores, ex-jogadores e comentaristas se existe um critério claro para definir o que merece punição e o que pode ser tratado apenas como uma manifestação emocional do jogo.

O debate ganhou novos capítulos antes do início da Copa do Mundo de 2026. No São Paulo, um jogador acabou denunciado por simular um gesto obsceno durante uma comemoração.

No Palmeiras, Paulinho foi alvo de sanção após um episódio de pedir silêncio à torcida adversária. Os casos provocaram discussões acaloradas porque, para muitos observadores, as interpretações parecem variar conforme a repercussão do lance, o contexto da partida ou mesmo a pressão exercida pela opinião pública.

É justamente nessa zona cinzenta que surgem críticas ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva e aos órgãos disciplinares do futebol brasileiro. Não são poucos os que enxergam uma falta de uniformidade nas decisões. Enquanto determinados comportamentos (gestos obscenos, por exemplo) recebem punições exemplares, outros episódios considerados mais graves acabam recebendo tratamento mais brando. A consequência é a sensação de insegurança jurídica: jogadores, clubes e torcedores muitas vezes não sabem

exatamente onde está a linha que separa a provocação aceitável da infração passível de suspensão.

Essa percepção alimenta outra crítica recorrente, direcionada também à própria CBF. Para alguns setores do futebol, existe um movimento crescente de controle comportamental que, embora tenha objetivos legítimos, corre o risco de transformar o esporte em um ambiente excessivamente regulamentado. A provocação, a irreverência, a rivalidade e até mesmo determinados excessos verbais sempre fizeram parte da identidade cultural do futebol sul-americano.

Não por acaso, muitas das imagens mais icônicas do esporte nasceram justamente de personagens que desafiavam convenções. Romário, Edmundo, Renato Gaúcho, Maradona, Martínez e tantos outros construíram parte de suas trajetórias misturando talento, provocação e personalidade.

É evidente que o combate a atitudes discriminatórias, racistas, homofóbicas ou violentas representa um avanço civilizatório inegociável. Mas quando a punição alcança gestos interpretados de forma subjetiva, abre-se espaço para uma discussão legítima sobre limites, proporcionalidade e liberdade de expressão dentro do espetáculo esportivo.

O futebol moderno parece viver um dilema. De um lado, busca transmitir uma imagem global, institucional e comercialmente segura. De outro, tenta preservar a espontaneidade que o tornou o esporte mais popular do planeta. E a dúvida que emerge dessa disputa é se o futebol está ficando mais respeitoso ou apenas mais controlado.

Talvez a resposta esteja em algum lugar entre os dois extremos porque, se por um lado ninguém sente falta de atitudes ofensivas gratuitas, por outro existe o receio de que o excesso de vigilância transforme um jogo movido por paixão em um espetáculo cada vez mais preocupado com protocolos, códigos de conduta e punições. E um futebol sem emoção, sem personagens e sem irreverência corre o risco de perder justamente aquilo que o tornou único.

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