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Tabus, tretas e troças

O que fez a Argentina 2026 atrair a antipatia do mundo inteiro?

Embalada por fatores esportivos, culturais, midiáticos e políticos, Albiceleste não deixou ninguém indiferente, despertou admiração, inveja e rejeição

Carlos Bahia

Carlos Bahia

30/07/2026 às 15:04 - há XX semanas
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Um fenômeno curioso aconteceu no futebol mundial. Durante décadas, torcer contra a Argentina parecia um privilégio quase exclusivo dos brasileiros e dos seus adversários de ocasião. Era uma rivalidade construída ao longo de mais de 100 anos de confrontos, títulos, provocações e disputas continentais. Mas na Copa do Mundo de 2026, entretanto, algo mudou.


					O que fez a Argentina 2026 atrair a antipatia do mundo inteiro?
Foto: Reprodução/Instagram

Pela primeira vez, a rejeição extrapolou a rivalidade sul-americana. Ingleses, espanhóis, franceses, mexicanos, portugueses, egípcios e torcedores de diversos outros países passaram a compartilhar um mesmo discurso nas redes sociais, nos estádios e até em campanhas virtuais: torcer contra a Argentina tornou-se um movimento global.

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A campanha "Argentina Out", um abaixo-assinado que pede a exclusão do país de toda competição internacional de futebol, afirma ter reunido mais de 23 milhões de adesões em cerca de 170 países, e talvez seja o maior símbolo desse fenômeno. Embora os números divulgados pelos organizadores (desconhecidos até então) não tenham sido auditados de forma independente e não tenham qualquer efeito jurídico ou esportivo, a repercussão internacional mostra a dimensão do desgaste da imagem da seleção argentina.

Tamanha rejeição dificilmente conseguiria ser explicada apenas dentro das quatro linhas. Ninguém chega a duas finais consecutivas de Copa do Mundo e conquista o título da edição anterior apenas por sorte. A Argentina do técnico Lionel Scaloni consolidou um modelo de jogo eficiente, competitivo e emocionalmente intenso. Celebrado diversas vezes como o melhor jogador deste início de século, Lionel Messi continuou sendo o grande símbolo, mas a equipe passou a viver também da liderança de jogadores como Emiliano Martínez, Enzo Fernández, Cristian Romero, Rodrigo De Paul, Julián Álvarez e Alexis Mac Allister. E foi justamente essa competitividade levada ao extremo que começou a dividir opiniões.

Ao longo do torneio, multiplicaram-se reclamações sobre favorecimentos dos juízes à seleção argentina, provocações após vitórias, confrontos físicos, discussões constantes com arbitragem, excesso de reclamações e atitudes consideradas antidesportivas por adversários e parte da imprensa internacional. Foram vários os exemplos de desgaste disciplinar, como expulsões e confusões após o apito final que ampliaram ainda mais a repercussão negativa.

Fora dos gramados, episódios envolvendo grupos de torcedores argentinos também alimentaram essa percepção. Em diferentes cidades-sede, houve registros de confrontos com torcidas rivais, provocações nacionalistas e incidentes envolvendo cânticos ofensivos e até mesmo racistas, ampliando uma imagem que acabou extrapolando o desempenho esportivo. Embora esses episódios tenham envolvido apenas parte da torcida, ganharam enorme visibilidade nas redes sociais e passaram a ser frequentemente associados à seleção como um todo. E foi justamente aí que o futebol deixou de ser apenas futebol e a Argentina tornou-se uma personagem a despertar sentimentos.

Messimania

E é aqui que outro componente precisa ser levado em consideração. Desde o título de 2022, Lionel Messi passou a ocupar um espaço quase mítico dentro do futebol. Como costuma acontecer com personagens dessa dimensão, quanto maior a idolatria, maior também a rejeição organizada. O fenômeno não é exclusivo do futebol. Michael Jordan, Tom Brady, Novak Djokovic, Cristiano Ronaldo e Lewis Hamilton também experimentaram esse tipo de polarização. Quanto mais vencedores se tornam, menos deixam espaço para a neutralidade.

O curioso é que a derrota para a Espanha produziu imediatamente o movimento oposto. Enquanto milhões celebravam o fim da campanha e a derrota da Albiceleste, milhares de torcedores argentinos organizaram uma petição pedindo que a FIFA revisasse a decisão e estudasse a possibilidade de repetir a final, alegando erros graves da arbitragem. A iniciativa, criada por Gisela Sánchez, reuniu dezenas de milhares de assinaturas, mas, assim como ocorreu com a campanha "Argentina Out", não possui qualquer efeito prático sobre decisões da entidade.

As duas mobilizações dizem menos sobre arbitragem do que sobre o tempo em que vivemos. Isso porque as redes sociais transformaram o futebol numa arena permanente de confirmação de crenças. Cada decisão controversa deixa de ser apenas um erro possível para se transformar rapidamente em teoria de favorecimento, conspiração ou perseguição. Nesse ambiente, as petições tornam-se muito mais instrumentos de identidade coletiva do que mecanismos reais de mudança. Elas permitem que milhões de torcedores expressem pertencimento, indignação ou frustração, ainda que não tenham qualquer consequência esportiva.

Mas há também uma dimensão política. Nos últimos anos, símbolos da seleção argentina passaram a ser apropriados por diferentes grupos partidários, tanto dentro quanto fora do país. Em alguns momentos, a equipe foi utilizada como expressão de orgulho nacional; em outros, como elemento de disputa ideológica. Esse tipo de apropriação amplia a polarização e faz com que o futebol carregue debates que ultrapassam o campo e explique de certa forma e em alguma medida a intensidade das reações.

Não se odeia apenas quem perde. Muito menos quem é irrelevante. A história do esporte mostra que as equipes mais vencedoras costumam acumular também os maiores índices de rejeição. A Argentina de 2026, mesmo derrotada na final, parece ter alcançado esse lugar e não porque todos torceram contra ela, mas porque ninguém conseguiu permanecer indiferente quando ela entrou em campo.


					O que fez a Argentina 2026 atrair a antipatia do mundo inteiro?
Foto: Reprodução/Instagram

Uma rivalidade que atravessa gerações

Brasil e Argentina protagonizam uma das rivalidades mais antigas do futebol mundial. O primeiro confronto oficial ocorreu em 1914, em Buenos Aires. Desde então, as duas seleções disputaram finais de Copa América, decisões continentais, Eliminatórias e jogos históricos de Copa do Mundo. Em diferentes épocas, episódios como a "Batalha de Rosário" na Copa do Mundo de 1978, a eliminação brasileira com o gol de Claudio Caniggia no Mundial de 1990, a derrota nos pênaltis na Copa América de 1993, o duelo entre Adriano e Riquelme na Copa das Confederações de 2005, os fracassos brasileiros e as conquistas recentes da Argentina ampliaram um antagonismo que deixou de ser apenas esportivo para incorporar elementos culturais, históricos e identitários. Mais de um século depois do primeiro encontro, Brasil e Argentina continuam disputando algo que vai além de títulos: o imaginário do futebol sul-americano.

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