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Tabus, Tretas e Troças

O 'violento charme' do futebol sul-americano e a cultura do caos

Violência, racismo, homofobia, corrupção, manipulação de resultados e impunidade alimentam crise antiga que a Conmebol nunca conseguiu enfrentar

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Sílvio Tudela

11/05/2026 às 10:05 - há XX semanas
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O pedido público de desculpas do Independiente Medellín às torcidas local e do Flamengo, após a vergonhosa confusão registrada no estádio Atanasio Girardot e o cancelamento da partida pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), reacendeu uma discussão que acompanha o futebol sul-americano há décadas: por que o continente parece incapaz de romper definitivamente com a cultura do caos em seus estádios?

A imagem é conhecida há décadas. Arquibancadas em guerra, objetos lançados em campo, insultos a atletas, invasões de gramado, jogadores acuados e em situação de fuga, ônibus apedrejados, hotéis cercados e com barulho ensurdecedor, violentos confrontos nas ruas e uma atmosfera em que o futebol frequentemente se aproxima mais de um cenário de grande tensão social do que de espetáculo esportivo.

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O recente episódio em Medellín, motivado pela eliminação no Campeonato Colombiano e deboche do principal dirigente, nasceu de uma convocação a vultosos protestos por parte da torcida. Não é um fato isolado, até porque, resguardadas as devidas proporções, o Corinthians passou por situação semelhante ao final da partida contra o Santa Fé um dia antes. Trata-se de mais um capítulo de uma longa história de descontrole, negligência e tolerância histórica à barbárie.

Essa jornada de rivalidades extremistas vem desde os primeiros anos do século passado, com as lendárias Copa Roca, disputadas entre as seleções do Brasil e da Argentina. Mas o futebol sul-americano acumulou episódios nos últimos 25 anos que ajudaram a consolidar, internacionalmente, a percepção de um ambiente hostil, explosivo e muitas vezes marcado pela sensação de selvageria e impunidade.

A própria Copa Libertadores da América carrega cicatrizes profundas dessa trajetória. Em 2018, a decisão entre River Plate e Boca Juniors se transformou em um dos maiores vexames da história do torneio. O ônibus xeneize foi atacado antes da partida no Monumental de Núñez, jogadores ficaram feridos e a decisão precisou ser transferida para Madrid, um símbolo quase humilhante para o futebol sul-americano, incapaz de realizar sua principal final em seu próprio continente.

Os problemas vão muito além da violência física

Casos de racismo se tornaram recorrentes nas competições organizadas pela Conmebol. Inúmeros jogadores brasileiros foram vítimas de insultos racistas em partidas sul-americanas e internacionais, enquanto punições frequentemente foram consideradas brandas ou insuficientes. Em muitos episódios, clubes receberam multas pequenas diante da gravidade dos atos, reforçando a sensação de tolerância institucional.

A homofobia também atravessa o futebol latino-americano de maneira estrutural. Cânticos ofensivos ainda fazem parte do ambiente de arquibancada em diversos países do continente, enquanto jogadores evitam discutir publicamente sua orientação sexual por medo de rejeição, perseguição ou isolamento profissional. O futebol masculino sul-americano segue sendo um território profundamente resistente à diversidade.

Há ainda os escândalos de arbitragem e corrupção, que alimentam durante anos a desconfiança sobre os bastidores do esporte, como o escandaloso “Caso Amarilla”, com a anulação de gols legítimos e pênaltis não marcados para o Corinthians durante a polêmica arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla contra o Boca Juniors, pelas oitavas de final da Libertadores da América de 2013, e as subsequentes revelações de manipulação do resultado em escutas telefônicas. O caso mais emblemático talvez tenha sido o FIFA Gate, revelado em 2015, que expôs dirigentes ligados ao futebol sul-americano envolvidos em esquemas milionários de propina, direitos televisivos e favorecimentos políticos.

Nesse contexto, a Confederação Sul-Americana de Futebol frequentemente aparece como alvo de críticas por lentidão, omissão ou punições inconsistentes. A entidade costuma endurecer discursos após grandes crises, mas raramente consegue convencer que há uma política estrutural capaz de mudar e transformar o ambiente do futebol continental. Porém, no entanto, reduzir este tipo de problema à América do Sul seria simplificar demais a questão.

Violência no futebol também explode em outras partes do mundo

Nos últimos anos, a “civilizada” Europa registrou graves confrontos envolvendo torcedores antes de finais continentais e jogos internacionais. Em 2022, os arredores da final da Liga dos Campeões da UEFA, em Paris, foram marcados por caos, violência policial e tumultos generalizados pelos torcedores do Real Madrid e do Liverpool.

Viradas de mesa e puxadas de tapete também são comuns na África. No início deste ano de 2026, a final da Copa Africana de Nações entre Senegal e Marrocos foi marcada por caos absoluto: pênalti controverso nos acréscimos do jogo, ameaça de abandono de campo pela equipe senegalesa e invasão de torcedores. Embora tenha vencido inicialmente por 1 a 0, a Confederação Africana de Futebol (CAF), poucos meses depois, retirou o título do Senegal e declarou o time do Marrocos campeão. Confrontos entre torcedores em partidas continentais também deixaram mortos e feridos nos últimos anos.

Do outro lado do mundo, o futebol global convive com tensões semelhantes. Após o time da casa, Arema FC, perder por 3 a 2 para o rival Persebaya Surabaya, torcedores invadiram o gramado do Estádio Kanjuruhan, em Malang, Indonésia, em outubro de 2022. A tragédia resultou em mais de 130 mortes (incluindo dezenas de crianças) após a polícia usar gás lacrimogêneo em resposta a uma invasão de campo. Foi um dos piores desastres esportivos do mundo, causado por pisoteamento e asfixia.

Aqui pertinho, na América do Norte, uma outra barbárie aconteceu no estádio La Corregidora, pelo Campeonato Mexicano, em 2022, com 26 feridos, no impressionante e vexatório confronto campal entre torcedores de Querétaro e Atlas. Mas a situação por lá continua bastante tensa, pois a violência relacionada ao narcotráfico causou a suspensão de jogos no México em fevereiro deste ano, com confrontos e bloqueios em Jalisco após a morte de um líder de cartel, levantando preocupações da FIFA sobre a segurança para a Copa do Mundo de 2026.

O “vergonhoso charme” da Libertadores da América

O debate global sobre segurança em estádios prossegue, mas entre nós, sul-americanos, a diferença talvez esteja na frequência e na naturalização do que acontece, pois o escândalo frequentemente parece absorvido pelo cotidiano. A violência vira “pressão”, o racismo vira “provocação”, a homofobia vira “cultura de arquibancada” e a omissão institucional vira rotina.

O problema é global, mas, na América do Sul, ele parece mais persistente, mais naturalizado e mais incorporado à própria identidade do espetáculo. Talvez porque, no continente, o futebol misture rivalidade política, identidade social, tensões econômicas e pertencimento cultural de maneira explosiva, e em muitos lugares, a arquibancada se tornou um espaço onde frustrações sociais encontram vazão coletiva. É sensato considerar que isso não justifica nada, mas ajuda a entender por que a América do Sul ainda convive com cenas que parecem incompatíveis com o futebol do Século XXI.

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