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Tabus, Tretas e Troças

SAFs, reforma tributária e liga única vão redesenhar o futebol

Temas estão conectados por uma mesma questão: quem vai controlar, financiar e distribuir o dinheiro do futebol brasileiro na próxima década?

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Sílvio Tudela

- há XX semanas
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Durante décadas, o futebol brasileiro cresceu apesar de sua estrutura administrativa. Os clubes ampliaram torcida, faturamento, patrimônio e relevância internacional, mas permaneceram presos, em grande medida, a modelos associativos, ciclos eleitorais curtos e decisões personalistas, numa cultura em que o resultado esportivo frequentemente justificava desequilíbrios financeiros.


					SAFs, reforma tributária e liga única vão redesenhar o futebol
Foto: Pexels

Essa equação começou a mudar a partir da aprovação da Lei da Sociedade Anônima do Futebol, em 2021, que abriu uma alternativa que parecia impensável poucos anos antes: transformar o departamento de futebol em uma empresa capaz de receber capital privado, reorganizar dívidas e adotar uma estrutura de governança diferente das associações tradicionais. Cinco anos depois, o processo deixou de ser experimental e passou a ser estrutural.

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Agora, essa transformação encontra duas outras mudanças potencialmente decisivas: a reforma tributária e a tentativa de criar uma liga nacional capaz de negociar coletivamente o principal produto do futebol brasileiro, os direitos do Campeonato Brasileiro.

A Lei 14.193/2021, que instituiu a SAF, não criou apenas uma nova forma de administrar clubes. Ela abriu as portas para o capital privado em uma atividade historicamente sustentada pela paixão dos torcedores, pelas receitas de televisão, pela venda de atletas e pela capacidade, muitas vezes limitada, dos dirigentes de administrar recursos.

A lógica foi separar o futebol profissional da associação, criar uma empresa, estabelecer regras de governança, permitir a entrada de investidores e oferecer mecanismos para enfrentar o passivo histórico. A legislação também criou instrumentos para organizar o pagamento das dívidas, como o Regime Centralizado de Execuções e a recuperação judicial ou extrajudicial.

Mas os primeiros cinco anos produziram uma constatação importante: SAF não é sinônimo de boa gestão. Ela facilita a entrada de dinheiro, mas não garante que os recursos sejam bem utilizados. O futebol brasileiro já acumulou exemplos de valorização esportiva, aumento de receitas e profissionalização, mas também de endividamento, conflitos societários, mudanças de investidores e novas reestruturações. O capital privado pode resolver problemas que a associação não consegue enfrentar, mas também cria novos centros de poder e novas formas de dependência.

O Botafogo é um exemplo da velocidade dessa transformação. Campeão brasileiro e da Libertadores da América em 2024, iniciou em 2026 uma ampla reestruturação financeira, com auditoria, revisão de contratos, redução de despesas e negociação com credores. O modelo que se mostrou tão bem-sucedido parece estar sob enorme pressão.

Após diversas crises internas com a sua SAF, o Vasco acaba de expor outra face do modelo: em setembro de 2026, a Justiça autorizou empréstimo de até R$ 150 milhões à SAF e marcou audiência para propostas pela aquisição de 90% das ações.

Importante lembrar que Flamengo e Palmeiras, os dois times brasileiros mais bem sucedidos desta década, tanto no desempenho esportivo como no aspecto financeiro, não se tornaram SAF e seguem com o modelo associativo em uma gestão ultra profissional. Temendo ficar para trás de seus adversários, o Corinthians vem tentando, através de grandes embates entre torcedores e dirigentes, mudar o estatuto e colocar o assunto em discussão na diretoria.

O paradoxo: mais dinheiro, mais dívida

O cenário financeiro explica a urgência. Os 20 clubes de maior receita do país alcançaram aproximadamente R$ 15 bilhões em faturamento em 2025, contra cerca de R$ 11 bilhões em 2024. Ao mesmo tempo, o endividamento chegou a aproximadamente R$ 16 bilhões. É um paradoxo: o futebol brasileiro nunca movimentou tanto dinheiro e, simultaneamente, carrega uma dívida gigantesca. O problema, portanto, não é apenas arrecadar, mas transformar receita em caixa, patrimônio, competitividade e sustentabilidade.

É nesse ponto que entra a reforma tributária. Desde 2026, o Brasil iniciou a transição para o novo sistema de tributação sobre o consumo, com IBS e CBS, enquanto as SAFs permanecem submetidas a um regime específico, o Tratamento de Tributação Específica do Futebol. A legislação alcança receitas como premiações, programas de sócio-torcedor, direitos de imagem e operações relacionadas aos atletas.

Isso significa que patrocínios, direitos de transmissão, exploração comercial, transferências e demais receitas passam a ser analisados também pela ótica tributária. A estrutura societária, portanto, ganha peso na capacidade de competir. Não significa que a reforma obrigará clubes a se transformarem em SAF, mas cria um ambiente no qual governança, planejamento tributário, controle de custos e capacidade de atrair capital serão cada vez mais determinantes.

Clubes mal administrados estarão mais expostos. Os profissionalizados terão maior capacidade de adaptação. E investidores olharão não apenas para o tamanho das torcidas, mas para balanços, contratos, passivos, governança e geração de caixa. E é aqui que entra a liga, pois se a SAF reorganiza o clube por dentro e a reforma tributária modifica o ambiente financeiro, a liga pode mudar a maneira como os clubes negociam para fora.

Fato é que o futebol brasileiro ainda não conseguiu construir uma liga única. Libra e Futebol Forte União (FFU), antiga Liga Forte União (LFU), nasceram de uma tentativa frustrada de adesão e funcionam no ciclo atual como dois grandes blocos comerciais. A divisão não impediu a valorização dos direitos: a Rede Globo fechou acordos com os clubes da FFU para 2025-2029 e, somados aos contratos da Libra, alcança praticamente todo o Campeonato Brasileiro.

Hoje, os clubes têm contratos, investidores, compromissos e modelos diferentes de distribuição de receitas. A CBF tenta ocupar o espaço de mediadora. Em 2026, reuniu representantes dos 40 clubes das Séries A e B para apresentar um estudo sobre uma liga única. Como os direitos atuais estão comercializados até 2029, uma nova estrutura precisa estar preparada para o ciclo que se iniciará em 2030. Não é uma questão burocrática, mas uma disputa por bilhões de reais e pelo controle econômico do futebol brasileiro.


					SAFs, reforma tributária e liga única vão redesenhar o futebol
Foto: Pexels

O papel do investidor nesta equação

A FFU possui contratos com investidores envolvendo participação em receitas futuras e estruturas de governança. Criar uma liga única exige resolver o conflito entre contratos já assinados e a tentativa dos clubes de recuperar autonomia. O Cade também já tratou de questões relacionadas à formação e operação dos dois blocos, inclusive com acordos homologados em 2026. Por isso, não basta colocar presidentes de clubes numa sala e pedir que assinem uma união. Será preciso responder quem controla os direitos, quem decide como serão vendidos, quem recebe quanto, o que acontece com os contratos com investidores, como serão compensados os clubes que anteciparam receitas e qual será o peso de cada clube na nova estrutura.

A distribuição é especialmente sensível. Um modelo em debate trabalha com 40% da receita distribuída igualmente, 30% conforme desempenho esportivo e 30% conforme audiência. A proposta tenta equilibrar igualdade, mérito e capacidade de gerar audiência.

O Flamengo, por exemplo, tende a ser beneficiado pelos critérios de audiência e desempenho, enquanto clubes menores defendem uma parcela igualitária maior para reduzir a distância econômica. Este é o dilema das grandes ligas: quanto mais dinheiro se concentra nos maiores mercados, mais forte pode ficar o produto; quanto mais se distribui entre os participantes, maior tende a ser o equilíbrio competitivo.

Uma liga única bem construída pode transformar o Campeonato Brasileiro no produto esportivo mais valioso da América Latina. A negociação coletiva aumentaria o poder de barganha dos clubes e ampliaria as possibilidades de exploração de televisão, streaming, publicidade, mercados internacionais e novas plataformas.

Em 2025, Libra e FFU já negociaram conjuntamente os direitos internacionais do Campeonato Brasileiro, com exceção do Flamengo. Foi um pequeno ensaio do que poderia ser uma liga unificada. Mas há o risco de criar uma liga apenas para substituir a antiga cartolagem por uma nova elite econômica.

Uma liga não será moderna apenas porque terá CNPJ, investidores e executivos, mas se tiver governança, transparência, regras estáveis, distribuição racional de receitas, controle financeiro e capacidade de proteger o interesse coletivo. Caso contrário, apenas trocará os personagens.

Três revoluções a caminho

É justamente aqui que SAF, reforma tributária e liga se encontram, pois a SAF muda quem administra o clube, a reforma tributária muda como o dinheiro circula e é tributado e a liga muda como o principal produto coletivo é comercializado. Juntas, as três transformações podem produzir um futebol brasileiro muito mais profissional, mas também criar uma concentração de poder inédita.

Grandes clubes com SAFs capitalizadas, maiores participações nos direitos de transmissão e capacidade de investimento internacional podem ampliar ainda mais a distância para os menores se a distribuição for excessivamente concentrada. Por outro lado, uma divisão excessivamente igualitária pode reduzir o incentivo dos clubes de maior audiência a investir na construção de marcas globais. O equilíbrio será a chave.

Outra questão precisa ser considerada: o investidor não entra no futebol por paixão, mas porque espera retorno. Isso não é necessariamente ruim, mas pode gerar conflitos quando os interesses financeiros divergem dos interesses esportivos, institucionais ou sociais do clube. Profissionalização, portanto, não significa simplesmente colocar executivos em uma sala ou vender participação acionária, mas construir instituições capazes de sobreviver aos seus dirigentes.

Visto no calendário, 2030 parece distante, mas já está no centro das decisões. É nesse ciclo que uma eventual liga única poderá assumir os direitos do Campeonato Brasileiro em uma estrutura diferente. Até lá, os clubes terão atravessado a transformação tributária, amadurecido suas SAFs e descoberto quais modelos de investimento realmente funcionam.

Nesse período, o futebol brasileiro não estará apenas discutindo uma liga, mas um novo modelo econômico para o esporte e nem quem vencerá a disputa entre Libra, FFU e CBF, mas se conseguirá transformar o dinheiro que já produz em uma estrutura capaz de gerar competitividade, equilíbrio e sustentabilidade.

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